""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 5
A palavra família permaneceu no quarto quando Dante saiu. Clara tocou a aliança inexistente no dedo e ficou irritada consigo mesma. Um homem chamara ela e Lucy de família durante uma ameaça de morte.
Ainda assim, o coração escolhera escutar a parte errada da frase.
No escritório, Marcos espalhou fotografias, registros bancários e a gravação de Rafael. Dante ligou para a procuradora do GAECO que acompanhava os Moretti havia dois anos.
— Tenho provas contra Vítor Sanz.
— Provas obtidas como?
— Parte por investigação privada, parte por uma conversa gravada por um participante.
— Se trouxer material adulterado ou alguém ameaçado, eu devolvo tudo.
— Vai receber os originais, cadeia de custódia e advogados.
A procuradora marcou a entrega para o amanhecer. Marcos preparou cópias, documentou horários e deixou os aparelhos desligados em sacos próprios. Dante observou cada etapa.
— Você vai ficar aqui — ordenou Marcos.
— Sanz usou minha família.
— Exatamente. Espera que apareça no campo de aviação. Se for, destrói a operação e confirma a narrativa dele.
Dante fechou a pasta.
— Mande notícias a cada dez minutos.
— A cada quinze.
— Dez.
Marcos saiu antes que a discussão aumentasse.
Clara encontrou Dante sozinho na sala de jantar, diante dos três lugares ainda montados. Ele não tocara no café.
— Você não foi atrás deles.
— Marcos e a polícia foram.
— Deve estar odiando isso.
— Muito.
Clara puxou a cadeira ao lado.
— Obrigada.
— Ainda podem escapar.
— Agradeci por ficar.
O rádio de um segurança rompeu o silêncio. Vítor Sanz foi preso ao sair de um hangar com documentos falsos e dinheiro. Rafael apareceu num segundo endereço, tentando destruir telefones.
A polícia encontrou planilhas de juros ilegais, dados de famílias endividadas e pagamentos ligados aos Moretti.
Dante soltou o ar e apoiou a nuca na cadeira.
— Acabou? — perguntou Clara.
— Esta parte.
O pedido de guarda de Rafael perdeu sustentação antes do fim da semana. O Ministério Público juntou a gravação, os contatos com Sanz e a tentativa de alterar os dados escolares. As visitas supervisionadas foram suspensas.
A prisão de Sanz ocupou as notícias locais. Repórteres esperaram diante do portão e fizeram perguntas a qualquer carro que saísse. Dante orientou a equipe a não responder.
Clara publicou, por meio da defensora, uma única nota confirmando que colaboraria com a investigação e protegeria a identidade de Lucy.
Quando uma emissora exibiu a foto antiga da escola, Dante telefonou ao editor jurídico em vez de mandar homens ao estúdio. A imagem foi retirada, e o Ministério Público abriu apuração sobre o vazamento.
— Você resolveu com uma ligação comum — observou Clara.
— Meus advogados cobram caro para tornar ligações comuns ameaçadoras.
— Desde que a ameaça seja processo.
— Estou aprendendo seu vocabulário.
Clara deveria ter comemorado. Em vez disso, passou a procurar apartamentos.
A certeza sobre Dante surgiu numa terça-feira sem importância. Lucy derrubou suco de laranja sobre o jornal dele. O líquido avançou pela mesa, e a menina ficou imóvel, esperando uma bronca.
Dante ergueu o papel encharcado.
— Excelente.
— O quê?
— Detestava essa matéria.
Lucy riu. Dante entregou um pano, e os dois limparam juntos.
Clara assistiu da porta. A menina já não se encolhia ao cometer um erro perto dele. Dante sabia quanto açúcar Clara colocava no café.
Mudava reuniões quando ela precisava usar o escritório. Mantinha o quarto de Sofia destrancado.
O apartamento ficava a quinze minutos da escola. Tinha dois quartos, playground e aluguel que cabia no salário. Clara pagou o sinal com o primeiro depósito e guardou o recibo dentro da bolsa velha.
Ela visitou o imóvel sozinha. Mediu o espaço para a cama de Lucy, conferiu as janelas e falou com a síndica. Ao sair, ficou cinco minutos no playground vazio, segurando a chave.
Queria aquele endereço porque poderia mantê-lo sem favor. Também queria voltar para o jantar na propriedade. As duas vontades não se encaixavam, e Clara se recusou a amputar uma para facilitar a outra.
Na volta, colocou a chave sobre a escrivaninha. Lucy encontrou e perguntou de onde era. Clara respondeu a verdade.
A menina guardou o objeto dentro da gaveta, sob os desenhos, como se pudesse impedir a mudança escondendo o metal.
Anunciou a mudança durante o jantar.
— No sábado.
Lucy deixou o garfo cair.
— A gente vai embora?
— Vamos ter nossa casa.
— Esta é nossa casa.
A menina correu para o andar de cima. Clara fechou os olhos.
— Vou conversar com ela.
Dante falou antes que se levantasse.
— É isso que você quer?
— Preciso saber que consigo manter Lucy sem depender de você.
— Já provou.
— Provei que consigo sobreviver.
— O que falta?
— Viver.
Ele empurrou o prato, ainda sem tocar na comida.
— Não consegue viver aqui?
Clara segurou o encosto da cadeira.
— O que eu sou aqui, Dante?
Ele olhou os três lugares, a porta e as próprias mãos. A resposta não veio.
— Entendi — disse ela.
— Clara.
— Funcionária, hóspede, mulher que apareceu com problemas. Nenhuma dessas coisas é uma vida.
Ela subiu atrás de Lucy.
Margarida entrou com uma travessa vazia.
— O senhor é um idiota.
Dante ergueu o rosto.
— Perdão?
— Trabalhei para seu pai. Ele era pior.
Margarida recolheu o prato de Lucy.
— O senhor ama Clara.
Dante ficou em silêncio.
— Nem tente fingir que não ouviu.
— Ela merece normalidade.
— Normalidade é uma palavra usada por homem com medo.
— Quem eu amo morre.
Margarida parou. Guardou a travessa no aparador e voltou.
— Helena queria o senhor vivo.
— Estou vivo.
— Mora dentro de um mausoléu caro, dá ordens e chama isso de vida.
Dante olhou para as cadeiras vazias.
— Clara e Lucy chegaram, e a casa voltou a respirar. Não castigue as duas pelo fato de o senhor ter sobrevivido.
Margarida saiu. Na manhã seguinte, encontrou Dante no escritório antes do amanhecer. Colocou uma caixa pequena de veludo sobre a mesa.
— Era da sua avó.
Ele abriu. Um diamante antigo era cercado por pequenas safiras.
— Não vou usar uma joia para prender Clara.
— Ótimo. Use palavras para dar a ela escolha.
Dante fechou a caixa.
— Ela vai embora sábado.
Margarida empurrou o objeto para mais perto.
— Então aprenda a falar antes de sábado.