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"A Empregada Que Provou o Jantar do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — A Colher Proibida

正文开头

Marina Alves arrancou a colher da mão de Dante Montenegro e levou a sopa à própria boca.

O salão de jantar da mansão ficou imóvel.

Trinta convidados viram a nova empregada engolir o caldo destinado ao homem mais temido de São Paulo. Verônica Salgado ainda segurava a taça erguida para o brinde de noivado.

“Você enlouqueceu?”, perguntou ela.

Marina não respondeu. O gosto adocicado já se espalhava por sua língua, escondido sob o creme de mandioquinha e o perfume do alecrim.

Ela conhecia aquele sabor.

Espirradeira.

Sua mãe a fizera provar uma gota diluída, muitos anos antes, depois de encontrar folhas da planta perto da janela da cozinha.

“Se sentir isso numa comida, não engula”, Rosa lhe ensinara. “E nunca deixe outra pessoa comer.”

Marina soltou a colher. O metal bateu no prato de porcelana.

“Ninguém toca na sopa.”

Dante se levantou devagar. Alto, vestido de preto, ele não precisava levantar a voz para silenciar uma sala. Seus olhos cinza-esverdeados percorreram o rosto de Marina e pararam na mão que ela apertava contra o estômago.

“Explique.”

“Tem veneno.”

Verônica riu, mas o som morreu quando Marina cambaleou.

Bruno Tavares, chefe da segurança, sacou a arma e fechou as portas. Dois homens bloquearam a entrada da cozinha. Outros recolheram celulares das mãos dos garçons.

“Ela acabou de provar que foi ela mesma quem colocou alguma coisa”, disse Verônica. “Prendam essa mulher.”

Marina tentou olhar para Dante. O teto de madeira pareceu inclinar-se.

“Jardim”, murmurou. “Flores cor-de-rosa.”

Dante segurou seu braço antes que ela caísse.

“Que flores?”

“Espirradeira.”

Os joelhos dela cederam. Dante a amparou contra o peito, ignorando o espanto dos convidados e a mancha branca que o avental deixou em seu paletó.

“Chame uma ambulância”, ordenou.

“Dante, ela interrompeu nosso anúncio”, protestou Verônica.

Ele a encarou.

“E talvez tenha acabado de impedir meu enterro.”

Bruno recolheu o prato, a colher e a panela usada na cozinha. A cozinheira chorava junto à porta, repetindo que preparara a sopa conforme o cardápio aprovado.

Marina sentiu o pulso acelerar de forma desordenada. O ar já não entrava inteiro.

Dante a deitou sobre o tapete e afastou os cachos escuros de seu rosto.

“Quanto você tomou?”

“Uma colher.”

“Por que faria isso por mim?”

Ela agarrou a lapela dele.

“Não fiz por você.”

A sirene ainda estava distante. Dante inclinou-se para ouvir.

“Minha mãe trabalhava nesta cozinha.”

“Nome.”

“Rosa Alves.”

Um movimento atravessou o rosto de Álvaro Montenegro, sentado na cabeceira oposta. Foi rápido, quase invisível, mas Marina viu o tio de Dante apertar o cabo dourado da bengala.

“Nunca ouvi esse nome”, disse Álvaro.

Marina tentou apontar para ele, mas seus dedos perderam a força.

“Mentira.”

Álvaro sorriu como um homem paciente diante de uma criança confusa.

“A moça está delirando.”

Dante não desviou os olhos de Marina.

“Onde está sua mãe?”

“Desapareceu há três meses.”

O som da ambulância aumentou do lado de fora. Marina sabia que restavam poucos segundos antes de apagar.

正文1

“Ela deixou um caderno. Uma receita com o nome da sua mãe.”

Dante ficou rígido.

“Minha mãe morreu há vinte anos.”

Marina puxou-o para mais perto.

“Não naquele acidente.”

Seus olhos se fecharam.

Dante a ergueu nos braços no instante em que os socorristas entraram. Verônica tentou segui-lo, mas Bruno bloqueou sua passagem.

“Ninguém sai até a perícia chegar.”

“Eu sou a noiva dele.”

“Ainda assim, senhora.”

Do corredor, Dante voltou o rosto.

“Bruno, isole a cozinha. Quero o nome de todos que tocaram naquela panela.”

“Inclusive a empregada?”

“Principalmente quem a contratou.”

