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"O Bebê Com os Olhos do Meu Filho Falecido" Capítulo 9

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Um ano após a entrada de Léo no escritório, a antiga sala de interrogatório tinha paredes claras, estantes baixas e uma mesa coberta de lápis.

Marco mandara remover o cofre, trocar o assoalho onde o copo se quebrara e transformar o ambiente numa sala de estudos.

Matteo escolheu manter o tapete persa porque, segundo ele, Léo precisava praticar novos tombos num lugar macio.

A casa já não acordava com rádios de segurança. Acordava com Léo batendo uma colher na bandeja da cadeira e Matteo procurando um tênis que quase sempre estava sob o sofá.

Marco aprendera a preparar panquecas redondas, embora o menino dissesse que as tortas tinham mais personalidade.

Num domingo, Gabriel chegou carregando duas travessas e reclamando que ninguém da família Moretti sabia temperar carne. Lorenzo apareceu depois, agora trabalhando como consultor de conformidade sob supervisão judicial. Domenico trouxe pão, usando o braço ferido com quase toda a mobilidade recuperada.

— Isto parece uma reunião de pessoas que tentaram se matar — comentou Lorenzo.

— Algumas ainda consideram — respondeu Gabriel.

Helena mandou os dois levarem as travessas para a cozinha.

Os almoços de domingo começaram por necessidade. Matteo precisava conhecer a família sem ouvir versões clandestinas.

Depois viraram hábito. Falavam de processos quando necessário, mas também de escola, futebol, febre, contas e receitas. O barulho que antes irritaria Marco passou a ser a prova de que ninguém precisava sussurrar.

Havia lugares vazios naquela mesa. Rebeca nunca provaria a massa de Gabriel. Alessandro não conheceria os netos. Pessoas feridas pelas ordens de Marco não aceitariam convite, e ele jamais cometeria a indecência de esperar isso.

Helena sugeriu que, uma vez por mês, o almoço desse lugar a uma reunião do fundo de reparação. Marco concordou, desde que não presidisse nada. Sentava ao fundo, ouvia relatórios e respondia quando alguém lhe dirigia uma pergunta.

Na primeira reunião, um rapaz perguntou como confiar em uma empresa ainda chamada Moretti. Marco não apresentou slogans. Explicou o conselho independente, os canais externos de denúncia e o acesso público às auditorias. O jovem respondeu que observaria. Para Marco, aquilo valia mais do que uma confiança concedida depressa demais.

Naquele dia, Matteo levou para a mesa um trabalho da escola. O tema era "O que os adultos da minha casa fazem". Desenhara Helena com um estetoscópio, Gabriel diante de uma loja, Domenico consertando uma bicicleta e Marco segurando uma pasta.

— O que eu faço? — perguntou Marco.

— Você trabalha na empresa e vai ao juiz.

— É uma descrição justa.

— Mas a professora disse para escrever a coisa mais importante.

— E qual é?

Matteo virou a folha. Em letras grandes, escrevera: MEU PAI VOLTA PARA CASA.

Marco precisou olhar para a janela. Helena pousou a mão em seu ombro sem comentar.

As restrições continuavam. Marco informava deslocamentos, recebia auditores e prestava esclarecimentos sempre que novos nomes surgiam no arquivo. A cada visita ao fórum, explicava a Matteo onde iria e quando voltaria. Se houvesse atraso, telefonava. A promessa não era que nada ruim aconteceria; era que nenhuma ausência seria escondida atrás de uma mentira.

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O fundo de reparação financiou apoio psicológico, buscas de desaparecidos e bolsas para filhos de vítimas. Marco recusou que seu nome aparecesse. Não queria converter reparação em reputação. Quando um jornalista descobriu o financiamento e o chamou de redenção, ele respondeu que dívida paga não apaga o dano.

Helena voltou ao hospital como enfermeira. No primeiro plantão noturno, ficou parada diante da porta pediátrica e quase desistiu. Domenico aguardou no estacionamento, sem entrar nem telefonar. Ao amanhecer, ela saiu exausta e sorrindo.

— Uma menina me mordeu — contou.

— Quer que eu resolva?

Helena o encarou. Ele levantou as mãos.

— Piada ruim. Ainda estou aprendendo.

Ela riu, e aquele foi o primeiro momento em que permitiu que ele a beijasse.

O relacionamento não foi recebido sem desconforto. Marco lembrou a ameaça que Domenico fizera anos antes. Helena respondeu que também lembrava, que impusera condições e que escolheria por si mesma. Marco percebeu como era fácil vestir controle de proteção.

As condições de Helena eram claras. Domenico continuaria na terapia, não esconderia contatos do processo e jamais usaria o passado como desculpa para decidir por ela. Se discutissem, ninguém sairia levando Léo sem explicar para onde ia. Domenico aceitou e acrescentou uma regra para si: pediria ajuda antes que o medo virasse ordem.

Marco teve vontade de questionar se regras bastavam. Sua terapeuta o fizera perceber que ele costumava confundir desconfiança legítima com licença para governar a vida alheia. Por isso, chamou Domenico para conversar no jardim, à vista de Helena, e não no antigo escritório.

— Não estou lhe dando permissão — disse Marco.

— Eu sei.

— Estou avisando que ela não precisa mais de nenhum de nós para falar por ela.

Domenico assentiu.

— Essa foi a primeira coisa que ela me ensinou.

— Se ele machucar você...

— Eu conto, saio e peço ajuda. Você não precisa matar ninguém.

— Eu ia dizer que conversaria com ele.

— Está aprendendo rápido.

Clara passou a escrever cartas para Matteo entre as visitas. Não prometia segredos nem inventava viagens. Contava sobre o jardim, os pássaros da serra e os dias em que sentia vergonha. O menino respondia com desenhos. Numa tarde, perguntou se era possível amar alguém e estar bravo com ela.

— É possível — explicou Marco. — Amor não transforma erro em acerto. Só torna a verdade mais difícil e mais necessária.

Ao dizer aquilo, pensou em Domenico, Helena, Clara e no próprio pai. Pensou também em si.

Antes de dormir, Matteo pediu a história do acidente. Marco contou apenas o que a idade permitia: Rebeca percebeu o perigo, tentou desviar e o protegeu. Havia adultos maus e adultos assustados. Havia pessoas que chegaram tarde, mas não desistiram.

— Você chegou tarde — disse Matteo.

— Cheguei.

— Mas chegou.

Marco beijou a meia-lua sob a orelha do filho, como fazia quando ele era bebê. Depois apagou a luz e deixou a porta entreaberta.

No corredor, Léo ensaiava passos inseguros entre Helena e Domenico. Caiu sentado, indignado, levantou sem ajuda e caminhou direto para Marco. Ele o pegou no colo.

Os mesmos olhos que um dia pareceram um fantasma agora eram apenas os olhos de uma criança viva.

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