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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 4 — A Noite no Hospital

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Capítulo 4 — A Noite no Hospital

Vicente chegou ao Instituto Cardíaco Santa Helena quarenta minutos depois da ligação.

Marina estava sozinha no corredor da emergência, sentada na ponta de uma cadeira de plástico. O cabelo preso às pressas começava a cair sobre o rosto. As mãos permaneciam unidas com tanta força que os nós dos dedos tinham perdido a cor.

Ela se levantou ao vê-lo.

“Disseram que houve uma descompensação. Levaram minha mãe para a sala de emergência e ninguém voltou.”

Vicente não disse que tudo ficaria bem. Conhecia aquela mentira e sabia quanto ela pesava quando pronunciada diante de uma porta fechada.

Foi até a máquina, comprou um café e colocou o copo nas mãos dela.

“Sente-se.”

“Não consigo.”

“Então eu fico em pé com você.”

Eles esperaram lado a lado.

Vinte minutos depois, uma médica informou que Lúcia precisava de avaliação cardiológica imediata. Havia um especialista de plantão, mas um segundo parecer poderia ser necessário caso o quadro não respondesse ao primeiro tratamento.

Quando a médica se afastou, Vicente tirou o telefone do bolso.

Marina tocou o braço dele.

“Antes de ligar para alguém, me diga o que pretende fazer.”

Ele baixou o aparelho.

“O Grupo Ferraz mantém um fundo de apoio médico aos funcionários. Posso pedir uma avaliação de um cardiologista que trabalha com o instituto. Você decide se autoriza o atendimento.”

“Isso vai aparecer no meu contrato?”

“Vai aparecer no registro do fundo, como aconteceria com qualquer funcionário elegível.”

“E eu vou receber os documentos?”

“Todos.”

Marina respirou fundo.

“Então ligue.”

Vicente fez uma única chamada. Não elevou a voz nem usou o próprio sobrenome como ameaça. Explicou a situação e pediu que o protocolo do fundo fosse seguido.

Trinta e cinco minutos depois, o cardiologista entrou pela porta dupla com os exames de Lúcia numa prancheta.

Antes de assinar a autorização para o novo procedimento, Marina leu as duas páginas inteiras. Perguntou sobre riscos, alternativas e sobre o que aconteceria se o fundo do grupo recusasse alguma despesa.

O médico respondeu sem pressa. Vicente permaneceu do outro lado do corredor e não interrompeu uma única vez.

Quando Marina assinou, foi porque compreendia a decisão, não porque o homem ao seu lado tinha influência suficiente para apressá-la.

“Você poderia ter mandado fazer tudo sem me explicar”, ela disse quando o médico saiu.

“Poderia.”

“Por que não fez?”

“Porque a vida é da sua mãe. A decisão é sua e dela.”

Marina passou a mão pelo rosto cansado.

“Homens com o seu tipo de poder não costumam pedir permissão.”

“Talvez seja por isso que tantos deles terminem sozinhos.”

Às seis da manhã, o quadro estava estabilizado.

Marina entrou brevemente no quarto. Lúcia parecia menor sob o lençol branco, mas estava acordada.

“Você veio correndo do trabalho?”, perguntou a mãe.

“Eu estava em casa.”

“E Sofia?”

“Com dona Celina. Está segura.”

Lúcia fechou os olhos, aliviada. Depois viu Vicente parado além do vidro.

正文1

“Quem é aquele homem que parece querer comprar o hospital inteiro?”

Marina quase riu pela primeira vez naquela noite.

“Alguém que devia um favor ao vovô Guto.”

“Seu pai nunca aceitava favores.”

“Eu sei. Por isso estou conferindo cada papel.”

Marina sentou-se novamente. O café frio ainda estava entre suas mãos.

“Obrigada.”

“Você autorizou. Eu apenas fiz a ligação.”

“Você sabe que não foi apenas isso.”

Antes que Vicente respondesse, as portas do elevador se abriram.

Dona Celina, a vizinha, apareceu carregando Sofia, uma mochila infantil e um coelho de pano apertado sob o braço. A menina estava acordada, mas tinha o rosto molhado de choro.

