"A Empregada Que Provou o Jantar do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — A Noiva Serviu o Veneno
“Você ficará viúva antes de se tornar esposa.”
A voz de Álvaro saiu do gravador pela segunda vez, agora diante de Dante, Marina, Bruno e Padre Miguel.
Ninguém precisava discutir o sentido da frase.
Verônica sabia que o jantar seria envenenado.
Dante desligou o aparelho e guardou o cartão de memória no bolso interno do paletó.
“Voltamos para São Paulo.”
“Para fazer o quê?”, perguntou Marina. “Perguntar se eles tentaram matar o senhor?”
“Para dar a eles a oportunidade de acreditar que ainda não sei.”
Padre Miguel tentou impedi-lo de sair. Álvaro tinha homens na estrada, contatos na polícia e participação em empresas de segurança. Dante respondeu que justamente por isso não poderia se esconder.
Na porta da igreja, Marina segurou seu braço.
“Se agir como o chefe da máfia que todos temem, ele vencerá.”
“Se eu não agir, ele tentará de novo.”
“Use a verdade, não uma arma.”
Dante olhou para a mão dela sobre sua manga.
“A verdade costuma chegar tarde demais.”
“Desta vez chegou antes da sobremesa.”
O canto de sua boca se moveu. Ele cobriu a mão dela por um instante, depois entrou no carro.
Durante o retorno, Bruno recebeu a programação enviada pela assessoria de Verônica. Ela transformara o anúncio suspenso numa coletiva de imprensa para “esclarecer os boatos” e confirmar o casamento.
“Ela quer obrigá-lo a aparecer”, disse Bruno.
“Então aparecerei.”
A coletiva ocorreria no salão de eventos do Grupo Montenegro, no Itaim Bibi. Centenas de convidados, acionistas e jornalistas já haviam confirmado presença.
Marina leu o cardápio no tablet. Haveria espumante, canapés e uma sobremesa individual servida após o pronunciamento.
“Quem escolheu o bufê?”
“Verônica.”
“E quem controla a cozinha?”
“Uma empresa do Grupo Salgado.”
Dante entendeu.
“Ela pretende terminar o que começou.”
Na manhã seguinte, a imprensa cercou a entrada do prédio. Verônica surgiu diante das câmeras com um vestido branco e uma aliança nova, embora Dante nunca a tivesse colocado em sua mão.
“Nosso casamento continua”, declarou. “Uma funcionária emocionalmente instável tentou explorar uma coincidência para se aproximar de Dante.”
Marina assistia de uma sala técnica, usando novamente o uniforme de empregada.
“Ela me devolveu ao meu lugar para as câmeras”, disse.
“Seu lugar hoje é onde conseguirmos observar o serviço”, respondeu Bruno.
Ele instalara microcâmeras nas duas cozinhas. Dante entraria no salão sem acusar ninguém. Marina acompanharia as bandejas, e a delegada Camila Nogueira aguardaria do outro lado da rua com mandado para recolher os alimentos.
“Se algo acontecer com ela”, disse Dante a Bruno, “você tira Marina primeiro.”
“E o senhor?”
“Eu sou a isca.”
Marina ouviu.
“Não sou uma pessoa que precisa ser retirada.”
“Ontem você respirou gás por minha causa.”
“E o senhor teria bebido veneno sem mim.”
“Estamos empatados.”
“Não é uma competição.”
“Com você, tudo parece ser.”
Quando Dante entrou no salão, Verônica abriu um sorriso ensaiado e o beijou perto da boca. Ele não correspondeu.
Álvaro esperava ao lado do palco, apoiado na bengala.
“Meu filho, ainda há tempo para resolver isso em família.”
“Foi o que minha mãe tentou fazer.”
O rosto do tio permaneceu sereno.
“Os mortos não dão conselhos.”
Dante passou por ele.
Na cozinha, Marina viu um garçom separar uma taça de espumante das demais. Usava luvas transparentes e recebeu um frasco de uma mulher com uniforme do bufê.
Bruno ampliou a imagem.
“É a assessora de Verônica.”
Marina seguiu a bandeja. A taça marcada por uma pequena fita branca foi colocada à frente de Dante no palco.
Verônica ergueu a própria taça.
“À união de duas famílias.”
Dante levou o cristal em direção aos lábios.
