"A Empregada Que Provou o Jantar do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — O Quarto Atrás da Cozinha
Dante saiu do esconderijo antes que Álvaro pudesse tocar novamente a bengala no piso.
“Se sabia desta sala, por que nunca me contou?”
Álvaro encarou o sobrinho, depois Marina. Sua expressão não denunciava surpresa, apenas cansaço calculado.
“Porque sua mãe construiu isso durante uma fase de paranoia.”
“Há registros de caminhões da empresa.”
“Celina desconfiava de todos. Inclusive de mim.”
Marina levantou a fotografia.
“Rosa escreveu que o senhor as vendeu.”
Álvaro apertou o cabo da bengala.
“Sua mãe era uma cozinheira ressentida. Foi demitida por roubar.”
Marina avançou, mas Dante bloqueou seu caminho com o braço.
“Rosa não foi demitida”, disse ela. “Trabalhou aqui até três meses atrás, sem registro, entrando pela garagem de serviço.”
Dante virou o rosto para o tio.
“Isso é verdade?”
“Eu a contratei para eventos discretos. Ela precisava de dinheiro e não queria que a filha soubesse.”
“Por que escondê-la de mim?”
“Porque o nome dela estava ligado às fantasias de Celina.”
Bruno apareceu na cozinha com dois seguranças. Dante lhe entregou a fotografia e ordenou que lacrasse o cômodo.
“Nada sai daqui sem ser fotografado.”
Álvaro perdeu parte da calma.
“Você pretende entregar documentos internos à polícia?”
“Pretendo descobrir quem tentou me envenenar.”
“A polícia aproveitará para destruir tudo que seu pai construiu.”
Dante aproximou-se.
“Talvez algumas coisas precisem ser destruídas.”
Álvaro saiu sem se despedir. O som da bengala atravessou o corredor como uma contagem regressiva.
Bruno encontrou uma pequena câmera escondida sobre a porta. O cartão de memória havia sido retirado, mas o aparelho transmitia para a rede interna.
“Alguém sabia no instante em que abriram”, concluiu.
Marina examinou as caixas. Uma delas trazia uma etiqueta recente, datada de duas semanas antes.
“Este cômodo não estava abandonado.”
Dentro havia recibos de combustível, luvas térmicas e um pedaço de fita adesiva com fios grisalhos presos.
Dante observou Marina guardar o medo atrás de perguntas práticas.
“Se Rosa esteve aqui, encontraremos sua rota.”
“O senhor não pode prometer isso.”
“Não costumo prometer o que não posso cumprir.”
“Homens como o senhor prometem proteção antes de pedir obediência.”
“E mulheres como você bebem veneno antes de pedir ajuda.”
Ela sustentou o olhar.
“Pedir ajuda nunca trouxe minha mãe de volta.”
Naquela tarde, Verônica convocou Marina ao salão principal. Dois fotógrafos esperavam junto às portas, além de uma assessora de imprensa.
“Vista o uniforme”, ordenou Verônica. “Você fará uma declaração dizendo que confundiu um tempero com veneno e que Dante a levou ao hospital por responsabilidade com os funcionários.”
Marina leu o papel oferecido.
“A perícia confirmou o veneno.”
“A perícia não fala com jornalistas. Pessoas falam.”
“Não vou mentir.”
“Você receberá R$ 200 mil e nunca mais precisará servir uma mesa.”
Marina rasgou a declaração ao meio.
“Minha mãe desapareceu nesta casa. Não vim procurar uma aposentadoria.”
Verônica deu um passo à frente.
“Dante não se apaixona por mulheres que salva.”
“Que bom. Eu o salvei.”
Os fotógrafos abaixaram as câmeras quando Dante entrou.
“Saiam.”
Verônica ergueu o queixo.
“Estou impedindo que uma empregada destrua seu nome.”
“Meu nome sobreviveu a cadáveres. Sobreviverá à verdade.”
Depois que todos saíram, Dante encontrou sobre a mesa a proposta de pagamento.
“Ela tentou comprá-la?”
“Sua noiva avalia pessoas com a mesma facilidade com que escolhe flores.”
“Nosso casamento é uma aliança empresarial.”
“Isso deveria torná-lo menos humilhante?”
Dante recolheu os pedaços da declaração.
“Você sempre diz exatamente o que pensa?”
“Só quando mentir pode matar alguém.”
Bruno interrompeu com a análise dos documentos da sala. Os números correspondiam a cargas registradas como alimentos perecíveis, mas o peso dos caminhões na saída era muito maior.