“Ela acordou chamando a mãe”, explicou a vizinha. “Eu precisava voltar para cuidar do meu neto.”

Marina foi até a filha, mas uma enfermeira surgiu no mesmo instante.

“Senhora Marina? Sua mãe está perguntando pela senhora.”

Ela parou entre Sofia e a porta.

Vicente estendeu os braços.

“Vá. Eu fico com ela.”

Marina hesitou apenas um segundo. Ajoelhou-se, beijou o rosto de Sofia e falou baixo:

“A mamãe vai ver a vovó. Você fica aqui comigo por perto, está bem?”

Sofia olhou para Vicente. Depois transferiu o coelho de pano para uma mão e levantou os braços para ele.

Vicente a recebeu com uma rigidez cuidadosa, como se carregasse algo que não tinha direito de quebrar.

Marina desapareceu pela porta dupla.

Na cafeteria, Sofia aceitou leite e um pão de queijo. Comeu metade antes de perguntar:

“A vovó vai para o céu igual ao vovô Guto?”

Vicente apoiou os antebraços sobre a mesa pequena.

“Os médicos estão fazendo tudo para que ela volte para casa.”

“Você não respondeu.”

“Porque eu não sei.”

Sofia pensou naquilo e assentiu. Parecia preferir a verdade incompleta a uma promessa bonita.

Ela tocou a andorinha no pescoço.

“O vovô tinha balinhas geladas no bolso. Ele dava uma para todo mundo.”

“De hortelã, com papel amarelo.”

Os olhos dela se arregalaram.

“Você ganhou também?”

“Muitas.”

“Mamãe disse que ele fazia bolo para as crianças da rua. Até para as que ele não conhecia.”

Vicente lembrava. Augusto dizia que ninguém deveria atravessar o próprio aniversário sem ouvir o nome cantado por alguém.

Sofia se aproximou até encostar no braço dele.

“Se você conhecia o vovô, então você não é estranho.”

Poucos minutos depois, adormeceu contra seu peito, segurando o coelho por uma orelha. Vicente ficou imóvel. O peso dela era leve, mas o mantinha preso à cadeira com mais força do que qualquer ordem.

Marina voltou quase ao meio-dia.

Parou ao encontrar Vicente adormecido, a cabeça apoiada na parede e Sofia protegida na curva de seu braço.

Ela tocou o antebraço dele.

Vicente abriu os olhos imediatamente.

“Minha mãe está consciente”, sussurrou Marina. “Vai ficar em observação por alguns dias.”

Ele soltou o ar devagar.

Marina pegou Sofia sem acordá-la e sentou-se ao lado dele.

“Meu pai morreu numa terça-feira”, disse depois de um longo silêncio. “Eu estava num turno noturno. Ele passou horas sozinho porque não quis me fazer perder o trabalho.”

Vicente olhou para a porta fechada.

“Eu deveria ter voltado.”

“Ele diria que isso não é uma dívida.”

“Para mim, é.”

“Então me conte a parte que está escondendo.”

Vicente virou o rosto para ela.

Marina não parecia assustada. Parecia decidida.

Ele falou da mãe, do padrasto e da noite em que saiu de casa. Contou como Augusto o acolhera e como, aos dezoito anos, escolhera o primeiro serviço ilegal.

Depois falou de Leandro.

“Meu irmão morreu numa emboscada há três anos. Eu o mandei para aquele depósito.”

“Você sabia que era uma armadilha?”

“Não. Mas construí a vida que colocou nós dois naquela posição.”

Marina não tentou absolvê-lo.

“Já pensou em sair?”

“Nunca tive um motivo grande o bastante.”

Ela baixou os olhos para Sofia, que dormia com a andorinha encostada no queixo.

“Talvez agora você tenha.”

Vicente olhou para ela, mas Marina não explicou se falava de Sofia, de si mesma ou da vida comum que ele vira naquela madrugada.

Não precisava.

Pela primeira vez desde a morte de Leandro, ele percebeu que sair não era apenas abandonar poder. Era escolher para onde voltar.

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