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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 6 — As Flores Não Eram Dele

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Capítulo 6 — As Flores Não Eram Dele

Vicente viu as camélias sobre a mesa naquela mesma noite.

Parou na entrada da cozinha.

Marina percebeu a mudança antes que ele dissesse qualquer coisa. A serenidade desapareceu de seu rosto, substituída por uma atenção fria e precisa.

“Você não mandou.”

“Não.”

Vicente tocou o papel que envolvia os caules. Não havia logotipo, apenas um selo prateado de uma floricultura que deixara de existir meses antes.

Ele ligou para Caio.

Em menos de uma hora, souberam que o entregador usara uma motocicleta clonada. As câmeras do prédio registraram o capacete, mas não o rosto.

Caio trouxe algo pior: dois carros sem identificação acompanhavam a rotina de Marina havia três domingos. Ambos levavam a uma oficina usada por homens ligados a Álvaro Brandão.

“Quem é ele?”, Marina perguntou.

Vicente não suavizou.

“Um rival. Nossas redes mantêm uma trégua há quase vinte anos.”

“E agora ele mandou flores.”

“Mandou um aviso. Sabe onde você mora.”

Vicente propôs o casarão de Atibaia: terreno fechado, segurança e espaço para Lúcia e Sofia.

Marina recusou.

“Você não vai decidir que minha filha acordará amanhã cercada por homens armados.”

“Também não vou fingir que isto é apenas um buquê.”

“Então me inclua no plano.”

Ela puxou uma cadeira e abriu o notebook.

“Quais rotas eles conhecem? Quem busca Sofia? Minha mãe corre risco? Como eu aviso você sem dizer seu nome?”

Vicente sentou-se diante dela.

Pela primeira vez, não elaborou uma proteção para Marina. Elaborou com ela.

Mudaram horários e caminhos. Lúcia aceitou ficar temporariamente no apartamento de uma prima. Sofia aprenderia que, ao ouvir “as andorinhas voltaram”, deveria abraçar a mãe e deitar no chão, sem fazer perguntas.

Marina anotou números de emergência em papel e guardou cópias na mochila, no forro da bolsa e com Lúcia. Fotografou o selo da floricultura, o papel do buquê e a etiqueta do entregador antes que Caio recolhesse tudo.

“Se alguma coisa acontecer, ninguém depende apenas da memória de um homem seu”, disse ela.

“Correto.”

“Quero saber onde ficam os botões de emergência do carro.”

Caio mostrou. Marina repetiu o procedimento até conseguir fazê-lo no escuro.

Também escolheu o código. Augusto desenhava andorinhas nos bilhetes que deixava para ela quando chegaria tarde. Transformar aquela lembrança em instrução de sobrevivência pareceu mais forte que permitir que o medo a contaminasse.

O telefone de Vicente vibrou.

A mensagem não tinha assinatura.

“Os cachos da menina são bonitos. Minha filha também tinha quatro anos quando seu pai me roubou o primeiro cais.”

Vicente entregou o aparelho a Marina.

Ela leu sem alterar a expressão, mas fechou a mão sobre a andorinha de Sofia.

“Agora ele usou o nome dela sem escrever.”

“Vocês vão para Atibaia hoje.”

“Hoje, sim”, respondeu Marina. “Porque agora é uma decisão baseada no que eu sei, não uma ordem baseada no que você esconde.”

Vicente inclinou a cabeça.

“Caio chega em quarenta minutos.”

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Ele saiu para buscar Lúcia e coordenar os carros. Marina trancou a porta, fechou as cortinas e preparou uma mochila para Sofia.

Dez minutos depois, todas as luzes se apagaram.

O ruído da geladeira morreu. O corredor mergulhou em silêncio. Marina pegou o telefone.

Sem sinal.

Do lado de fora, alguém tocou o quadro de força do prédio. Em seguida, uma ferramenta raspou a fechadura.

Marina correu até o banheiro, ergueu Sofia ainda molhada do banho e a colocou atrás da banheira.

“As andorinhas voltaram”, sussurrou.

A menina abraçou a mãe e se encolheu no chão.

A porta da sala cedeu.

Três pares de passos entraram no apartamento.

Marina pegou a haste metálica da cortina do box. Quando o primeiro homem abriu a porta, ela atingiu seu rosto. Ele cambaleou, e Marina tentou alcançar o corredor com Sofia.

O segundo homem a segurou pelo cabelo. Ela pisou no pé dele, girou e cravou os dentes em sua mão.

“Segura essa mulher!”

Ela lutou até receber um golpe no ombro.

Enquanto era arrastada, os dedos de Marina encontraram a andorinha no pescoço de Sofia. Dobrou uma das asas contra a borda da banheira até arrancar uma lasca triangular.

Guardou o fragmento na palma.

No carro, foi jogada no banco traseiro com Sofia. Marina contou as curvas, ouviu a subida de uma avenida e percebeu quando o piso mudou para paralelepípedo.