Marina acordou dentro da ambulância com uma máscara de oxigênio sobre o rosto. Dante estava sentado à sua frente, ocupando espaço demais no veículo estreito.

“O senhor não pode ir conosco”, disse o socorrista.

“Então finja que não me viu entrar.”

Marina tentou retirar a máscara.

“Meu armário.”

Dante segurou sua mão.

“Não fale.”

“O caderno está no fundo falso.”

“Na mansão?”

Ela assentiu.

O telefone de Dante vibrou. Bruno falava do outro lado com a voz baixa e urgente.

“A análise preliminar encontrou resíduos na concha usada apenas para servir o prato do senhor. O restante da panela está limpo.”

“Então o alvo era um só.”

“Sim. E encontramos luvas descartáveis no lixo do quarto de funcionários.”

Dante olhou para Marina.

“De quem é o quarto?”

Bruno demorou um segundo.

“Dela.”

Marina leu a suspeita no rosto de Dante antes que ele escondesse.

“Armaram para mim.”

“Você sabia onde estava o veneno.”

“Reconheci o gosto.”

“E entrou na minha casa há seis dias usando documentos verdadeiros demais para alguém que veio apenas limpar prata.”

Ela tentou puxar a mão, mas ele não soltou.

“Eu precisava descobrir o que aconteceu com Rosa.”

“Então mentiu para entrar.”

“O senhor teria me recebido se eu batesse no portão e dissesse que minha mãe desapareceu depois de trabalhar para sua família?”

Dante não respondeu.

No Hospital Santa Cecília, médicos levaram Marina para uma sala de emergência. Dante permaneceu no corredor enquanto Verônica ligava sem parar. Na quarta chamada, ele atendeu.

“A imprensa já está perguntando por que você saiu carregando uma empregada”, disse ela.

“Diga que ela salvou minha vida.”

“Você nem sabe se isso é verdade.”

“Se quisesse me matar, não teria bebido o veneno.”

“Talvez soubesse que a dose não era fatal.”

Dante observou pela janela enquanto uma enfermeira ajustava o soro de Marina.

“Como você sabe que a dose não era fatal?”

O silêncio de Verônica durou pouco, mas foi suficiente.

“Foi modo de falar.”

Ele encerrou a ligação.

Bruno chegou quarenta minutos depois com o caderno de Rosa dentro de um saco transparente. A capa estava manchada de farinha e gordura. Várias páginas haviam sido arrancadas.

“O fundo falso do armário estava aberto”, informou. “Quem colocou as luvas no quarto também procurou isto.”

Dante folheou sem tocar diretamente. As receitas pareciam comuns: feijoada, caldo verde, bolo de fubá, frango com quiabo. Porém, entre elas havia uma página intitulada Receita de Celina.

Não existiam ingredientes.

Apenas números, horários e nomes de cidades.

Santos. Campinas. Curitiba. Foz do Iguaçu.

Ao pé da página, Rosa escrevera uma frase:

“Quando o filho recusar o prato do pai, a mãe poderá voltar para casa.”

Dante fechou o caderno.

“Minha mãe se chamava Celina.”

“Eu sei”, disse Bruno.

“Quase ninguém sabe.”

O médico apareceu no corredor. Marina estava fora de perigo, mas precisaria permanecer em observação até a manhã seguinte.

Uma investigadora do plantão recolheu a embalagem com a concha e pediu que Dante permanecesse disponível para depoimento. Quando perguntou quem controlava o jardim, Bruno consultou a escala dos funcionários.

O jardineiro fora dispensado naquela manhã por uma mensagem enviada do telefone de Álvaro.

“Ele diz que não mandou nada”, informou Bruno.

Dante guardou a informação sem comentar. A tentativa não começara na cozinha. Alguém preparara o caminho horas antes do jantar.

Dante entrou no quarto sozinho.

Ela dormia, pálida, com os cachos espalhados no travesseiro. Sobre a mesa, uma sacola guardava o uniforme e o avental cortado pelos médicos.

Ele se aproximou quando percebeu algo preso à costura interna do bolso.

Era uma fotografia pequena, dobrada quatro vezes.

Dante abriu o papel.

Rosa aparecia diante de uma igreja em Atibaia. Ao lado dela estava uma mulher de cabelos castanhos com fios prateados e uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda.

Celina Montenegro.

No verso havia uma data de apenas quatro meses antes.

E uma mensagem dirigida a ele:

“Dante, se Marina chegou até você, significa que Álvaro já nos encontrou.”

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