"A Empregada Que Provou o Jantar do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — A Mulher Que Dante Enterrou
Dante cobriu a boca de Marina com a própria camisa e disparou contra a trava da porta.
O primeiro tiro ricocheteou no metal. O segundo quebrou parte do mecanismo, mas a porta continuou fechada.
“Não respire fundo”, ordenou.
Bruno tentou contato pelo rádio. Só recebeu estática. O gás já escondia o teto do depósito.
Marina ajoelhou-se perto da parede, onde o ar ainda estava mais limpo. Seus olhos ardiam.
“A refrigeração.”
“O quê?”
“Se o sistema joga gás para dentro, existe uma saída de manutenção.”
Ela apontou para uma grade junto ao piso. Bruno chutou duas vezes, mas a chapa não cedeu. Dante retirou uma barra de ferro da cadeira e forçou os parafusos.
Do corredor veio uma batida.
Os seguranças do lado de fora haviam percebido o bloqueio. Enquanto eles atacavam a porta, Dante conseguiu arrancar a grade.
“Marina primeiro.”
“Rosa pode estar aqui.”
“Você não encontrará sua mãe se morrer.”
Ele a empurrou para o duto estreito. Marina rastejou no escuro, ouvindo Dante e Bruno atrás dela. O metal feria seus joelhos, mas o ar se tornava menos pesado.
A saída dava numa sala de máquinas. Marina caiu sobre o concreto e puxou Dante pela mão quando ele surgiu.
Bruno saiu por último, tossindo.
Os homens de segurança arrombaram a porta poucos segundos depois. O gás era nitrogênio, destinado a reduzir o oxigênio das câmaras sem deixar resíduos tóxicos.
“Queriam que parecesse acidente”, disse Bruno.
Dante olhou para as câmeras no alto.
“Queriam assistir.”
Marina voltou à sala da cadeira antes que alguém pudesse impedi-la. Recolheu o gravador e encontrou, sob uma das pernas, uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.
“É de Rosa.”
No verso havia três letras riscadas: ASM.
“Abrigo São Miguel”, concluiu Dante. “Atibaia.”
Bruno encontrou imagens gravadas num computador escondido. Rosa fora retirada dali naquela manhã, duas horas antes da chegada deles. Um homem alto a conduzia até um carro.
O rosto não aparecia, mas a mão segurava uma bengala com cabo dourado.
“Álvaro”, disse Marina.
Dante permaneceu diante da tela.
“Uma bengala não é prova.”
“O senhor ainda quer protegê-lo?”
“Quero ter certeza antes de condenar o homem que me criou.”
“Minha mãe não recebeu esse cuidado.”
Marina apertou a medalha até a borda marcar sua pele. Dante percebeu que qualquer ordem para afastá-la seria inútil.
“Vamos para Atibaia.”
“Agora.”
“Depois que um médico examinar seus pulmões.”
“Sua mania de mandar é insuportável.”
“Sua mania de quase morrer também.”
Pela primeira vez, ela viu algo além de frieza nos olhos dele. Não era apenas preocupação. Era medo.
No carro, Marina escutou novamente o gravador. Depois da mensagem de Rosa, havia quase três minutos de ruídos. Ela aumentou o volume.
Uma porta se fechava. Um homem perguntava onde estava o livro original. Rosa recusava responder.
Então surgiu uma voz feminina.
“Álvaro, deixe-a em paz.”
Dante reconheceu antes que Marina perguntasse.
“É minha mãe.”
A voz de Celina estava mais velha, porém mantinha o mesmo ritmo das poucas fitas de infância que Dante guardava num cofre.
Álvaro respondeu com clareza.
“Você deveria ter morrido naquela serra.”
Celina disse algo abafado. Em seguida, ouviu-se um golpe e o gravador caiu.
Marina segurou o braço de Dante.
“Agora acredita?”
Ele retirou a mão dela, não com rejeição, mas para esconder que tremia.
“Acredito que Álvaro sabe que ela sobreviveu.”
“Isso muda tudo.”
“Muda quem eu preciso destruir.”
A frase devolveu a Marina a imagem do chefe da máfia. Dante percebeu.
“Não vou matar meu tio diante de você.”
“Que alívio. Meu padrão para relacionamentos sempre foi um pouco mais alto.”
Ele soltou uma risada curta, quase sem som.
“Relacionamentos?”
“Foi uma figura de linguagem.”
“Claro.”
