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""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 4

正文开头

Clara encontrou os dois guardas quando levou um copo d'água para Lucy. Um deles abriu a porta por ela; o outro verificou o corredor antes de permitir sua passagem.

Lucy dormia abraçada ao coelho, alheia ao círculo vermelho desenhado ao redor de seu rosto.

À uma da manhã, Clara deixou o quarto e desceu até o jardim de inverno. A neve batia no teto de vidro. Dante estava junto à porta, sem gravata, segurando dois celulares.

Durante a tarde, Clara tentara criar um plano de fuga por conta própria. Ligara para uma prima em Curitiba, pesquisara ônibus noturnos e separara documentos numa mochila. Marcos encontrou as buscas no sistema de segurança e colocou a passagem impressa diante de Dante.

— Ela sai pela garagem de serviço em menos de uma hora se decidir correr.

— Não bloqueie a conta dela.

— Nem pensei nisso.

— Pensou.

Marcos guardou o papel.

— Vou reforçar os portões.

Dante pediu que uma funcionária deixasse a mochila onde estava. Quando encontrou Clara no jardim de inverno, sabia que a conversa precisava terminar com uma escolha compreendida, sem chave tomada ou porta trancada.

— Devia dormir — disse ele.

— Você também.

— Durmo pouco.

Clara sentou no sofá de vime.

— Vou levar Lucy para longe.

— Sanz tem contatos nas rodoviárias e nos aeroportos.

— Não pode decidir por nós.

— Posso impedir uma fuga que entrega vocês.

— É isso que você chama de proteção?

Dante colocou os telefones na mesa.

— Chamo de manter uma criança viva.

Clara puxou os joelhos contra o peito.

— Estou com medo.

A rigidez dos ombros dele diminuiu.

— Ela sabe.

— Ótimo.

— Também sabe que você fica.

Clara olhou para o jardim escuro.

— Por que os Moretti mataram sua família?

Dante permaneceu de pé. Contou que Carlo Moretti queria usar transportadoras, armazéns e portos controlados pelos Valente. Dante recusou.

Semanas depois, alguém instalou a bomba.

— E Carlo?

— Morreu.

— Você matou?

— Dei a ordem.

Clara demorou a perguntar:

— Ajudou?

— Não.

Dante sentou na poltrona oposta. Falou de Helena reclamando da mesa comprida, de Sofia esperando histórias, do quarto trancado.

— Você colocou o luto nos móveis — disse Clara.

Ele ergueu os olhos.

— Analisa todo mundo assim?

— Só quem deixa dezenove cadeiras vazias para provar alguma coisa.

— Helena dizia que a mesa era ridícula.

— Parece uma mulher sensata.

— Quase sempre.

O canto da boca dele subiu. Clara sorriu de volta.

— Ela gostaria que você continuasse vivendo — disse.

— Quem falou em viver com alguém?

As bochechas de Clara aqueceram.

— Falei de gente em geral.

— Claro.

O telefone vibrou. Rafael tentava alterar os contatos de emergência na escola de Lucy.

Vinte minutos depois, Clara e Dante entraram numa sala de reuniões no escritório da Faria Lima. Marcos permanecia junto à porta. Rafael estava sentado diante de uma garrafa d'água fechada.

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— Seus homens bloquearam meu carro — reclamou.

— Pediram que conversasse — disse Dante.

— Com a mão dentro do paletó.

Marcos deu de ombros.

— Ar-condicionado forte.

Clara colocou a foto marcada sobre a mesa.

— Por que entregou informações da Lucy a Sanz?

Rafael perdeu o sorriso.

— Sou pai dela. Tenho direito aos registros.

— Sumiu por quatro anos.

— Evelyn me afastou.

— Mamãe ligou no aniversário de três anos. Você trocou de número.

Rafael apontou para Dante.

— E agora você vive com isso? Acha que ele está salvando vocês?

— Sei quem ele tem sido para Lucy.

— Quem?

— Presente.

Rafael empurrou a cadeira para trás.

— Quer ficar com ela? Pague o que sua mãe devia.

Dante não se mexeu. Marcos tocou discretamente o bolso onde o celular gravava.

— Repita — pediu Dante.

Rafael olhou para a porta.

— Você entendeu errado.

— Ouvi um pai trocar a desistência da guarda por dinheiro.

— Nunca disse que desistiria.

— Acabou de fornecer o motivo de toda a ação.

Clara se aproximou.

— Você amou Lucy alguma vez?

— Quem?

O rosto dela se contraiu.

Rafael entendeu tarde demais.

— Ela é minha filha.

— E você precisou perguntar de quem eu falava.

Marcos levou a gravação ao Ministério Público. Rafael, pressionado, confirmou que Sanz marcara um encontro num campo de aviação próximo a Bragança Paulista. A equipe de Dante rastreou a chamada e encontrou contato com um Moretti sobrevivente.

Clara ouviu a gravação antes de autorizar o uso na ação de guarda. A própria voz parecia firme; as mãos tinham tremido sob a mesa. A defensora explicou onde o arquivo ficaria armazenado e quem teria acesso.

Clara assinou o termo somente depois de ler a última linha.

No elevador, Clara cobriu a boca. As lágrimas chegaram em silêncio. Dante ficou ao lado dela até que, num movimento rápido, Clara encostou o rosto em seu peito.

— Só um minuto.

Os braços dele demoraram a fechar ao redor dela.

— Pegue dois.

À noite, Dante destrancou o quarto de Sofia e chamou Clara. Mostrou a caixa de música comprada em Florença.

— Ela odiava a bailarina. Queria um cavalo.

Clara riu.

— Criança de seis anos tem prioridades.

— Eu perdi tudo depois dos seis.

— Perdeu. E os seis anos que tiveram continuam existindo.

Dante sentou na cama. Clara ocupou o espaço ao lado, deixando um palmo entre os dois. Ele estendeu a mão.

Ela entrelaçou os dedos aos dele.

Marcos apareceu na porta aberta.

— Interceptamos outra ligação. Sanz e os Moretti vigiam a propriedade. Lucy é a isca para tirar você daqui.

Clara tentou soltar a mão, mas Dante a segurou.

— Você precisa mandar a gente embora — disse ela.

— Passei dez anos acreditando que proteção significava manter todo mundo longe.

Ele olhou as estrelas pintadas no teto.

— Vou encerrar isso sem perder outra família.

— Não use essa palavra como ordem — disse Clara.

Dante afrouxou os dedos. Ela poderia retirar a mão; permaneceu.

— Então me diga o que precisa.

— Informação. Um telefone que a segurança não controla. Acesso ao plano de emergência e direito de sair com Lucy se a polícia recomendar.

— Concordo.

— E ninguém entra no quarto dela armado.

Marcos assentiu da porta.

Dante chamou a delegada responsável e colocou o telefone no viva-voz. Clara ouviu a avaliação de risco, confirmou os números de emergência e recebeu um aparelho registrado em seu nome. Só depois concordou em ficar.

— Agora pode chamar de proteção — disse ela.

Dante olhou para as mãos unidas sobre a colcha. A palavra família teria de sobreviver a limites, documentos e ao direito de Clara dizer não.

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