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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 3 — Trabalho, Não Caridade

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Capítulo 3 — Trabalho, Não Caridade

Na manhã seguinte, Caio encontrou Vicente no escritório da casa do Morumbi.

Sobre a mesa de madeira havia apenas um copo de água, um bloco fechado e a camélia da noite anterior dentro de um recipiente pequeno.

Caio olhou para a flor, mas não comentou.

“Marina Duarte”, disse Vicente. “Quero saber se ela e a família estão em perigo.”

“Perigo de quem?”

“De qualquer pessoa que tenha reparado no que aconteceu ontem.”

Caio entendeu. Naquele mundo, bastava Vicente olhar duas vezes para alguém para transformar essa pessoa em informação valiosa.

“Sem contato”, Vicente acrescentou. “Sem assustá-la. E nada que invada a vida da filha.”

Dois dias depois, Caio voltou com uma pasta fina.

Marina tinha trinta anos e formação técnica em administração. Trabalhara cinco anos no departamento pessoal de uma rede de mercados que fechara duas unidades. Desde a demissão, sobrevivia com eventos nos fins de semana, quatro plantões noturnos num hotel e serviços administrativos pagos por diária.

Morava em Vila Prudente com Sofia. Devia parte de dois aluguéis.

Dona Lúcia, mãe de Marina, tinha sessenta e três anos e uma doença cardíaca crônica. Os remédios e consultas consumiam o pouco que sobrava.

“O pai da menina?” Vicente perguntou.

“Foi embora antes do nascimento. Não há participação regular.”

Vicente fechou a pasta.

“Ela não vai aceitar dinheiro.”

“Pelo que levantamos, não.”

“Então não receberá dinheiro.”

Naquela tarde, Vicente reuniu a diretora de recursos humanos e o responsável pelo setor de restaurantes do Grupo Ferraz.

Havia meses, os funcionários reclamavam da demora no encaminhamento de atestados, da falta de orientação sobre benefícios e de escalas que mudavam sem comunicação adequada. Os problemas existiam antes de Marina. A vaga também precisava existir depois dela.

“Criem uma posição de coordenação de benefícios e apoio ao funcionário”, ordenou. “Salário compatível, horário comercial e critérios publicados. Quero seleção de verdade.”

A diretora ergueu uma sobrancelha.

“Já tem alguém em mente?”

“Tenho alguém que deve ter o direito de concorrer.”

Vicente telefonou para Marina naquela noite.

Ela demorou a atender.

“Como conseguiu meu número?”

“Estava no cadastro da empresa de eventos.”

“Isso não torna a ligação menos estranha.”

“Tem razão.”

O silêncio dela exigiu que ele continuasse.

“Um dos restaurantes está abrindo uma vaga na área de benefícios aos funcionários. É trabalho formal. Você tem experiência compatível.”

“Uma vaga que apareceu dois dias depois de você descobrir que sou filha do homem a quem acredita dever a vida.”

“A necessidade já existia.”

“E você espera que eu acredite que meu sobrenome não teve influência?”

Vicente olhou para a camélia sobre a mesa.

“Teve influência para que seu currículo fosse lido. Não terá influência na entrevista.”

“Por que não manda um cheque e acaba logo com a consciência pesada?”

“Porque Augusto teria rasgado o cheque na minha frente.”

Marina soltou o ar do outro lado.

“Quem vai me entrevistar?”

“A diretora de recursos humanos e o gerente operacional. Eu não estarei presente.”

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“Quero a descrição da vaga por escrito. Salário, horário, responsabilidades e a quem eu responderia.”

“Vai receber tudo amanhã.”

“E se eu não for a melhor candidata?”

“Não será contratada.”

“Você aceita isso?”

“Aceito.”

Marina fez outra pausa.

“Então vou ler.”

Ela não agradeceu. Vicente não esperava que agradecesse.

