""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 2
O contrato estava sobre a mesa do café quando Clara desceu. Lucy comia panquecas na cozinha, sob a supervisão de Margarida. Dante aguardava sozinho na sala menor, diante de uma xícara intacta.
— Já viu este documento?
Clara reconheceu a assinatura da mãe antes de terminar a primeira página.
— Onde conseguiu isso?
— Marcos localizou a cópia com o cobrador.
Ela leu o valor original. Cento e quarenta mil reais. Depois encontrou as multas, os juros semanais e o saldo atualizado de quatrocentos e sessenta e cinco mil.
— Mamãe nunca fez empréstimo.
— Fez durante o tratamento.
— Ela teria me contado.
Dante apontou para a cláusula referente ao medicamento importado. Clara conhecia o nome. O convênio suspendera a cobertura durante seis semanas, e Evelyn dissera que uma instituição beneficente pagaria as doses.
Clara cobriu a boca.
— Ela mentiu para mim.
— Estava doente e procurou uma saída.
— Quem emprestou?
— Vítor Sanz.
O tom de Dante explicou a profissão antes que Clara perguntasse.
— Agiota?
— E intermediário de gente que usa cobrança para comprar obediência.
Clara soltou uma risada curta e abriu a carteira. Colocou sobre a mesa duas notas amassadas e moedas.
— Tenho cinquenta e oito reais.
— Guarde.
— Sanz sabe que a dívida morreu com ela?
Dante não respondeu.
Clara juntou o dinheiro.
— Vamos embora hoje.
— Não.
— Lucy não pode ficar no meio disso.
— Lá fora, Sanz encontra vocês antes de a polícia entender o caso.
— Também não vou trocar um homem perigoso por outro.
Dante apoiou os cotovelos na mesa.
— Ninguém vai cobrar hospedagem, proteção ou gratidão.
— Todo mundo cobra alguma coisa.
Lucy apareceu na porta com o coelho debaixo do braço.
— A Margarida achou gotas de chocolate.
Clara fechou o contrato e forçou um sorriso.
— Então você encontrou o café da manhã perfeito.
A menina voltou correndo. Dante esperou o som dos passos desaparecer.
— Você faz isso rápido.
— O quê?
— Esconde tudo antes que ela olhe.
Clara guardou as moedas.
— Ela já perdeu a mãe. Não precisa carregar uma conta de quatrocentos mil.
— Quatrocentos e sessenta e cinco.
— Obrigada pela precisão.
Dante quase sorriu.
— Fiquem até eu retirar Sanz da equação. Depois você decide.
Nos três dias seguintes, a casa mudou de som. Botas infantis apareceram junto à porta. Um copo de chocolate ficou sobre uma mesa antiga.
Lucy descobriu o piano e apertou as teclas durante uma chamada de Dante com três diretores.
Marcos passou pela biblioteca e encontrou a menina desenhando seu rosto com sobrancelhas enormes.
— Isso é ofensivo.
— É o senhor Sério.
— Meu nome é Marcos.
— Senhor Sério é melhor.
Ele levou o desenho para o escritório.
Clara recusou permanecer parada. Pediu tarefas a Margarida, organizou notas da despensa e comparou contratos de fornecedores. Dante a encontrou diante do computador da cozinha, cercada por faturas.
— Você está mexendo nas contas da casa.
— Com autorização da Margarida.
— Margarida não é dona da casa.
— Ela discordaria.
Clara girou a tela. Um fornecedor cobrava há dezoito meses por cento e vinte jogos de roupa de cama entregues apenas no papel. A diferença ultrapassava quatro mil reais por mês.
— Sua equipe não viu — disse ela. — O código foi alterado no sistema e ninguém conferiu as notas físicas.
Dante examinou a planilha.
— Fez isso por diversão?
— Eu estava entediada.
— Assustador.
Clara riu. O som saiu antes que ela o contivesse. Dante permaneceu olhando por tempo demais, e o sorriso dela sumiu.
— Que foi?
— Nada.
Naquela tarde, ele ofereceu um contrato de meio período para administrar as contas domésticas. Clara recusou o primeiro salário, chamando-o de caridade. Dante reduziu a carga e manteve o valor.
Discutiram até Margarida ameaçar trancar os dois na despensa.
O acordo final tinha horário, função e salário compatíveis com o mercado. Clara assinou somente depois de acrescentar que poderia pedir demissão sem perder o quarto naquela semana.
— Você negocia tudo — disse Dante.
— O senhor está acostumado a gente com medo.
— Pessoas sensatas costumam ter.
— Já enfrentei proprietários piores.
Clara telefonou ao fornecedor diante de Margarida e exigiu notas de entrega, nomes dos recebedores e estorno. O gerente tentou transferi-la três vezes. Ela anotou cada horário, citou as cláusulas do contrato e encerrou a conversa com um prazo de vinte e quatro horas.
Dante, parado no corredor, ouviu tudo.
— Você não elevou a voz.
— Gritar facilita desligarem. Número de protocolo é mais assustador.
No dia seguinte, a empresa devolveu parte do valor e aceitou auditoria. Clara imprimiu o comprovante e colocou na mesa de Dante.
— Trabalho entregue. Agora posso aceitar o salário sem ouvir que foi presente.
— Eu nunca disse isso.
— Seu rosto disse.
Ele guardou o papel na gaveta onde antes mantinha somente relatórios de segurança.
Na quarta noite, Clara encontrou a cama de Lucy vazia. O banheiro estava aberto, o corredor silencioso.
— Lucy!
A segurança fechou os portões. Dante saiu do escritório enquanto Marcos dava ordens pelo rádio. Uma porta no corredor leste estava entreaberta.
O rosto de Dante perdeu a cor.
No fim daquele corredor ficava o quarto de Sofia.
Ele empurrou a porta. Estrelas pintadas cobriam o teto. Uma pequena bailarina girava dentro de uma caixa de música sobre o chão.
Lucy estava sentada ao lado, com o coelho no colo.
— Ouvi a música — explicou.
Clara avançou.
— Você nunca sai sem me avisar.
— Desculpa.
Lucy encarou Dante.
— Era o quarto da sua filha?
— Era.
— Você sente falta dela todo dia?
Dante entrou. Os pés atravessaram a soleira pela primeira vez em dez anos. Sentou-se na beirada da cama.
— Todo dia.
Lucy rastejou até ele e cobriu sua mão com a própria.
— Minha mãe dizia que dá para sentir saudade e continuar amando outras pessoas.
Clara virou o rosto, enxugando a bochecha. Dante fechou a caixa de música e tocou o coelho de orelha costurada.
— Sua mãe parecia saber muita coisa.
— Ela sabia quase tudo.
Lucy aceitou voltar para a cama. Dante permaneceu no quarto. A manga amarela de um suéter ainda aparecia atrás da porta.
— Desculpa — murmurou para o espaço vazio.
Marcos o esperava no térreo com uma fotografia de vigilância. Vítor Sanz saía de um restaurante ao lado de Rafael Keller.
— O pai que desapareceu — disse Dante.
— Trabalha para Sanz. E apresentou Evelyn a ele.
Marcos virou a foto. Havia uma anotação copiada de uma mensagem interceptada: "Lucy garante que Clara pague".
Dante fechou os dedos sobre o papel.
— Encontre Rafael antes que ele chegue perto da menina.
A campainha do portão tocou. Na tela do celular, Rafael Keller estava diante da câmera, acompanhado por um advogado e segurando documentos do fórum.