O carro parou no Hospital Santa Cecília para exames rápidos. Enquanto Dante esperava, recebeu uma mensagem de Verônica exigindo explicações sobre a imprensa e o casamento.
Ele respondeu apenas: “O anúncio está suspenso.”
A reação veio em segundos.
“Por causa da empregada?”
Dante guardou o celular sem responder.
Marina saiu do consultório com uma prescrição e uma advertência para descansar. Quando soube que ele suspendera o noivado, não demonstrou satisfação.
“Verônica ficará mais perigosa.”
“Você acredita que ela colocou o veneno?”
“Acredito que alguém lhe prometeu algo maior do que um casamento.”
Seguiram para Atibaia ao anoitecer. A Igreja de São Miguel ficava afastada do centro, cercada por eucaliptos e construções simples do antigo abrigo.
Padre Miguel Sampaio os recebeu com o rosto tenso.
“Demorou muito, Dante.”
Dante parou no pátio.
“O senhor me conhece?”
“Carreguei você no batismo.”
“Então sabia que minha mãe estava viva.”
O padre abriu a porta lateral.
“Sabia que uma mulher ferida chegou aqui naquela noite. Não sabia em quem confiar.”
Dentro da sacristia havia uma caixa com registros médicos, fotografias e uma fita de vídeo. O laudo mostrava que Celina sofrera fraturas e queimaduras, mas sobrevivera.
“Quem estava no carro encontrado?”, perguntou Dante.
“Uma mulher que trabalhava para Álvaro. O corpo foi identificado com as joias de sua mãe.”
Dante fechou os olhos. Durante vinte anos, visitara um túmulo ocupado por uma desconhecida.
Marina encontrou o nome de Rosa numa ficha de atendimento.
“Ela trouxe Celina para cá.”
“Rosa arriscou tudo”, confirmou o padre. “Depois voltou à mansão para descobrir quem ordenara o acidente.”
“Por que minha mãe não voltou para mim?”
Padre Miguel colocou uma fita no aparelho antigo. Celina apareceu na tela, ainda jovem, com parte do rosto enfaixada.
Antes de iniciar a gravação, o padre entregou a Dante um envelope lacrado pelo cartório de Atibaia. Dentro havia uma cópia da certidão de atendimento de Celina e uma declaração assinada por duas enfermeiras que cuidaram dela após a queda do carro.
Uma das enfermeiras desaparecera em 2001. A outra vivia sob identidade protegida no interior de Minas Gerais.
“Álvaro passou anos apagando testemunhas”, explicou o padre. “Rosa manteve cópias porque sabia que documentos oficiais podiam ser comprados.”
Dante encarou a assinatura do próprio pai numa autorização de transferência.
“Ele sabia desde o começo.”
“Sabia que Celina sobrevivera”, respondeu o padre. “Não sei se sabia quem provocou o acidente.”
Marina percebeu que a raiva de Dante estava mudando de direção. O homem que ele aprendera a honrar também construíra parte da mentira.
“Dante, se um dia assistir a isto, saiba que não abandonei você. Álvaro ameaçou matar meu filho e a menina de Rosa se eu reaparecesse.”
Marina recuou.
“A menina era eu.”
Celina continuou:
“Seu pai prometeu impedir Álvaro, mas passou a obedecê-lo. Eu precisava esperar até termos o livro que provasse tudo.”
A gravação terminou.
Dante virou-se para o padre.
“Onde está minha mãe?”
“Saiu daqui há quatro meses com Rosa. Foram procurar o livro original.”
Marina mostrou a medalha encontrada no armazém.
“Rosa deixou isto.”
O padre examinou as letras ASM e abriu o fecho. Dentro havia um minúsculo papel enrolado.
Uma sequência de números levava a um armário da antiga rodoviária de Atibaia.
Eles chegaram antes das dez da noite. Bruno isolou o corredor enquanto Marina usava a data do acidente como senha.
O armário continha roupas de Rosa, um envelope e outro gravador.
Marina apertou o botão.
“Dante precisa saber que seu pai foi envenenado lentamente”, dizia Rosa. “A mesma pessoa que matou o pai tentará matar o filho durante o anúncio do casamento.”
Uma segunda voz entrou na gravação.
Álvaro.
“Leve Rosa para Atibaia. Celina virá atrás dela.”
Depois, Verônica respondeu:
“E quando Dante beber?”
Álvaro riu.
“Você ficará viúva antes de se tornar esposa.”
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