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""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 1

正文开头

— Se o senhor não puder me deixar ficar — disse Clara Benevides, com os dentes batendo —, deixe pelo menos minha irmã entrar.

Dante Valente parou diante das portas abertas. A neve cobria a entrada da propriedade em Campos do Jordão, e a mulher à sua frente usava um moletom vinho fino demais para aquele frio. As mãos dela estavam roxas.

Mesmo assim, o corpo inteiro formava uma barreira diante de alguém que Dante ainda não conseguia ver.

— Sua irmã?

Clara hesitou e deu meio passo para o lado.

Uma menina de sete anos apareceu atrás dela. O casaco de tricô quase chegava aos joelhos. Os cachos castanhos estavam molhados, as botas traziam lama e neve, e os dois braços apertavam um coelho de pano com a orelha esquerda costurada por linha azul.

Os olhos cinza-azulados subiram até Dante e baixaram na mesma hora.

Dez anos caíram sobre ele. Sofia usando pijama amarelo, arrastando um urso pelo corredor. Sofia sentada diante da porta do escritório, exigindo a história que o pai prometera ler.

Sofia dentro de um carro que explodira no lugar daquele que Dante deveria ter ocupado.

Helena morrera na hora. A filha resistira até a ambulância. Dante nunca perguntou ao socorrista se ela chamara por ele.

— Nossa mãe morreu há seis semanas — continuou Clara. — Meu pai morreu quando eu tinha dezessete. O pai da Lucy sumiu antes de ela fazer três anos.

A menina segurou a barra do moletom da irmã.

Clara se agachou e apertou o cachecol dela.

— Eu vou embora, Luce. Você fica num lugar quente só esta noite.

— Não.

— Vai ficar tudo bem.

— Eu durmo no chão com você.

Dante virou o rosto para a casa. A luz dos lustres atravessava o hall de mármore. Mais adiante, uma mesa comprida tinha vinte cadeiras.

Havia dez anos, somente uma recebia prato.

Margarida Alves surgiu na porta interna. Trabalhara para os Valente desde que Dante era adolescente e conhecia o peso de cada quarto fechado naquela casa. Olhou para a menina, depois para Dante.

Esperou.

— As duas entram — disse ele.

Clara piscou.

— O quê?

— Entre antes que eu precise chamar uma ambulância.

Lucy espiou por trás dela.

— A Clara também?

— Também.

Os ombros da menina desceram. Clara continuou imóvel.

— O senhor disse que desconhecidos não dormiam aqui.

— Mudei de ideia.

— Por quê?

Marcos Bellini, chefe da segurança, observava a poucos metros. A pergunta de Clara pareceu ofendê-lo em nome de toda a hierarquia daquela casa.

Dante respondeu:

— Separar vocês seria crueldade.

Clara abriu a boca, fechou e puxou Lucy para dentro. A menina congelou ao ver as gotas escuras deixadas pelas botas no mármore branco.

— Sujei o chão.

Margarida se abaixou diante dela.

— O chão sobrevive. Seus pés, com essas meias, talvez não.

Lucy olhou para Clara antes de aceitar a mão da mulher. Dante acompanhou as duas até desaparecerem na sala aquecida.

正文1

Marcos se aproximou.

— Escritório. Agora.

— Cinco minutos.

— Você colocou duas pessoas sem identificação dentro da residência.

— Três minutos.

No escritório, Marcos fechou a porta e abriu o celular sobre a mesa.

— Posso pagar um hotel para elas. Posso levar as duas a um abrigo verificado. Manter desconhecidos aqui quebra todos os protocolos.

— Verifique os nomes.

— Já comecei. A ala leste continua trancada.

Dante lançou um olhar seco.

— Claro.

— Você viu Sofia naquela menina.

O silêncio empurrou Marcos um passo para trás.

— Não use o nome dela para discutir segurança.

Marcos guardou o telefone.

— Entendido. Até eu concluir a checagem, Clara não circula sozinha.