Marina atravessou o salão e bateu na mão dele. A taça caiu sobre o piso, espalhando espumante entre os sapatos dos jornalistas.
O tumulto explodiu.
“De novo essa mulher!”, gritou Verônica.
Marina pegou outra taça da bandeja e a entregou a Dante.
“Se todas são iguais, beba esta.”
Ele bebeu sem desviar os olhos da noiva.
Verônica ficou branca.
Marina apontou para o líquido derramado.
“A taça do senhor foi separada na cozinha. A assessora dela entregou o frasco.”
Camila entrou com agentes e apresentou o mandado. A assessora tentou fugir, mas foi detida junto à saída de serviço. Em sua bolsa havia um vidro de medicamento cardíaco concentrado.
“Eu não sabia para que era”, afirmou.
Camila colocou diante dela uma sequência impressa de mensagens. A assessora recebera R$ 80 mil de uma empresa criada pelo advogado de Álvaro. Havia ainda uma instrução enviada por Verônica: “A taça com a fita branca é a dele. Não erre novamente.”
“Novamente?”, repetiu Marina.
A mulher começou a chorar.
“No jantar, eu só entreguei a senha das câmeras. Disseram que fariam Dante dormir e cancelariam o anúncio. Eu não toquei na sopa.”
Verônica tentou arrancar as folhas da mão de Camila.
“Essas conversas foram adulteradas.”
“A perícia responderá”, disse a delegada. “Mas o depósito saiu de uma empresa na qual você é administradora.”
Álvaro observava tudo sem demonstrar inquietação. O plano sacrificava a assessora e talvez Verônica, mas ainda não chegava diretamente a ele.
Verônica tomou o microfone.
“Isso é uma armação dessa empregada! Ela quer dinheiro.”
Dante retirou o gravador do bolso.
“Quanto dinheiro você ganharia quando eu morresse?”
Bruno reproduziu o trecho em que ela perguntava: “E quando Dante beber?”
Os jornalistas avançaram. Verônica arrancou a aliança do dedo.
“Álvaro disse que seria apenas uma dose para deixá-lo doente. Você adiaria a legalização do grupo, e nós controlaríamos a votação.”
Dante pediu que Bruno projetasse a minuta da fusão. Uma cláusula concedia à esposa do presidente direito de voto temporário em caso de incapacidade médica. Outra transferia 18% das ações para o Grupo Salgado depois da cerimônia civil.
“Você não queria um marido”, disse Dante. “Queria meu lugar na mesa.”
“Eu protegi um acordo que você estava destruindo por culpa”, respondeu Verônica. “Seu pai entendia que respeito vem do medo.”
“Meu pai morreu tentando sair do acordo.”
A frase surpreendeu Álvaro. Pela primeira vez, ele compreendeu que Dante ouvira mais do que a gravação do noivado.
“Ontem você disse que a dose do jantar não era fatal”, lembrou Dante.
Ela percebeu que acabara de confirmar a primeira tentativa.
Álvaro moveu-se em direção à saída, mas Camila bloqueou seu caminho.
“Ainda não tenho ordem para prendê-lo”, disse ela. “Tenho ordem para ouvi-lo.”
Ele sorriu.
“Uma gravação sem perícia e o pânico de uma noiva não provam nada.”
Dante subiu ao palco e retirou do bolso a aliança que pretendia entregar a Verônica.
“Este casamento acabou.”
“Você vai destruir uma fusão bilionária por causa de uma empregada?”
“Não. Por causa de duas tentativas de homicídio.”
Verônica olhou para Marina com ódio.
“Ele nunca fará de você uma Montenegro.”
Marina respondeu sem levantar a voz.
“Eu não bebi veneno para ganhar um sobrenome.”
Os telões atrás do palco falharam. A transmissão oficial foi substituída por uma imagem tremida, gravada num quarto simples.
Uma mulher de cabelos castanhos com fios prateados apareceu usando um casaco escuro. A cicatriz sobre a sobrancelha esquerda era idêntica à fotografia.
Dante deixou cair a aliança.
A mulher retirou o capuz.
“Dante”, disse ela. “Eu sou sua mãe.”
O salão inteiro silenciou.
Celina aproximou-se da câmera.
“E o homem ao seu lado tentou me matar há vinte anos.”
Álvaro ergueu a bengala e bateu no painel de energia. Os telões apagaram.
Quando as luzes de emergência acenderam, ele havia desaparecido.
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