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"Minha Filha Apontou para a Madrasta e Gritou: "Monstro!"" Capítulo 4

正文开头

Dante não dormiu.

Ao amanhecer, já assistira ao vídeo antigo dezessete vezes. Não porque a imagem mudasse, mas porque ainda esperava que a presença de sua mãe, de sua esposa e do reflexo do pai pudesse formar uma verdade simples.

Às seis e meia, Lívia entrou no escritório de pijama com coelhos. Beatriz vinha atrás, pedindo desculpas.

— Ela acordou cedo.

Lívia olhou para Dante.

— Você também está acordado.

— Estou.

— Dormiu?

— Não.

Ela pensou.

— Isso faz mal.

Dante quase sorriu. A menina subiu no sofá e apertou o Coelhinho.

— Mirela foi embora?

— Ainda não. Vai hoje.

— Ela está brava porque eu contei?

Dante se ajoelhou na mesma hora.

— Não. Ela está triste por causa das escolhas que fez.

— Eu fiz ela ir embora?

— Não.

— Promete?

— Prometo.

Lívia assentiu. Então viu o notebook.

— Vovó.

Dante congelou. Sofia morrera quando Lívia mal completara dois anos.

— Você se lembra dela?

— Um pouco. Do perfume.

Jasmim. Sofia usara a mesma fragrância por trinta anos.

— Mais alguma coisa?

— Ela cantava ruim.

Dante riu pela primeira vez desde o jantar.

— Cantava mesmo.

Às dez e quinze, Isabella chegou pela entrada lateral do jardim. Dante dera a ela a escolha, e ela recusara portão principal, fotógrafos e fileira de seguranças.

Desceu de um sedã comum. O cabelo escuro estava mais curto, uma cicatriz clara atravessava a têmpora e o corpo parecia mais magro. Ainda assim, era Isabella.

Nenhum dos dois se moveu.

— Oi — disse ela.

— Você desaparece por três anos e escolhe "oi".

— Entrei em pânico.

Um sorriso breve surgiu e morreu quando Isabella começou a chorar.

— Estou com raiva — disse Dante. — Não sei ainda o que ver você faz comigo. Talvez eu faça perguntas que você odeie. E você pode ir embora hoje, se quiser.

O rosto dela se desfez.

— Obrigada.

Só então ele a abraçou. Não foi reconciliação nem perdão completo. Foi o abraço que se dá a alguém que voltou dos mortos e continua sendo capaz de ferir.

Beatriz trouxe Lívia à sala do jardim. A menina parou na porta.

Isabella não avançou.

— Oi, Lívia.

A criança olhou para ela, depois para o brinquedo e outra vez para ela.

— Você é a mamãe.

— Sou.

— Você foi embora.

— Fui.

— Por quê?

Isabella se agachou.

— Eu me machuquei. Depois fiquei com medo e demorei mais do que devia para voltar.

— Você tinha medo do papai?

Isabella olhou para Dante antes de responder.

— Às vezes, eu tinha medo de ele decidir por mim antes de eu estar pronta.

Dante aceitou a frase sem se defender.

— O papai machucou você?

— Não.

— O tio Vítor?

— Não.

— Mirela?

— Não.

Lívia pareceu organizar as respostas. Depois estendeu o Coelhinho.

正文1

— Segura ele.

Isabella recebeu o brinquedo como quem recebe algo vivo. Lívia ainda não a abraçou. Ninguém exigiu.

— Você gosta de panqueca? — perguntou a menina.

— Gosto.

— O papai queima.

— Eu sei.

Dante se sentiu desnecessariamente atacado, mas o riso das duas tornou a sala menos estranha.

Depois do café, Lívia foi com Beatriz ao jardim de inverno. Dante colocou o vídeo antigo diante de Isabella.

— O que você entregava à minha mãe?

— O rascunho da guarda. Eu tinha mudado de ideia sobre o fundo do seu pai.

Alessandro criara a estrutura para preservar as empresas se Dante morresse jovem. Lívia herdaria os bens, um administrador profissional cuidaria dos ativos até os vinte e cinco anos, mas os direitos de voto permaneceriam com membros da família até ela completar dezoito.

— Minha mãe primeiro, Vítor depois — Dante concluiu.

— Era assim no início.

Um ano antes de morrer, Alessandro acrescentara uma cláusula: se o responsável sobrevivente de Lívia se casasse novamente, o administrador familiar poderia revisar a guarda.

