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"O Bebê Com os Olhos do Meu Filho Falecido" Capítulo 1

正文开头

Marco Moretti estava servindo bourbon quando a porta do escritório se abriu devagar. Diante da mesa, Lorenzo De Luca continuava de joelhos, com sangue no canto da boca. Domenico segurava a pistola apontada para o chão, à espera de uma decisão que, até aquele instante, parecia ser a única coisa importante naquela casa.

Uma mão minúscula surgiu no vão da porta.

Durante três anos, homens adultos aprenderam a não interromper Marco quando aquelas portas estavam fechadas. Ninguém explicara a regra a Léo, o filho de oito meses da funcionária da casa. Vestido com um pijama azul de ursinhos e usando apenas uma meia, ele engatinhou pelo tapete persa sem notar as armas nem o silêncio que se formava ao redor.

— Chefe... — murmurou Domenico.

Léo parou no centro da sala e ergueu o rosto. O copo escapou da mão de Marco. O cristal se quebrou no assoalho, espalhando bourbon junto aos sapatos dele.

Aqueles olhos castanhos. Os cachos negros. O queixo pequeno e teimoso.

Por um segundo, Marco não conseguiu puxar ar. Passara três anos tentando esquecer aquele rosto. Disseram que seu filho Matteo morrera quando o carro da babá atravessou a proteção de uma estrada na Serra da Mantiqueira. Chovia, o veículo pegara fogo antes da chegada do resgate e os ferimentos impediam qualquer despedida. Marco enterrara um caixão fechado, o leão de pelúcia preferido do menino e a manta azul sem a qual ele não dormia.

Naquele enterro, sepultara também a parte de si que sabia ser gentil.

Léo sorriu e levantou os braços.

Algo cedeu dentro de Marco. Ele contornou a mesa e caiu de joelhos.

— Matteo...

O bebê veio até ele, fechou os dedos ao redor de seu indicador e soltou uma risada. Marco o puxou contra o peito. Chorou sem discrição, apertando a criança como se mãos invisíveis estivessem prestes a arrancá-la dele. Léo tocou sua bochecha, agarrou sua gravata e tentou levá-la à boca.

Domenico desviou o rosto. Em quinze anos, vira Marco levar dois tiros, sobreviver a uma facada e enterrar o pai e o irmão mais novo. Nunca o vira chorar.

Léo virou a cabeça. Sob a orelha esquerda havia uma pequena marca de nascença em forma de meia-lua.

O corpo de Marco gelou. Matteo tinha uma marca idêntica, no mesmo lugar. Quando o filho era bebê, Marco a beijava todas as noites antes de colocá-lo no berço. Um rosto podia enganar um homem de luto. Cabelos e olhos podiam se repetir numa família. Aquela meia-lua, porém, parecia uma assinatura.

Um grito cortou o corredor.

— Léo!

Helena entrou correndo e perdeu um dos sapatos ao frear. Viu o filho nos braços de Marco, mas não demonstrou alívio. Seu olhar saltou do rosto dele para a marca sob a orelha do bebê, e toda a cor desapareceu de sua pele.

— Quem é o pai dele? — perguntou Marco.

Ela recuou.

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— Por favor, senhor Moretti...

— Quem é?

— Não me pergunte isso.

Até Lorenzo compreendeu que o interrogatório anterior deixara de existir. Marco mandou todos saírem. Domenico hesitou, então levou Lorenzo para o andar inferior com a ordem de que ninguém o tocasse. Quando a porta se fechou, Marco sentou no sofá de couro junto à lareira, ainda com Léo no colo.

— Sente-se, Helena.

Ela se acomodou na ponta da poltrona. As mãos tremiam, mas havia algo mais forte do que medo em seu rosto: proteção. Marco conhecia aquela espécie de amor. Era a disposição irracional de morrer antes de permitir que uma criança fosse ferida.

Ele perguntou onde Léo nascera, em que data e por que não havia pai nos documentos. As respostas vieram curtas: uma maternidade em Campinas, oito meses antes, homem nenhum presente. Quando Marco perguntou por que ela aceitara o emprego naquela casa com referências difíceis de confirmar, Helena ficou em silêncio.

— Você conheceu Matteo?

As lágrimas desceram sem ruído.

— Nunca quis machucar o senhor.

— Conheceu meu filho?

— Sim.

Helena trabalhara à noite como enfermeira pediátrica no Hospital São Vicente. Na madrugada do acidente, um menino fora levado à emergência com intoxicação por fumaça, hematomas e o braço fraturado. Estava assustado. Estava ferido. Estava vivo.

Marco se levantou tão depressa que Léo começou a reclamar. Sentou de novo por instinto e o embalou até acalmá-lo.

— Você está dizendo que meu filho sobreviveu?

— Sobreviveu ao acidente.

— Então o que enterrei?

— Eu não sei.

Antes do amanhecer, dois homens chegaram com credenciais de transferência. Um era alto, grisalho; o outro tinha uma cicatriz junto à sobrancelha direita. Helena tentou impedir a saída, recebeu ameaças e, na manhã seguinte, ouviu que o menino morrera durante o transporte. Dois anos depois, uma fotografia de Matteo, já maior, apareceu num envelope junto de uma ordem para que permanecesse calada.

Marco se lembrou de um homem com cicatriz no enterro, parado sob um guarda-chuva preto. Adriano Vale trabalhava para seu tio Vitório.

— Onde está a fotografia?

— Destruí. Mandaram que eu destruísse.

Marco bateu a mão na mesa. Léo chorou, e o arrependimento veio antes da raiva seguinte. Helena pegou o filho, embalando-o contra o peito.

— Fale baixo — pediu. — O senhor está assustando ele.

Marco diminuiu a voz. Descobriu que Helena fora colocada dentro da casa para observar visitantes e enviar relatórios a um número que mudava todos os meses. Parara ao engravidar, mas seus controladores passaram a perguntar onde o bebê dormia, quem cuidava dele e quando saía da propriedade.

— Por que se interessavam por Léo?

— Eu só entendi quando ele nasceu e o médico comentou a marca. Lembrei do menino no hospital.

— O pai dele é o segredo?

— Não. O pai não é o segredo que o senhor precisa temer.

Uma batida interrompeu os dois. Domenico entrou com uma pasta hospitalar amarelada. Mandara buscar os arquivos assim que vira a marca. Na primeira página, o nome MATTEO MORETTI aparecia acima do estado de admissão: VIVO.

Na autorização de transferência havia uma assinatura que Marco reconheceria até no escuro. Vitório Moretti assinava cartões de aniversário, cheques de Natal, contratos e as condolências enviadas depois do funeral.

— Prepare o carro — ordenou Marco.

— Para onde vamos? — perguntou Domenico.

— Visitar meu tio.

Helena ficou em pé, apertando Léo.

— Não pode ir.

— Por quê?

— Porque Vitório não é o homem que o senhor deveria procurar.

Marco avançou um passo.

— Então quem é?

— A pessoa que fez Matteo desaparecer é alguém em quem o senhor confia mais do que em seu tio. Alguém que esteve ao seu lado desde o funeral.

Sem pronunciar o nome, Helena voltou os olhos para Domenico.

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