"A Costureira Que Rasgou o Terno do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — O Terno Rasgado
Helena Prado atravessou o salão correndo e enterrou a tesoura no terno de Dante Montenegro.
O som do tecido rasgando calou o gala beneficente.
Duzentas pessoas viram a costureira agarrar a lapela do homem mais temido de São Paulo e puxá-la com tanta força que três botões pretos saltaram sobre o mármore.
Rafael Moura sacou a arma.
“Solte o senhor Montenegro.”
“Se eu soltar, ele morre.”
Helena enfiou dois dedos sob o forro da gola. Dante segurou seu pulso antes que ela alcançasse a costura.
Os olhos cinza-esverdeados dele não mostravam medo. Mostravam a frieza de quem decidia, em silêncio, se uma pessoa continuaria respirando.
“Você tem três segundos para explicar”, disse Dante.
“Essa gola está vibrando.”
“Um.”
“O ponto foi fechado à mão.”
“Dois.”
Helena puxou a linha com os dentes e arrancou do tecido uma cápsula preta do tamanho de uma unha.
Uma luz vermelha piscou em sua palma.
O tiro atravessou a janela.
Dante derrubou Helena no chão no mesmo instante. A bala quebrou a taça atrás dele e se enterrou na coluna de madeira do palco.
Gritos explodiram sob os lustres. Convidados se jogaram atrás das mesas. Seguranças fecharam as portas enquanto Rafael cobria o corpo do chefe.
Helena ainda segurava a cápsula.
“Era um marcador”, disse ela, sem conseguir recuperar o ar. “Alguém estava mostrando ao atirador onde ficava o seu coração.”
Dante olhou para o furo na coluna. Depois, para o pequeno aparelho.
“Como você percebeu?”
“Porque fui eu que cortei esse molde.”
O salão continuava em pânico, mas a frase pareceu criar um silêncio só para os dois.
Helena trabalhava havia oito anos no Ateliê Prado, no Brás. Fazia barras, vestidos de noiva e ternos que lojas dos Jardins revendiam por dez vezes o preço. Naquela semana, fora chamada ao gala para consertar emergências de última hora.
Ela reconhecera o caimento do paletó assim que Dante subira ao palco.
Reconhecera também o ponto minúsculo na gola.
Era o ponto de Sofia.
Rafael tomou a cápsula usando um lenço.
“A frequência ainda está ativa.”
“Bloqueie o sinal e encontre a origem”, ordenou Dante.
Ele se levantou e estendeu a mão para Helena. Ela hesitou antes de aceitar.
“Quem costurou o terno?”
“Minha irmã.”
“Nome.”
“Sofia Prado.”
Pela primeira vez, Dante perdeu a imobilidade do rosto.
Foi apenas um movimento no maxilar, pequeno demais para os convidados perceberem. Helena percebeu.
“Você conhece minha irmã.”
“Conheço o nome.”
“Ela desapareceu há seis meses.”
Dante tirou o paletó rasgado. A camisa preta por baixo fazia o sangue de um corte no ombro parecer ainda mais escuro.
“Este terno chegou à minha casa há três dias.”
“Impossível. Sofia terminou essa peça na semana em que sumiu.”
Helena havia encontrado o cabide vazio no ateliê, a máquina ligada e uma xícara de café ainda morna. A polícia tratara o desaparecimento como fuga voluntária. Sofia era adulta, não deixara sinais de violência e retirara R$ 8 mil da conta conjunta.
Helena nunca acreditara que a irmã fugisse sem levar o casaco, os documentos ou o remédio para asma.
“Quero ver a etiqueta interna”, disse ela.
Dante não respondeu.
Rafael aproximou-se.
“Precisamos retirá-lo daqui.”
“Primeiro a etiqueta.”
Dante entregou o paletó a Helena.
Ela virou o tecido perto da luz. A etiqueta trazia o nome de uma alfaiataria do Itaim Bibi, mas o número de série fora bordado com linha cinza quase invisível.
Sofia não usava números comuns para identificar encomendas. Mudava a inclinação do último ponto quando queria deixar um aviso.
Naquela etiqueta, o último ponto apontava para a esquerda.
Perigo vindo de dentro.
“Ela tentou alertar alguém”, murmurou Helena.
Um homem de cabelos grisalhos abriu caminho entre os seguranças. Usava uma bengala de madeira escura e a expressão aflita de um parente amoroso.
“Dante, graças a Deus.”
Dante virou-se.
“Tio Augusto.”
Augusto Montenegro tocou o rosto do sobrinho como se confirmasse que ele estava inteiro.
