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"O Bebê Com os Olhos do Meu Filho Falecido" Capítulo 6

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Seis meses depois, Marco saiu do fórum com uma tornozeleira eletrônica sob a calça e regras suficientes para ocupar três páginas. Não podia deixar o estado sem autorização, falar com antigos integrantes da organização ou movimentar as empresas sem supervisão. Tinha de comparecer mensalmente ao juízo, manter o acordo de colaboração e financiar um fundo de reparação com bens confiscados.

A sentença final ainda dependeria dos processos derivados do arquivo, mas o juiz aceitara a prisão domiciliar parcial e as medidas cautelares por causa da cooperação, do risco reduzido e da necessidade de proteger Matteo como testemunha indireta. Marco não chamou aquilo de vitória. Liberdade comprada com confissão não era presente; era responsabilidade.

Na escadaria, Matteo rompeu a pequena barreira de jornalistas e correu. Marco o recebeu nos braços. Léo, no colo de Helena, bateu palmas. Gabriel ficou ao lado dela. Domenico, com o braço ainda rígido, observava a poucos passos, sem saber se tinha direito de se aproximar.

Matteo resolveu por todos. Desceu dos braços do pai e foi até Domenico.

— Você levou um tiro por ele?

— Levei.

— Doeu?

— Muito.

— Então você pode almoçar com a gente.

Helena escondeu um sorriso. Marco apenas abriu a porta do carro.

A casa parecia diferente sem homens armados em cada corredor. A maioria fora dispensada; uma equipe de proteção aprovada pelas autoridades permanecia por causa das ameaças ligadas ao processo. O antigo escritório estava lacrado. Marco transformara uma sala menor em espaço de trabalho para as empresas de transporte e construção que sobreviveram à auditoria.

Na primeira noite, preparou panquecas para o jantar. Continuavam tortas, mas já não estavam cruas. Matteo contou que aprendera a escrever o sobrenome e perguntou se Léo também seria Moretti.

— Ele é Bellandi — explicou Helena.

— Mas é da família.

— É.

— Então sobrenome não manda tanto assim.

Gabriel ergueu o copo de suco.

— Finalmente alguém inteligente nesta mesa.

Depois que as crianças dormiram, Helena encontrou Marco na varanda. Durante meses, ela evitara falar do emprego falso, dos relatórios e da fotografia destruída. A proximidade da casa tornava o silêncio mais pesado.

— Eu podia ter contado antes — disse.

— Podia.

— O senhor consegue me perdoar?

— Ainda não sei. Mas entendo por que protegeu Léo. E não vou exigir que me chame de senhor dentro da sua própria família.

Helena respirou como se recebesse permissão para pousar um peso.

— Marco, então.

Uma correspondência sem remetente chegou na manhã seguinte. A segurança examinou o envelope antes de entregá-lo. Dentro havia uma fotografia do carro queimado na serra e uma frase datilografada: "Você encontrou Matteo. Agora descubra quem provocou o acidente."

O mundo voltou a inclinar. Marco sentiu a vontade imediata de arrancar respostas de Vitório na prisão. Em vez disso, chamou a delegada responsável e entregou o envelope intacto.

Os autos originais estavam sob sigilo, arquivados como acidente. Uma nova perícia nas peças preservadas revelou cortes precisos nas mangueiras de freio. Não fora falha mecânica. Rebeca Fontes, a babá que dirigia, fizera uma ligação de um aparelho pré-pago dezessete minutos antes de o carro romper a proteção. O mesmo identificador de rede apareceu dois anos depois, quando uma mensagem enviou a fotografia de Matteo para Helena.

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— Alguém tentou falar duas vezes — disse a delegada. — Antes do acidente e depois dele.

O aparelho fora ativado perto de uma casa em São Bento do Sapucaí. O imóvel pertencia a Clara Valente, a mulher que cuidara de Matteo na propriedade da serra. Clara havia sumido após a operação, sem mandado contra si. Seu passado a ligava diretamente a Vitório: por dezoito anos, fora secretária particular dele.

Marco pediu autorização judicial para participar da abordagem como colaborador e vítima. Foi recusado. Então fez o que seu acordo permitia: entregou todas as informações e esperou. Duas horas depois, Clara telefonou diretamente para a casa.

— Eu mandei a carta — confessou. — Preciso falar com você antes que me prendam.

— Fale com a polícia.

— Eles vão ouvir. Mas há uma coisa que só você vai reconhecer.

O encontro ocorreu numa sala monitorada da delegacia, com advogados e agentes atrás do vidro. Clara colocou sobre a mesa um envelope envelhecido. A letra era de Alessandro Moretti, pai de Marco, morto três anos antes do acidente de Matteo.

A carta tinha trinta e três anos. Alessandro escrevia sobre Sofia Bellandi, uma mulher que amara, e sobre a filha que ela carregava. Dizia que protegeria o filho legítimo e a menina escondida da ambição de Vitório. Também registrava suspeitas de que o irmão provocava conflitos entre as famílias para assumir negócios de ambos os lados.

— Meu pai sabia — Marco murmurou.

— Descobriu quase tudo — disse Clara. — E por isso morreu.

O laudo oficial atribuía a morte de Alessandro a um infarto. Clara afirmou que Vitório substituíra seus remédios. Rebeca encontrara uma cópia da carta anos depois e ligara para o escritório em busca de orientação, sem saber que falava com os homens do assassino.

— O acidente começou com aquela ligação — concluiu Clara.

Marco pousou a mão sobre a carta. Ainda faltava saber como uma mulher morrera, como um menino sobrevivera e por que Clara demorara três anos para falar.

Helena leu a carta naquela noite e reconheceu uma frase que a mãe repetia quando ela era pequena: "Coragem não é sangue; é escolha." Sofia guardara o amor por Alessandro como segredo, mas deixara à filha um fragmento que Vitório não conseguira confiscar. Gabriel reagiu de forma diferente. Andou pela sala, furioso com Antonio por ter criado uma guerra em torno de uma criança que não era biologicamente dele e, ao mesmo tempo, por ter sido o pai que permaneceu.

— Ele sabia e ainda me criou como irmã — disse Helena.

— Também ensinou a gente a odiar os Moretti — respondeu Gabriel.

— As duas coisas são verdade.

Marco percebeu que aquela frase se tornava a regra mais difícil da família. Alessandro amara Sofia e deixara a filha escondida. Antonio acolhera Helena e alimentara o conflito. Clara protegera Matteo dentro de um sequestro. Nenhuma pessoa cabia numa única coluna de culpado ou inocente.

A delegada trouxe ainda um registro de pedágio que colocava o carro de Adriano atrás do veículo de Rebeca. A prova retirava do relato de Clara o peso de ser apenas memória. Havia também uma gravação de emergência em que uma testemunha dizia ter visto um homem retirar algo do banco traseiro antes do incêndio. Durante três anos, o áudio permanecera catalogado sob o número errado.

— Conte tudo — disse ele. — Desta vez, sem escolher qual verdade eu mereço ouvir.

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