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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 2 — A Dívida de Vinte e Dois Anos

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Capítulo 2 — A Dívida de Vinte e Dois Anos

O nome levou Vicente de volta a uma tarde de julho.

Ele tinha dezesseis anos, quarenta e três reais no bolso e uma dor no maxilar que o impedia de mastigar. A mãe morrera no ano anterior. Depois disso, o padrasto transformara o apartamento apertado na Zona Leste num lugar em que Vicente aprendera a dormir sem fechar os dois olhos.

Numa quinta-feira, ele saiu e não voltou.

Passou duas noites num banco de praça. No terceiro dia, as pernas cederam atrás de uma oficina na Mooca.

O homem que o encontrou tinha barba grisalha, camisa azul manchada de óleo e unhas que nunca ficavam completamente limpas.

Não perguntou se Vicente era ladrão. Não chamou a polícia. Não quis saber de onde ele vinha.

Fez uma única pergunta.

“Está com fome?”

Augusto Duarte lhe deu arroz, feijão, dois ovos e um colchão no cômodo sobre a oficina.

Nos dois anos seguintes, ensinou-lhe a segurar uma chave sem machucar os dedos, a ler um manual técnico e a reconhecer pelo barulho quando um motor estava prestes a falhar.

Também lhe ensinou coisas que não cabiam em manual algum.

“O valor de um homem aparece quando ninguém está olhando”, repetia Augusto.

Numa noite de dezembro, entregou a Vicente uma pequena andorinha esculpida do pedaço de uma bancada quebrada.

“Andorinha sempre procura onde pousar”, dissera. “Não importa de onde ela levantou voo.”

Vicente guardou o presente.

Depois traiu tudo o que ele representava.

Aos dezoito, recebeu uma proposta para transportar uma carga do Brás até um depósito no litoral. O pagamento por uma noite superava o salário de Augusto em um mês.

Vicente recusou a primeira vez. Também a segunda.

Na terceira, aceitou.

Deixou um bilhete sobre a bancada e saiu antes do amanhecer. Prometeu a si mesmo que voltaria quando tivesse dinheiro suficiente para proteger Augusto de qualquer perigo que pudesse segui-lo.

Nunca voltou.

O dinheiro cresceu. O perigo também.

Aos vinte e cinco, o sobrenome Ferraz já abria portões no porto de Santos e fechava bocas em São Paulo. Aos trinta, voltar à oficina significaria apontar para Augusto o mesmo tipo de arma que Vicente dizia querer manter longe dele.

Essa foi a desculpa.

A verdade era mais simples: ele tinha vergonha.

Três anos antes, depois de enterrar o irmão Leandro, Vicente finalmente mandara procurar Augusto. Recebeu uma pasta com duas páginas.

A oficina fechara. Augusto morrera sozinho, de insuficiência cardíaca, quatro anos antes.

Deixara uma filha.

Vicente não pedira o nome dela.

Agora a filha trabalhava a poucos metros, e a neta de Augusto estava sentada ao lado dele.

“Moço?”

A voz de Sofia trouxe o salão de volta.

Vicente abriu a mão. A andorinha repousava em sua palma.

“Você conheceu meu vovô?”

Ele poderia mentir. Era bom nisso.

“Conheci.”

“Ele consertava carros.”

“Ele consertava muita coisa.”

Sofia pareceu satisfeita com a resposta. Estendeu a mão, e Vicente devolveu o pingente.

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Pouco depois, Marina retornou. Trazia a bolsa no ombro e marcas vermelhas nos dedos, deixadas pelas bandejas pesadas.

“Obrigada por ficar com ela.”

Sofia ergueu os braços, sonolenta. Marina a pegou no colo, e a menina apoiou a cabeça em seu ombro.

“Vou acompanhá-las até o carro”, disse Vicente.

“Não é necessário.”

“Eu sei.”

Marina sustentou o olhar dele. Depois olhou para Sofia, já quase dormindo, e assentiu.

Eles saíram por uma porta lateral. A noite estava fresca, e as luzes presas às árvores derramavam manchas douradas sobre o estacionamento dos funcionários.

O carro de Marina era um hatch azul antigo, com um risco comprido na porta traseira.

Quando ela abriu a porta para acomodar Sofia na cadeirinha, Vicente falou:

“Seu pai tinha uma oficina na Mooca.”

Marina congelou.

Virou-se devagar.

“Como sabe disso?”

“Porque ele salvou minha vida.”

Ela não respondeu.

Vicente manteve as mãos visíveis ao lado do corpo.

“Eu tinha dezesseis anos. Não tinha casa nem comida. Augusto me encontrou atrás da oficina e me deu as duas coisas. Morei no cômodo de cima por quase dois anos.”

Marina olhou para a andorinha no peito da filha.

“Meu pai nunca falou de você.”

“Ele não ajudava pessoas para ser lembrado.”

“Então por que foi embora?”

A pergunta veio sem delicadeza. Vicente preferiu assim.

“Porque escolhi dinheiro fácil. Depois me convenci de que ficar longe era uma forma de protegê-lo.”

“Era?”

“Não.”

Marina o observou por alguns segundos. A resposta pareceu surpreendê-la mais que uma justificativa teria surpreendido.

“Qual é o seu nome?”

Ele sabia que aquele seria o momento em que tudo mudaria.

“Vicente Ferraz.”

O reconhecimento surgiu lentamente no rosto dela.

Uma notícia vista na televisão. Fotografias entrando e saindo de prédios públicos. Investigações que começavam com manchetes e terminavam sem denúncia suficiente. Restaurantes elegantes, imóveis, terminais de carga e rumores que ninguém repetia em voz alta.

Marina deu um passo para trás e colocou o corpo entre Vicente e a porta aberta do carro.

“Você é aquele Vicente Ferraz.”

“Sim.”

“E se aproximou da minha filha sem me dizer quem era.”

“Foi ela quem se aproximou de mim. Mas deveria ter contado antes.”

“O que você quer?”

“Nada de você.”

Vicente retirou lentamente um cartão branco do bolso. Havia apenas um número impresso.

“Se um dia precisar de alguma coisa para sua mãe, sua filha ou para você, ligue.”

Marina não pegou o cartão.

“Meu pai me ensinou a trabalhar pelo que tenho.”

“Ele me ensinou a mesma coisa.”

“Então sabe que não aceito dinheiro de um estranho. Muito menos de um homem cuja história aparece sempre ao lado da palavra investigação.”

Vicente baixou a mão.

“Sei.”

Marina acomodou Sofia na cadeirinha e prendeu o cinto. Antes de fechar a porta, ajeitou a andorinha sobre o vestido vermelho.

“Meu pai morreu há quatro anos”, disse ela, sem olhar para Vicente. “A oficina fechou meses antes. Ele dizia que estava tudo bem, mas nunca superou aquilo.”

Ela fechou a porta.

“Talvez, se você tivesse voltado enquanto ele ainda estava vivo, sua gratidão significasse alguma coisa para ele.”

Vicente recebeu a frase sem se defender.

Marina entrou no carro e saiu do estacionamento.

Ele ficou sob as luzes das árvores, segurando o cartão que ela recusara.

No bolso interno do paletó, a camélia branca ainda estava intacta o bastante para lembrá-lo de que algumas dívidas não podiam ser pagas com dinheiro.

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