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"A Menina Que Deu Uma Flor ao Homem Mais Temido" Capítulo 1 — A Menina do Vestido Vermelho

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Capítulo 1 — A Menina do Vestido Vermelho

Vicente Ferraz percebeu primeiro os sapatos.

Pequenos, brancos, riscados nas pontas. Tinham parado diante dele sem que notasse, embora passasse a noite registrando cada movimento no salão de festas.

As duas saídas laterais. A porta da cozinha. Os seguranças fingindo admirar a decoração. O homem de gravata azul que já olhara quatro vezes para sua mesa.

Mas não a menina.

Ela usava um vestido vermelho de tule, meias claras e duas presilhas diferentes prendendo os cachos escuros. Na mão, segurava uma camélia branca, um pouco amassada e sem uma pétala.

Vicente ergueu os olhos.

A menina o examinava com a seriedade de quem tinha acabado de descobrir um problema importante.

“Você está triste.”

Não era uma pergunta.

Ao redor deles, o quarteto de cordas continuava tocando. Taças tilintavam, pessoas riam, garçons atravessavam o salão luxuoso dos Jardins com bandejas de espumante.

Vicente permaneceu imóvel.

Durante anos, homens adultos haviam medido cada palavra antes de falar com ele. Aquela menina acabara de lhe dar um diagnóstico.

“Estou bem.”

Ela inclinou a cabeça, claramente desconfiada.

Então estendeu a flor.

“É para você.”

Vicente olhou para a camélia. O caule estava dobrado, e as pétalas tinham marcas dos dedos pequenos que a apertavam.

“Por quê?”

“Porque flores mandam a tristeza embora. Minha mãe disse.”

Alguma coisa se moveu dentro do peito dele.

Era uma sensação pequena, quase irritante, como uma dobradiça enferrujada cedendo depois de anos sem uso.

Ninguém lhe dava nada sem querer alguma coisa em troca. Não havia presentes no mundo de Vicente Ferraz. Havia favores, dívidas, ameaças disfarçadas e contas que sempre venciam.

A menina apenas esperava.

Ele recebeu a flor com as duas mãos.

Do outro lado do salão, Caio Nunes endireitou o corpo junto a uma coluna. Um dos seguranças murmurou algo em seu ouvido, mas Caio fez um gesto discreto para que ninguém se aproximasse.

A menina sorriu, satisfeita.

Depois, antes que Vicente pudesse impedir, subiu na cadeira vazia ao lado dele. As pernas curtas ficaram balançando sem alcançar o chão.

“Como você se chama?” ele perguntou.

“Sofia.”

“Quantos anos você tem, Sofia?”

Ela levantou quatro dedos.

“Quatro. Mas minha mãe diz que eu faço perguntas de quarenta.”

O canto da boca de Vicente quase se moveu.

“E onde está sua mãe?”

Sofia apontou para as portas da cozinha.

Antes que ele pudesse olhar, uma voz feminina atravessou a música.

“Sofia!”

Uma mulher surgiu entre as mesas, desviando de cadeiras e convidados. O cabelo escuro, preso em um coque baixo, começava a se soltar. O uniforme preto e branco da equipe de buffet estava impecável à distância, mas de perto denunciava horas de trabalho.

Ela chegou sem fôlego.

“Meu Deus. Sofia, eu disse para você ficar perto da copa.”

A mão dela já buscava o pulso da filha quando percebeu quem ocupava a cadeira diante dela.

Seu olhar passou pelo terno escuro feito sob medida. Pelo relógio discreto, caro demais para precisar chamar atenção. Pelos homens junto à coluna. Depois, pelas mesas próximas, onde as conversas haviam diminuído.

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O rosto da mulher perdeu a cor.

“Senhor, me desculpe. Eu me virei por um minuto. A pessoa que ficaria com ela cancelou no fim da tarde e eu não podia perder este trabalho. Ela deveria estar sentada perto da cozinha.”

“Ela me deu uma flor.”

A mulher parou.

Vicente ergueu a camélia branca.

“Não precisa se desculpar por isso.”

Sofia olhou para a mãe.

“Ele estava triste.”

“Sofia...”

“Agora estou menos”, disse Vicente.

A mulher o encarou, surpresa. Havia cansaço em seus olhos, mas não submissão. Mesmo assustada, ela se colocou entre a filha e ele por instinto.

Vicente respeitou aquilo.

“Qual é o seu nome?”

“Marina Duarte.”

“Sua jornada termina quando, Marina?”

Ela consultou o relógio simples no pulso.

“Em vinte minutos.”

“Sofia pode ficar aqui até lá.”

Marina apertou os lábios.

“Agradeço, mas não quero incomodar.”

“Ela não incomoda.”

“Eu sei cuidar de mim”, Sofia anunciou.

Marina abaixou-se diante da filha.

“Você fica sentada. Não sai daqui. Não pega mais flores dos arranjos e não pede sobremesa a ninguém. Entendeu?”

Sofia assentiu com solenidade.

Marina se levantou, mas não foi embora imediatamente. Olhou diretamente para Vicente, como se tentasse separar o homem sentado diante dela do nome que talvez já tivesse ouvido.

“Vinte minutos.”

“Vinte minutos”, ele confirmou.

Ela voltou para a cozinha, olhando para trás duas vezes.

Sofia aproximou o prato de doces que permanecia intocado diante de Vicente.

“Sua mãe disse para não pedir sobremesa.”

“Eu não pedi. Já estava aqui.”

Dessa vez, ele sorriu de verdade, embora por menos de um segundo.

Sofia escolheu um brigadeiro e começou a comê-lo em pequenas mordidas. Enquanto ela balançava as pernas, uma coisa escura surgiu sobre o vermelho do vestido.

Um pingente de madeira preso a um cordão fino.

Vicente deixou a camélia sobre a mesa.

Era uma andorinha com as asas fechadas junto ao corpo. A madeira havia escurecido com os anos e brilhava nas extremidades pelo toque frequente de dedos.

Mas não foi o formato que prendeu a atenção dele.

Foi o corte sob a cauda.

Um pequeno entalhe diagonal, seguido por outro mais raso. A marca de uma lâmina retirada sempre pelo mesmo ângulo.

O ar pareceu desaparecer do salão.

Vicente conhecia aquele corte.

Havia passado os dedos sobre um igual, vinte e dois anos antes, num quarto apertado sobre uma oficina na Mooca.

“Sofia”, disse ele, mantendo a voz estável. “Posso ver seu passarinho?”

Ela segurou o pingente.

“Não é passarinho. É andorinha.”

“Tem razão. Posso ver sua andorinha?”

Sofia tirou o cordão pela cabeça e colocou o objeto na palma dele sem hesitar.

Vicente fechou os dedos ao redor da madeira.

O peso era quase nada. Ainda assim, sentiu como se alguém tivesse colocado vinte e dois anos em sua mão.

“Quem fez isto?”

“Meu vovô Guto.”

O apelido atingiu Vicente no centro do peito.

Guto.

Augusto.

Ele passou o polegar sobre a asa lisa.

“E qual era o nome inteiro do seu avô?”

Sofia franziu o rosto, concentrada. Por alguns segundos, moveu os lábios sem som.

Então abriu um sorriso orgulhoso.

“Augusto Duarte. Igual à mamãe.”

Vicente não respirou.

Na mesa, ao lado de sua mão fechada, a camélia branca perdera mais uma pétala.

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