“As rotas foram encerradas há cinco anos”, explicou. “Voltaram a operar três meses atrás.”
“Quando Rosa desapareceu”, disse Marina.
Uma placa aparecia repetidamente nas fotografias: FTR-4187. O caminhão pertencia a uma empresa terceirizada que utilizava um armazém refrigerado no Brás.
Bruno acessou as câmeras de trânsito. Encontrou o veículo entrando na garagem da mansão duas semanas antes.
No vídeo, dois homens empurravam uma mulher para a traseira do caminhão.
Marina aproximou o rosto da tela.
“É ela.”
Rosa usava o casaco marrom que vestia no dia em que desapareceu. Estava mais magra. Antes de a porta fechar, levantou uma das mãos e mostrou três dedos.
“Ela sabia que havia câmera”, disse Dante.
Marina voltou o vídeo.
Rosa tocou primeiro o polegar na palma, depois mostrou três dedos e apontou para baixo.
“É um código nosso. Três abaixo significa terceira prateleira inferior.”
Retornaram ao quarto escondido. Na terceira prateleira de baixo, Bruno encontrou uma tábua solta. Atrás dela havia um envelope com um cartão de memória.
O arquivo mostrava Celina gravando uma mensagem. A imagem era recente, mas o áudio estava corrompido.
“Dante”, dizia ela, antes de o som desaparecer. “Seu pai não...”
A gravação saltava para outra frase.
“Não aceite o prato que Álvaro...”
Depois, silêncio.
Um segundo arquivo continha a planta do armazém no Brás e a fotografia de uma porta marcada com tinta azul.
Dante ordenou que Bruno reunisse uma equipe.
“A polícia deveria ir”, disse Marina.
“Se houver alguém comprado, Rosa morre antes de chegarmos.”
“E se for uma armadilha?”
“Então foi preparada para mim.”
Antes de saírem, Bruno verificou o cadastro dos motoristas. O responsável pelo caminhão FTR-4187 se chamava César Lobo e constava como morto havia seis meses.
“Documento fantasma”, disse ele. “Alguém reativou o CPF e abriu uma conta para receber R$ 40 mil por viagem.”
Marina reconheceu a agência bancária indicada nos comprovantes. Ficava a duas quadras da antiga confeitaria de Rosa.
“Minha mãe fazia depósitos ali toda segunda-feira”, contou. “Eu pensava que fossem pagamentos de fornecedores.”
Dante ampliou uma imagem do recibo. A assinatura de autorização era formada por duas letras: A. M.
“Álvaro Montenegro”, disse Marina.
“Ou alguém querendo que pensemos nele”, respondeu Dante.
Ela se irritou.
“Quantas provas serão necessárias?”
“Uma que continue existindo diante de um juiz.”
Bruno entregou a Marina um pequeno rastreador e explicou que qualquer separação da equipe acionaria o alerta. Ela prendeu o aparelho sob a manga.
“Não confio em vocês”, avisou.
“Ótimo”, disse Bruno. “Pessoas desconfiadas vivem mais.”
Ele também fotografou o rastreador antes de entregá-lo. Se o aparelho fosse trocado, a central identificaria imediatamente a alteração e bloquearia todos os portões da propriedade.
Marina colocou o casaco.
“Também foi preparada para minha mãe.”
Dante tentou deixá-la na mansão, mas ela entrou no carro antes que ele terminasse a ordem. Foram em dois veículos sem identificação, evitando as avenidas principais.
O armazém parecia fechado. A fachada descascada anunciava distribuição de carnes, embora não houvesse movimento de carga.
Bruno cortou o cadeado lateral. O grupo entrou entre câmaras frias desligadas.
Marina encontrou a porta azul no corredor subterrâneo. Do outro lado havia uma cadeira presa ao chão, cordas cortadas e uma mancha escura sobre o concreto.
“Rosa!”, gritou.
Nenhuma resposta.
Dante tocou a mancha com uma luva.
“Ainda está úmida.”
Na parede, alguém escrevera com carvão:
18-04-1999.
A data da morte de Celina.
Marina descobriu um gravador sob a cadeira. Apertou o botão.
A voz fraca de Rosa ocupou o depósito.
“Marina, se está ouvindo isto, não procure apenas por mim. Procure a mulher que Dante enterrou sem ver o corpo.”
Um ruído metálico soou atrás deles.
A porta azul fechou.
Gás branco começou a entrar pelas saídas de refrigeração.
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