Um dos homens tentou arrancar a andorinha do pescoço da menina.

“É bijuteria”, Marina disse depressa. “Não vale nada.”

Ele soltou o pingente. Sofia manteve os olhos fechados, fingindo dormir como a mãe mandara.

Marina pressionou a testa contra os cachos da filha.

“Continue contando comigo”, sussurrou.

Elas contaram juntas as frenagens e os túneis. Quando veio o cheiro salgado e industrial, Marina soube que desciam em direção ao litoral.

Ao ser transferida para outro veículo, deixou a lasca presa numa fenda quebrada do porta-malas.

Caio chegou ao prédio vinte e seis minutos depois.

Encontrou a porta destruída e uma gota de sangue no banheiro. Lúcia estava segura com a prima, mas Marina e Sofia haviam desaparecido.

Vicente recebeu a notícia no meio da Avenida dos Bandeirantes.

“Fechem todas as saídas para o litoral que pudermos observar”, ordenou. “Quero câmeras, pedágios, pátios e veículos trocados.”

Durante três horas, ele não levantou a voz.

Caio reconstruiu o trajeto com imagens privadas. Um utilitário captado perto do prédio apareceu vinte minutos depois num estacionamento desativado. Ali, trocaram Marina e Sofia para uma van refrigerada.

Na fenda do porta-malas, Caio encontrou uma lasca de madeira escura com uma linha entalhada.

Havia também um fio vermelho preso ao metal, arrancado do casaco de Sofia. A combinação eliminava a possibilidade de o fragmento estar ali por acaso.

“Marina deixou isso”, disse.

Vicente reconheceu a asa da andorinha.

Não era apenas uma vítima esperando por ele. Ela estava indicando o caminho.

A van pertencia a uma empresa encerrada, mas antigas notas fiscais apontavam para um frigorífico abandonado na área industrial de Santos.

正文2

Às três da madrugada, Álvaro telefonou.

“Todas as rotas do Grupo Ferraz no porto. Armazéns, motoristas, fiscais comprados. Você assina a transferência e recebe a mulher e a menina.”

“Quero vê-las vivas.”

Um minuto depois, chegou uma imagem. Marina estava amarrada a uma cadeira. Sofia dormia sobre seu colo, com o rosto escondido contra o peito da mãe.

Os olhos de Marina encaravam a câmera. Não havia pedido neles. Havia cálculo.

Vicente ampliou o fundo da fotografia: parede azul, tubulação antiga, uma placa de refrigeração parcial.

O frigorífico estava confirmado.

Ele conhecia o terreno. Aos dezenove anos, usara os antigos canais de manutenção sob o pátio para transportar mercadorias sem passar pelo portão principal.

“Eu entro sozinho”, disse a Caio. “Você leva oito homens pelos dutos do lado norte.”

Caio abriu uma planta antiga sobre a mesa.

“O canal oeste desabou. Entramos pelo norte, dividimos aqui e alcançamos duas saídas. Mas preciso de um sinal antes de avançar para o salão.”

Vicente marcou um ponto junto à câmara fria.

“Quando eu disser que as andorinhas voltaram, Marina vai levar Sofia ao chão. Espere dois segundos e corte a energia da ala leste. O gerador de emergência acenderá apenas as lâmpadas centrais. Os homens de Álvaro ficarão expostos.”

“E se ele mandar você assinar antes?”

“Eu seguro a caneta até você estar em posição.”

“E se ele atirar?”

Vicente dobrou a planta.

“Então garanta que Marina e Sofia saiam.”

“Álvaro vai revistá-lo.”

“Ele quer minha assinatura. Precisa que eu chegue vivo até a mesa.”

Antes de sair, Vicente abriu o cofre atrás de um quadro no escritório. Tirou a segunda andorinha, guardada por vinte e dois anos, e colocou-a no bolso interno do paletó.

O frigorífico cheirava a ferrugem e água parada.

Vicente entrou pelo portão principal com as mãos visíveis. Quatro homens o cercaram, retiraram sua arma e o conduziram ao salão central.

Álvaro esperava sob uma lâmpada pendurada.

Atrás dele, Marina estava presa à cadeira. Sofia permanecia sobre seu colo. A asa quebrada da andorinha pendia no cordão da menina.

Vicente olhou para Marina.

“As andorinhas voltaram”, disse calmamente.

Os olhos dela mudaram. Ela compreendera o aviso.

Álvaro empurrou um contrato e uma caneta pela mesa.

“Seu pai passou a vida impedindo que eu tomasse Santos. Seu irmão tentou fazer o mesmo.”

Vicente não tocou no papel.

Álvaro sorriu.

“Aquele depósito onde Leandro morreu? A informação saiu da minha mesa. Os homens eram meus.”

Por dentro, alguma coisa em Vicente se partiu. Por fora, nada mudou.

Sob o chão, Caio e sua equipe avançavam pelo último duto.

Marina apertou Sofia contra o corpo, pronta para se jogar no concreto.

Vicente pegou a caneta.

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