Dante entendeu por que Mirela se tornara relevante para o patrimônio.

— Meu pai não confiava em estranhos perto das empresas.

— Eu queria retirar a cláusula. Sofia concordou.

— E ele?

Isabella olhou para o reflexo no vídeo.

— Ele entrou no escritório depois. Pediu desculpas.

Alessandro estava morrendo e mantivera a doença em segredo. Disse que passara a vida acreditando que todo risco podia ser controlado com estrutura e documentos. Não queria que Lívia crescesse achando que cada pessoa que a amasse precisava da aprovação da família.

— Ele chegou a remover a cláusula?

— Preparou a alteração, mas morreu antes de assinar.

Sofia tentara concluir o trabalho. Depois veio o câncer, os tratamentos e outro funeral. O rascunho permaneceu como intenção inacabada e, anos mais tarde, Vítor o tratou como perigo permanente.

Dante fechou o notebook.

— Minha mãe sabia que você estava viva?

Isabella hesitou.

— Durante oito meses.

Dante se levantou e foi até a janela. Mais uma pessoa o protegera com silêncio.

— Por quê?

— Porque ela queria me trazer de volta e eu recusei. Depois ela fez uma coisa rara: escutou.

Dante não estava pronto para perdoar Sofia, Isabella ou a si mesmo. Mas estava, pela primeira vez, disposto a ouvir sem transformar cada resposta numa ordem.

No almoço, Lívia observou Isabella cortar uma fruta. Não a chamava de mãe em todas as frases. Às vezes dizia apenas "você", testando se a mulher continuaria ali mesmo sem receber o nome desejado.

Isabella continuou.

Quando a menina derrubou suco, congelou. Dante reconheceu o mesmo medo visto no salão.

— Foi sem querer — disse Lívia depressa.

Isabella pegou um pano.

— Então limpamos.

— Você não vai embora?

A pergunta fez a mão de Isabella parar.

— Não por causa de um copo.

Dante percebeu que promessas grandes como "nunca mais" não reconstruiriam o vínculo sozinhas. Seriam necessários centenas de momentos pequenos em que um erro não terminasse em abandono.

正文2

Depois, Isabella pediu para ver o quarto da filha. Esperou autorização de Lívia antes de entrar. Diante do espaço onde Vítor instalara a câmera, apoiou a mão na parede.

— Eu achei que pedir vigilância manteria você segura — disse.

— Você me via dormindo?

— Não. Mas deixei que alguém pudesse ver. Foi errado.

Lívia olhou para o pai.

— Vai ter câmera nova?

— Não aqui — respondeu Dante. — Seu quarto é privado.

Isabella não pediu abraço. Quando se preparou para sair, Lívia correu até a porta e tocou de leve a cicatriz na têmpora dela.

— Doeu?

— Muito.

— Agora ainda dói?

— Às vezes.

Lívia pensou e ofereceu o Coelhinho por alguns segundos. Era o gesto mais próximo de consolo que sabia dar.

Isabella o segurou, devolveu e foi embora pelo mesmo portão lateral. Dante cumpriu a promessa: nenhum carro a seguiu.

À noite, ele recebeu uma mensagem curta:

Cheguei.

Não exigira o aviso, mas Isabella escolhera enviar. Dante respondeu apenas:

Obrigado.

No dia seguinte, ela voltou no mesmo horário. Lívia esperava junto à janela, porém não com a angústia da véspera. A repetição começava a fazer o que discursos não conseguiam.

Dante mostrou a Isabella a sala onde Mirela estivera. Não para colocá-las em lados opostos, mas para esclarecer que a antiga consultora fora recrutada sob uma instrução vaga.

— Eu pedi que alguém observasse minha filha e nunca estabeleci limites — disse Isabella.

— Vítor ampliou. Mirela ultrapassou. Eu não percebi.

— E Lívia pagou.

Nenhum deles tentou distribuir culpa até que a própria parcela ficasse menor.

Antes de ir embora, Isabella deixou uma lista com médicos, datas da recuperação e contatos da advogada que encontraria no dia do acidente. Dante a recebeu sem mandar sua equipe verificar na frente dela.

— Você não vai conferir?

— Vou. Mas não preciso transformar isso numa acusação.

Ela assentiu. Confiança, perceberam, não era deixar de verificar fatos. Era não usar a verificação como forma de reduzir o outro a suspeito.

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