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"O Bebê Com os Olhos do Meu Filho Falecido" Capítulo 3

正文开头

Marco abraçou Matteo com cuidado, como se o menino fosse ao mesmo tempo real e feito de vidro.

Sentiu o peso dos quatro anos, o calor do rosto em seu pescoço e uma respiração rápida que nenhuma lembrança podia reproduzir. Debaixo da orelha esquerda, a meia-lua estava ali.

— Você demorou — Matteo disse.

A frase abriu uma ferida que Marco não sabia possuir.

— Eu procurei no lugar errado. Mas cheguei.

— A tia Clara falou que você estava longe.

A mulher que se rendera no corredor começou a chorar. Antes que Marco perguntasse qualquer coisa, uma palma lenta soou perto da biblioteca.

Vitório Moretti surgiu de terno cinza, sem arma aparente, com a serenidade de quem ainda se considerava dono da situação.

— Uma reunião comovente — disse. — Sempre soube que este dia poderia chegar.

Os homens de Marco apontaram as armas. Ele colocou Matteo atrás de si.

— Você assinou a transferência.

— Eu salvei seu filho.

— Você me deu um caixão vazio.

Vitório inclinou a cabeça. Disse que Marco era um pai cercado por inimigos e que a criança jamais estaria segura no centro de uma guerra. Alegou ter retirado Matteo do hospital, apagado rastros e confiado o menino a Clara. A morte oficial, segundo ele, fora um escudo.

— Um escudo não ameaça enfermeiras — Marco retrucou. — Não manda homens vigiarem bebês.

— O luto fez de você o homem que a família precisava. Antes, sua ternura era uma fraqueza. Depois do funeral, ninguém ousou enfrentá-lo.

Marco entendeu enfim a lógica monstruosa. Vitório não escondera Matteo apesar da dor causada ao sobrinho. Escondera-o por causa dela. Moldara o chefe que desejava administrar por trás das cortinas.

Matteo apertou a barra do paletó do pai.

— Esse homem está bravo?

Marco baixou os olhos.

— Não. Esse homem está com medo.

Vitório sorriu, mas o maxilar endureceu. Uma explosão curta abalou o gerador externo. As luzes apagaram. Quando a equipe assegurou o quintal, uma porta de serviço estava aberta e Vitório havia desaparecido por uma passagem entre os depósitos.

Marco não o perseguiu. Escolheu Matteo.

No carro de volta, o menino segurou a fotografia com as duas mãos e fez perguntas simples, devastadoras. Onde ficava seu quarto? O leão de pelúcia ainda existia? Por que o pai não telefonara? Marco respondeu apenas o que podia prometer sem mentir. O quarto continuava lá. O leão fora enterrado, mas encontrariam outro. Ele não telefonara porque acreditara numa morte inventada por pessoas em quem confiava.

— Você vai embora de novo?

— Não por escolha minha.

Na casa, Helena esperava na entrada com Léo. Ao ver Matteo, levou a mão à boca. O menino observou o bebê, curioso, e tocou os cachos dele.

— Ele parece comigo.

Marco se lembrou das últimas palavras de Vitório antes do blecaute: "Você continua fazendo a pergunta errada. Não procure o pai do bebê. Descubra quem é a mãe."

正文1

Na sala, Helena revelou seu nome completo: Helena Sofia Bellandi. Fora criada como filha de Antonio Bellandi, o patriarca da família que os Moretti culpavam por mortes, extorsões e atentados havia duas décadas. Antes de morrer, sua mãe confessara que o pai biológico era Alessandro Moretti, pai de Marco.

— Somos irmãos — Marco disse.

— Por parte de pai.

Léo não era uma cópia impossível de Matteo. Era seu primo em primeiro grau, nascido da mesma linhagem e carregando a marca que aparecia em algumas crianças da família. O mistério que parecera sobrenatural tinha uma explicação de sangue.

— Vitório sabia?

— Desde antes de eu nascer. Minha mãe guardou cartas de Alessandro. Quando Antonio descobriu uma delas, Vitório o convenceu de que seu irmão pretendia humilhar os Bellandi. Foi assim que começou a guerra.

Marco sentiu o chão moral de sua vida se desfazer. Homens morreram em represálias por agressões talvez fabricadas. Contratos foram destruídos, filhos cresceram aprendendo sobrenomes como insultos, e ele próprio herdara um conflito desenhado por um tio paciente.

Lorenzo abriu o cofre retirado da propriedade. Dentro havia cópias de pagamentos e uma lista de nomes: delegados, fiscais, juízes, empresários, parentes dos Moretti e dos Bellandi. Ao lado de vários, datas coincidiam com acidentes, suicídios e desaparecimentos.

— Trabalhei para Vitório durante sete anos — confessou Lorenzo. — Lavava dinheiro e comprava silêncio. Parei quando vi Matteo vivo numa videoconferência. Roubei o arquivo original de um cofre financeiro no centro de São Paulo. É por isso que eu estava de joelhos no seu escritório.

Marco lembrou o momento em que quase mandara matá-lo. Lorenzo fora acusado de vender informações aos Bellandi; na verdade, tentava preservar provas antes que Vitório as eliminasse.

Matteo apareceu à porta com uma folha de papel. Desenhara duas figuras de mãos dadas sob um sol enorme. Uma era pequena, outra muito alta. Acima, com letras inseguras, escrevera EU + PAPAI.

Marco guardou o desenho dentro do paletó, junto da fotografia antiga.

Antes que o guarda chegasse, Marco levou Matteo ao quarto preservado na casa. O berço dera lugar a uma cama pequena, mas os livros continuavam na prateleira. O menino escolheu um volume sobre animais e pediu que o pai lesse. Marco tropeçou nas primeiras frases; sua voz, treinada para ordens, parecia incapaz de sustentar uma história simples. Matteo corrigiu o nome de uma onça e encostou o ombro no dele.

Helena observou da porta com Léo no colo. Por um momento, os quatro formaram uma família que nenhum deles sabia nomear. Marco percebeu que a verdade sobre o sangue não resolveria automaticamente os danos. Helena ainda temia a casa. Matteo amava Clara. Léo não compreendia nada. Ser irmão, pai ou tio não concedia confiança; apenas criava a obrigação de merecê-la.

Quando terminou o livro, Matteo perguntou se poderia deixar a luz acesa. Marco prometeu que sim e instalou uma cadeira do lado de fora. Passaria a noite ali se fosse preciso.

Um guarda entrou às pressas. Vitório escapara da equipe que fechava a estrada. O último aparelho apreendido mostrava uma ligação recente para o número usado pelos controladores de Helena.

Marco correu até os aposentos dela.

O quarto estava vazio. O berço também.

Sobre o travesseiro havia um bilhete: "Não me siga. Se seguir, Matteo morre."

Marco leu duas vezes. O primeiro impulso foi ordenar que a cidade parasse. O segundo foi correr atrás de qualquer pista. Então ouviu passos pequenos no corredor. Matteo o observava, assustado.

Marco dobrou o papel e respirou. Vitório conhecia o monstro que a perda libertava. Dessa vez, Marco não lhe daria o mesmo homem.

— Venha — disse ao filho. — Vamos preparar o café da manhã.

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