"Minha Filha Apontou para a Madrasta e Gritou: "Monstro!"" Capítulo 3
Mirela estava na sala da manhã com as duas mãos em torno de uma xícara de chá.
Sem joias, maquiagem retocada ou sorriso social, parecia menor. A senhora Perez permaneceu até Mirela dizer que poderia sair.
Dante ficou junto à lareira.
— Quem pediu que você observasse Lívia?
— Isabella.
Ele não esperava aquela resposta.
Mirela trabalhara como consultora de captação de recursos na escola que Lívia frequentava antes das aulas em casa. Um ano antes, Isabella entrara em contato e pedira que ela prestasse atenção na menina.
— Ela pediu câmeras?
— Não. Pediu que eu ficasse de olho nela.
— Isso não é muito melhor.
— Eu sei.
— Como terminou casada comigo?
Mirela baixou a cabeça.
— Nunca fez parte do plano.
Ela começara a frequentar eventos onde a família Moretti apareceria. Faria doações, conversaria com professores e observaria se Lívia mencionava a mãe, o acidente ou documentos.
— Então eu notei você — disse Dante.
— Sim.
— Essa é sua defesa?
— Não. É a verdade.
O namoro fora rápido. Mirela parecia elegante, atenta e calorosa com Lívia, pelo menos quando Dante estava por perto.
— Isabella incentivou o relacionamento?
— Não.
— Vítor?
— Não.
Os pagamentos mensais vinham de uma empresa de segurança ligada a Vítor. Cobriam viagens, doações escolares e acesso a eventos. O casamento não constava de contrato algum.
— Por que casou comigo?
Mirela olhou pela janela.
— Porque, pela primeira vez, eu estava dentro de um mundo que sempre observei de fora.
Ali estava o centro de tudo. Não amor, embora talvez uma vontade de senti-lo. Ambição misturada com afeto e ressentimento.
— Você me amou?
— Eu quis amar.
— Não é a mesma coisa.
— Não.
— E Lívia?
Os olhos de Mirela se encheram.
— No começo, eu gostava dela.
Dante ficou mais frio.
— No começo.
Lívia falava de Isabella. Pedia fotografias. Perguntava pelo Coelhinho, que desaparecera durante uma mudança de quarto. Mirela escondera os retratos e guardara o brinquedo num armário.
— Por que trancou minha filha?
Mirela começou a chorar.
— Porque ela disse que eu não era a mãe dela.
— Ela estava correta.
— Eu sei.
— Então por que puni-la?
— Porque tive ciúme.
A palavra era feia, mas honesta.
Mirela passara meses convencendo a si mesma de que podia se tornar a pessoa de quem Lívia precisava. Quando a criança recusou o papel que ela inventara, transformou frustração em castigo.
— Criança nenhuma deve a um adulto esse lugar — disse Dante.
— Eu sei agora.
Ele recordou as marcas na porta.
— Você nunca mais ficará sozinha com Lívia.
Mirela assentiu.
— Vai sair desta casa amanhã.
— Sim.
— Vai cooperar com a investigação das câmeras, dos pagamentos e da porta da lavanderia.
— Sim.
— E nosso casamento terminou.
Não era pergunta.
Ela chorou em silêncio. Não houve humilhação pública, expulsão no meio da noite nem homens arrastando-a pelo corredor. Haveria consequências ligadas às escolhas, não uma vingança para satisfazer a raiva de Dante.
Quando ele se virou, Mirela falou:
— Existe algo que você ainda não sabe.
Dante quase sorriu de cansaço.
— O quê?
— Vítor nunca contou a Isabella sobre a câmera do seu escritório.
— Que câmera?
Mirela tirou o celular do bolso. Disse que não instalara nenhum aparelho, mas encontrara um arquivo antigo ao cruzar os acessos do sistema. A câmera do escritório existia quase dois anos antes das de Lívia.
Dante assistiu ao vídeo.
A gravação tinha três anos e oito meses. Isabella entrava no escritório, abria uma gaveta e retirava uma pasta. Sofia Moretti apareceu em seguida.
