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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 5 — O Homem Que Aprendeu a Voltar para Casa

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Capítulo 5 — O Homem Que Aprendeu a Voltar para Casa

Lúcia recebeu alta cinco dias depois.

Marina começou no Grupo Ferraz na segunda-feira seguinte e, antes do fim do primeiro mês, unificou os pedidos de benefícios das quatro unidades de restaurantes.

Ela não telefonava para Vicente quando alguém resistia. Documentava o problema, apresentava números e exigia resposta de quem constava no organograma.

Em seis semanas, o atraso médio dos processos caiu pela metade.

Nem todos ficaram satisfeitos.

O gerente de uma das unidades continuou mudando escalas por mensagens privadas e enviando os registros dias depois. Quando Marina bloqueou três solicitações incompletas, ele apareceu em sua sala.

“Você chegou ontem e já está segurando benefício de quem trabalha aqui há dez anos.”

“Estou impedindo que seu funcionário seja responsabilizado pela documentação que você não registrou.”

“Sabe quem aprovou minha contratação?”

“Não. Mas sei quem assinou a nova norma.”

Ela girou o monitor e mostrou a assinatura da diretora de recursos humanos, além do histórico das alterações feitas pelo próprio gerente.

“Regularize até as quatro. Caso contrário, encaminho o relatório de descumprimento.”

O homem saiu resmungando. Às três e cinquenta, os registros estavam completos.

Vicente soube do episódio por um relatório mensal. Não telefonou para parabenizá-la nem mandou punir o gerente. Respeitou exatamente o que Marina havia exigido: espaço para fazer o próprio trabalho.

“Onde você encontrou essa mulher?”, perguntou a diretora de recursos humanos a Vicente.

“Ela me encontrou.”

O primeiro jantar na casa de Marina aconteceu porque Lúcia insistiu em agradecer pessoalmente. O segundo, porque Sofia perguntou por que o homem triste não voltara. No terceiro, Marina já não fingiu que precisava de uma razão externa para convidá-lo.

Nos domingos, começaram a caminhar num parque perto de casa. Vicente chegava sem comboio visível, embora Caio sempre mantivesse um carro a duas quadras.

Sofia o obrigava a empurrar o balanço até seus tênis quase tocarem os galhos baixos. Marina fingia reclamar da altura, mas sorria quando a filha gritava de alegria.

Vicente aprendeu que Lúcia levava dominó a sério, que Marina não suportava café adoçado e que Sofia inventava nomes para todos os cães do bairro.

E Marina aprendeu que ele verificava saídas antes de se sentar, nunca ficava de costas para uma porta e acordava ao menor ruído. A tranquilidade dele não vinha da ausência de medo. Vinha de anos vivendo pronto para o pior.

O apartamento em Vila Prudente tinha uma cozinha estreita, uma mesa para quatro e uma varanda pequena onde Marina cultivava manjericão em uma lata reaproveitada.

Ali, o nome Ferraz não abria portas.

Vicente precisava cortar cebola, lavar os pratos e esperar Sofia colocar o coelho de pano em sua cadeira antes de tocar na comida.

“O pão está errado”, Sofia anunciou numa quarta-feira.

Vicente olhou para o prato.

“É pão.”

“Está quadrado.”

“Foi assim que saiu do pacote.”

“Tem que ser triângulo.”

Ele pegou a faca e cortou o pão na diagonal.

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Sofia examinou as duas partes.

“Agora o coelho pode comer.”

“O coelho é de pano.”

Ela arregalou os olhos, ofendida.

“Não fala isso na frente dele.”

Vicente olhou para o brinquedo sentado com a cabeça torta. Depois para a expressão séria de Sofia.

O riso escapou antes que pudesse impedi-lo.

Não foi um sorriso discreto. Ele riu até precisar apoiar a mão na mesa.

Marina, diante do fogão, virou-se lentamente.

Ela não riu com ele. Apenas o observou como se tivesse acabado de ver uma porta se abrir num lugar onde antes existia uma parede.

Mais tarde, depois que Sofia dormiu e Lúcia voltou para o próprio apartamento, Marina levou um rolo de luzes usadas para a varanda.

“Comprei numa feira. Metade pode não funcionar.”

“Posso conseguir outras.”

“Eu sei. Quero estas.”

Vicente segurou o fio enquanto ela o prendia ao corrimão. Quando ligaram na tomada, apenas três lâmpadas acenderam.

Marina soltou uma risada.

“Uma fortuna muito bem investida.”

Vicente se agachou, encontrou o contato frouxo e girou uma lâmpada. Uma a uma, as demais se acenderam, derramando luz amarela sobre o rosto dela.

“Você conserta luzes também?”

“Augusto não permitia que alguém trabalhasse numa oficina sem aprender eletricidade básica.”

Marina se apoiou no corrimão.

“Às vezes, quando você fala dele, parece o rapaz de dezesseis anos. Então seu telefone toca e você volta a ser o homem que todos evitam encarar.”

“Você me encara.”

“Porque preciso saber quem está entrando na minha casa.”

Vicente deu um passo na direção dela.

“E já sabe?”

“Ainda não.”

O espaço entre os dois diminuiu, mas Marina não recuou.

“Existe alguma parte sua que pensa em sair de verdade?” ela perguntou.

“Desde o hospital, todos os dias.”

“Pensar não protege Sofia.”

“Eu sei.”

“Se pretende se aproximar de mim, não pode trazer seu mundo até esta porta e chamar isso de proteção.”

Vicente poderia ter prometido que ninguém ousaria tocá-las. Era o tipo de certeza que sempre vendia a homens mais fracos.

Mas Marina conhecia o preço das promessas vazias.

“Vou descobrir o que posso desmontar sem colocar centenas de funcionários no meio”, disse ele. “E o que precisarei entregar para sair.”

“Não faça isso para pagar meu pai.”

“Não é mais por ele.”

Marina ergueu o rosto.

Vicente tocou o lado de sua mão, dando a ela tempo para afastá-la. Quando Marina virou a palma e entrelaçou os dedos nos dele, algo mudou sem precisar de beijo.

Na manhã seguinte, Vicente chamou Caio ao escritório.

“Quero um mapa completo. Operações legais, contratos contaminados, rotas, homens que aceitam sair e homens que tentarão impedir.”

Caio permaneceu em silêncio.

“Está pensando em desmontar tudo?”

“Estou pensando em descobrir o preço.”

“Álvaro Brandão vai interpretar qualquer retirada como fraqueza”, disse Caio.

“Então não será uma retirada. Será uma separação cirúrgica. Os restaurantes e imóveis continuam funcionando. As rotas que dependem de ameaça acabam.”

“Alguns homens não vão aceitar perder renda.”

“Liste-os primeiro.”

Caio fechou o caderno.

“Isso é por Marina?”

Vicente fitou a camélia seca que ainda guardava no escritório.

“É porque ela me fez perceber que continuar também é uma escolha.”

Do outro lado da cidade, um fotógrafo colocou um envelope sobre uma mesa de mogno.

Álvaro Brandão abriu as fotografias.

Vicente empurrando Sofia num balanço. Vicente carregando uma sacola de mercado ao lado de Marina. Vicente na varanda, sob luzes amarelas, com a mão dela na sua.

Álvaro girou o anel pesado no dedo mínimo.

“Trinta anos”, murmurou. “E finalmente ele deixou alguma coisa do lado de fora da muralha.”

Dois dias depois, um entregador deixou um buquê de camélias brancas diante do apartamento de Marina.

Não havia cartão.

Ela sorriu, convencida de que sabia quem as enviara.

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