Três dias depois, Marina entrou no escritório administrativo de um restaurante na Avenida Paulista usando uma camisa clara, calça preta e sapatos que haviam sido cuidadosamente polidos para esconder o desgaste.

Levava uma pasta com certificados, referências e anotações sobre a empresa.

A entrevista começou com perguntas previsíveis. Marina respondeu sem exagerar cargos nem esconder o período difícil depois da demissão.

Então a diretora lhe entregou uma planilha fictícia de escalas e benefícios.

“O que você mudaria?”

Marina leu durante sete minutos.

“Primeiro, pararia de tratar isso como dois problemas separados.”

O gerente operacional se inclinou para a frente.

“Explique.”

“As trocas de turno não registradas estão fazendo funcionários perderem prazos de entrega de documentos. Depois o RH registra ausência de documentação e o benefício atrasa. A equipe culpa o RH, o RH culpa o gerente, e o funcionário paga a conta.”

Ela apontou três linhas.

“Criaria confirmação digital simples para cada alteração, uma janela semanal de atendimento e um protocolo único. Também há três pessoas fazendo trabalho semelhante em unidades diferentes, sem compartilhar informação.”

“Isso reduziria custo?” perguntou a diretora.

“Reduziria erro. Se depois reduzir custo, ótimo. Mas começar pelo custo é o motivo de o processo estar quebrado.”

Ao fim de uma hora, Marina recebeu um estudo de caso. Ao fim de duas, pediram que esperasse.

Vinte minutos depois, a diretora voltou com uma proposta.

Marina leu cada página.

“Quero acrescentar uma cláusula.”

“Qual?”

“Minha avaliação deve seguir os mesmos indicadores da equipe. E qualquer alteração de salário ou função fora da política precisa de justificativa formal assinada pelo RH.”

O gerente pareceu surpreso.

“Está se protegendo de quê?”

“De dever um favor que ninguém admite que é favor.”

A diretora sustentou o olhar dela. Então pegou a caneta.

“Aceito.”

Marina assinou.

Na saída, encontrou Vicente no saguão. Ele não usava gravata, mas continuava parecendo alguém a quem o prédio inteiro abriria passagem.

“Você disse que não participaria da entrevista.”

“Não participei.”

“Mas veio conferir o resultado.”

“Vim almoçar no meu restaurante.”

Marina quase sorriu.

“Claro.”

Ela lhe entregou uma cópia da proposta.

“Consegui o trabalho.”

“Eu soube que sua análise foi a melhor.”

“E acrescentei uma cláusula para impedir que você transforme o cargo em presente.”

“Também soube disso.”

“Está irritado?”

“Estou impressionado.”

Marina guardou a cópia na pasta.

“Trabalho, Vicente. Não caridade.”

“Trabalho”, ele concordou.

Durante as duas semanas seguintes, não se falaram.

Marina cumpriu aviso nos plantões que podia deixar, organizou quem buscaria Sofia e estudou os procedimentos do grupo todas as noites. Vicente recebeu dois relatórios sobre a contratação e não pediu nenhum detalhe pessoal.

Às três e dezessete da madrugada de uma terça-feira, o telefone dele tocou.

Vicente acordou antes do segundo toque.

O nome de Marina aparecia na tela.

Ele atendeu.

Ao fundo, ouviu uma sirene e a voz metálica de alguém dando instruções.

“Marina?”

“Minha mãe acordou sem conseguir respirar. A ambulância está levando a gente para o Instituto Cardíaco Santa Helena.”

A voz dela era baixa e tensa. Cada palavra parecia sustentada por esforço.

“Onde está Sofia?”

“Com a vizinha. Está dormindo.”

Vicente já se levantava.

“Do que você precisa?”

Marina ficou em silêncio por um segundo. Quando respondeu, a voz finalmente vacilou.

“Eu não preciso de dinheiro. Preciso de alguém que não desmorone agora.”

Vicente pegou o paletó.

“Fique comigo na linha. Eu já estou indo.”

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