Mesmo sem áudio, era possível ler a capa quando Isabella entregou o documento.
LÍVIA MORETTI — CONTINGÊNCIA DE GUARDA.
A mãe de Dante conhecia o plano.
Ele pausou e ampliou a imagem. No reflexo escuro da janela havia uma terceira pessoa do lado de fora da porta.
Um homem alto, grisalho, com a mão direita apoiada no batente.
No dedo, o anel de ônix preto que agora pertencia a Dante.
Alessandro Moretti, seu pai, observara as duas mulheres em segredo.
Pelo horário registrado, o vídeo fora gravado apenas três dias antes da morte dele.
Dante olhou para Mirela.
— Vítor não começou isso.
— Não.
— Ele herdou.
Mirela levantou os olhos.
— Eu sei que nada do que disser desfaz a lavanderia.
— Não desfaz.
— Mas quero que saiba que, quando comecei, eu dizia a mim mesma que ajudava Isabella.
— E quando isso deixou de ser verdade?
Ela demorou.
— Quando percebi que gostava de ser apresentada como senhora Moretti. Quando funcionários começaram a me obedecer. Quando você confiou em mim o suficiente para não conferir cada decisão.
O poder não a transformara numa pessoa diferente de uma hora para outra. Apenas lhe oferecera pequenas oportunidades de escolher, e ela escolhera o controle repetidas vezes.
Mirela contou que escondera fotografias de Isabella porque Lívia as carregava para a mesa. Guardara o Coelhinho porque o brinquedo fazia a menina se acalmar sem precisar dela. Cada gesto infantil parecera uma rejeição pessoal.
— Você competiu com uma morta usando uma criança como juiz — disse Dante.
— Sim.
— E quando percebeu que Isabella não estava morta?
— Dois meses atrás. Encontrei uma mensagem de Vítor no telefone antigo usado para os pagamentos.
— Foi por isso que o castigo piorou?
Mirela fechou os olhos.
— Eu estava perdendo uma vida que nunca tinha sido minha.
Dante pediu que a psicóloga registrasse aquela admissão. Em seguida, mandou retirar o trinco da lavanderia ainda naquela madrugada. Não por simbolismo, mas porque nenhum cômodo destinado a serviço doméstico precisava de uma trava externa.
Antes de sair da sala, Mirela perguntou se poderia se despedir de Lívia.
— Não hoje. Talvez nunca. Essa decisão não será usada para aliviar você.
Ela assentiu, enfim sem tentar negociar.
Dante ficou sozinho com a imagem de seus pais. Durante anos, procurara ameaças fora da família. O vídeo revelava algo mais difícil: pessoas podiam amar e ainda criar sistemas que machucavam os outros.
O anel em seu dedo pareceu mais pesado.
Naquela madrugada, a perícia recuperou parte dos dezenove segundos apagados. A imagem mostrava a senhora Perez abrindo a lavanderia depois de ouvir batidas. Mirela aparecia ao fundo e ordenava que a funcionária voltasse ao salão.
Perez não obedecera. Libertara Lívia e apagara o trecho por medo de perder o emprego, acreditando que assim protegeria a menina sem enfrentar Mirela.
Dante a ouviu sem ameaças.
— Você fez certo ao abrir a porta. Fez errado ao alterar a gravação.
— Eu achei que ninguém acreditaria em mim.
— Essa parte é responsabilidade desta casa, não sua apenas.
Ele garantiu proteção trabalhista e incluiu seu relato na investigação. A verdade não precisava de uma pessoa impecável para continuar verdadeira.
Quando informou Lívia de que Perez a soltara, a menina sorriu.
— Eu sabia que a porta não abriu sozinha.
— Você sabia melhor que nós.
Ela guardou isso com satisfação. Depois pediu que o Coelhinho fosse costurado sem fechar totalmente o bolso onde estivera a chave.
— Para quê?
— Para eu esconder coisas minhas.
Dante concordou. Nem todo segredo de uma criança era ameaça. Alguns eram apenas pedrinhas, desenhos dobrados e autonomia começando.
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