Vinte minutos depois, Dante entrou na sala de jantar e parou. Dois lugares novos tinham sido arrumados ao lado do seu. Margarida permanecia junto ao aparador, serena demais.

— Eu mandei hospedá-las.

— Sim, senhor.

— Não mandei trazê-las para o jantar.

— Também não proibiu.

Lucy apareceu com os cachos secos, um cardigã creme e o coelho enrolado numa toalha pequena. Olhou a mesa como quem entrava num museu.

Clara veio atrás, usando calça de moletom e suéter emprestados.

— Podemos comer na cozinha — disse ela.

Dante puxou a cadeira ao lado da sua.

— Sentem.

Lucy subiu primeiro. Clara ocupou a cadeira seguinte, mantendo a bolsa velha aos pés. Margarida serviu canja, legumes assados, pão e fatias de peru.

— Posso comer tudo isso? — perguntou Lucy.

Dante franziu a testa.

— Por que não poderia?

Clara alisou o guardanapo.

— A gente estava fazendo a comida durar.

Dante apontou para o aparador.

— Margarida, mais pão.

— Já temos uma cesta cheia.

— Traga outra.

As bochechas de Clara ficaram vermelhas.

— Não precisa.

— Nesta casa, ninguém calcula se vai sobrar comida para amanhã.

Clara baixou os olhos. Lucy mergulhou o pão na canja e comeu em silêncio. Alguns minutos depois, reparou numa fotografia emoldurada atrás de Dante.

Helena sorria ao lado dele, e Sofia ocupava o espaço entre os dois.

— Aquela menina parece com você.

Os dedos de Dante apertaram o garfo.

— Lucy — repreendeu Clara.

— É minha filha — disse ele.

— Ela mora aqui?

— Morreu.

Lucy abraçou o coelho.

— Minha mãe também.

Dante afastou a cadeira.

— Terminei.

Ele saiu antes que alguém respondesse. Atrás dele, Lucy perguntou se fizera algo errado.

— Você lembrou ao senhor Dante uma pessoa que ele amava — explicou Margarida.

Às duas e treze da manhã, Marcos entrou no escritório com uma pasta. Clara tinha vinte e oito anos, nenhuma passagem pela polícia e seis anos como coordenadora administrativa. Abandonara o emprego para cuidar da mãe, Evelyn, durante um câncer agressivo.

As despesas médicas consumiram as economias. O aluguel atrasou. Veio o despejo.

— E o pai de Lucy? — perguntou Dante.

— Rafael Keller. Sumiu há quatro anos. Deve dinheiro a Vítor Sanz.

O nome fez Dante apoiar as duas mãos na mesa. Sanz administrava empréstimos ilegais para aliados remanescentes dos Moretti.

— Qual é a ligação com Clara?

Marcos abriu um contrato.

— Evelyn pegou cento e quarenta mil reais durante o tratamento. Com juros e multas inventadas, Sanz cobra quatrocentos e sessenta e cinco mil.

— Evelyn morreu.

— Agora ele procura Clara.

Um grito infantil atravessou o teto. Dante saiu antes de Marcos fechar a pasta.

No quarto de hóspedes, Clara estava sentada na cama, segurando Lucy contra o peito. A menina chorava, ainda agarrada ao coelho.

— Pesadelo — disse Clara. — Ela tem desde que mamãe piorou.

Lucy estendeu uma mão para Dante.

— Senhor Dante, pode olhar a janela?

Ele verificou o trinco, a trava inferior e o espaço entre as cortinas. Depois testou tudo outra vez.

— Está fechada.

— A gente está segura aqui?

Dante olhou para Clara. Ela mantinha a mão sobre a cabeça da irmã, mas o corpo voltara a formar a mesma barreira da entrada.

— Está — respondeu ele. — Vocês duas estão seguras.

No corredor, Marcos esperava com o contrato de dívida aberto na página em que o nome de Clara aparecia circulado em vermelho.

Dante pegou a pasta e fechou-a.

— Agora Sanz tem um problema — disse Dante.

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