“Eu disse que este evento era arriscado. Há gente demais, entradas demais. Venha comigo.”
Os olhos de Augusto caíram sobre Helena.
“E quem é essa mulher?”
“A mulher que acabou de salvar minha vida.”
O sorriso de Augusto demorou um segundo para aparecer.
“Então a família Montenegro tem uma dívida com ela.”
Helena sentiu o paletó pesar em suas mãos.
O ponto de alerta na etiqueta parecia apontar diretamente para a bengala.
Rafael recebeu uma informação pelo fone.
“O atirador abandonou o prédio. Encontramos um estojo, mas nenhuma arma.”
“As câmeras?”, perguntou Dante.
“Foram interrompidas quarenta segundos antes do tiro. Alguém usou uma credencial da organização.”
Augusto apertou a bengala.
“Isso prova que a fundação foi infiltrada.”
“Ou que alguém de dentro autorizou o acesso”, respondeu Helena.
Rafael lançou-lhe um olhar de advertência. Augusto apenas sorriu.
“A costureira também é investigadora?”
“A costureira viu o que todos os seus especialistas ignoraram”, disse Dante.
Augusto perdeu o sorriso.
Dante conduziu Helena para uma sala reservada atrás do palco. Rafael entrou com dois seguranças e colocou a cápsula numa embalagem metálica.
Na sala, Helena abriu o restante do forro. Encontrou fios finos passando pela lapela até o bolso interno. O aparelho havia sido instalado antes da última costura.
“Sofia não colocou isso”, afirmou.
“Você tem certeza?”
“Ela poderia esconder um bilhete numa bainha sem deixar marca. Nunca costuraria um fio torto atravessando uma entretela.”
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
“Sua irmã trabalhava para quem?”
“Para mim. Às vezes recebia peças de uma empresa chamada Bellucci Uniformes.”
Rafael consultou o celular.
“A Bellucci pertence ao Grupo Montenegro.”
Helena encarou Dante.
“Então você mentiu. Não conhece apenas o nome dela.”
“Eu não acompanho cada prestador do grupo.”
“Mas alguém do seu grupo entregou o terno seis meses depois do desaparecimento.”
Dante aproximou-se. Mesmo sem o paletó, sua presença ocupava a sala.
“Se eu tivesse mandado silenciar sua irmã, você não estaria aqui fazendo perguntas.”
“Meu pai fez perguntas sobre os Montenegro. Apareceu morto dois dias depois.”
Rafael ficou imóvel.
Dante não negou.
Essa ausência de defesa feriu Helena mais do que uma ameaça.
“Caio Prado foi acusado de desviar dinheiro da minha família”, disse ele. “A ordem contra ele saiu com minha assinatura.”
Helena sentiu a garganta fechar.
“Então foi você.”
“Eu tinha vinte e cinco anos. E não conhecia toda a verdade.”
“Homens mortos não recebem segunda chance quando o assassino descobre a verdade tarde demais.”
Ela largou o paletó e caminhou para a porta.
Dante bloqueou sua passagem.
“O homem que tentou me matar sabe quem você é. Você mostrou que reconhece a costura.”
“Não vou ser sua prisioneira.”
“Prefere voltar sozinha para um ateliê ligado ao terno?”
Helena abriu a boca, mas o celular vibrou em seu bolso.
Era o alarme do ateliê.
A câmera mostrou um homem mascarado quebrando a porta dos fundos. Ele não procurava dinheiro. Correu diretamente até a mesa de Sofia e arrancou as gavetas.
Helena tentou sair.
Dante segurou seu braço.
“Rafael, mande uma equipe.”
“Não mexam em nada!”, ordenou Helena. “As gavetas têm moldes e anotações dela.”
Na tela, o invasor encontrou uma caixa de linhas. Derrubou carretéis no chão e cortou o fundo falso com uma lâmina.
Retirou um envelope amarelo.
Antes de fugir, olhou para a câmera e levantou o papel.
Nele estava escrito o nome de Helena.
A transmissão caiu.
Dante soltou o braço dela, mas permaneceu diante da porta.
“Agora você vem comigo.”
Helena apontou para o paletó aberto.
“Ainda não terminei.”
Ela apalpou o punho esquerdo. Havia algo rígido entre a seda e o tecido externo.
Com a tesoura, abriu três pontos.
Um pedaço de fita branca caiu sobre a mesa.
A letra era de Sofia.
Helena leu em voz alta:
“Se este terno chegar a Dante, não confie no padrinho dele.”
Do outro lado da porta, a bengala de Augusto bateu uma vez no chão.
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