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"Minha Filha Apontou para a Madrasta e Gritou: "Monstro!"" Capítulo 1

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O primeiro som que morreu foi o dos talheres.

Sob os lustres de cristal da mansão Moretti, quarenta convidados deixaram garfos suspensos no ar quando Lívia subiu na cadeira de veludo vinho. Tinha quatro anos, um vestido rosa bordado e o velho Coelhinho apertado contra o peito.

Seu dedo apontava para Mirela.

— Ela é um monstro! Foi ela que me trancou!

Mirela continuou de pé ao lado da mesa principal, linda demais para parecer culpada. O vestido de lantejoulas champanhe devolvia a luz das velas, mas o sorriso que sempre usava diante de Dante se desfez nas pontas.

Dante Moretti não olhou para a esposa. Primeiro segurou o encosto da cadeira para que a filha não caísse. Depois se agachou até ficar na altura dela.

— Onde ela trancou você, filha?

Lívia mordeu o lábio.

— Na lavanderia. No escuro.

Um murmúrio atravessou o salão. Mirela deu um passo à frente.

— Dante, ela teve uma crise. Beatriz a procurou por toda parte e agora Lívia está confundindo as coisas.

Lívia se encolheu ao ouvir a voz da madrasta. Dante percebeu. Não foi uma interpretação; foi um movimento pequeno e automático, os ombros protegendo o pescoço antes mesmo que Mirela se aproximasse.

— Ninguém vai brigar com você — disse ele.

— Eu falei que queria a mamãe. Ela disse que criança ingrata precisava aprender a ficar sozinha.

Mirela empalideceu.

— Isso é absurdo.

Lívia virou o Coelhinho e mostrou uma costura torta nas costas do brinquedo.

— E tem uma coisa dentro dele.

Dante desfez dois pontos soltos com os dedos. Uma pequena chave de latão caiu em sua palma e bateu no anel de ônix que herdara do pai.

Mirela tentou recuperar o tom doce.

— Ela está confusa.

— Uma criança confusa não esconde uma chave dentro de um coelho — respondeu Dante.

Ele ergueu Lívia nos braços. A menina se agarrou ao seu pescoço como se ainda esperasse ser arrancada dali.

— Fechem os portões — ordenou, sem elevar a voz. — Ninguém sai desta casa.

Os seguranças obedeceram. O estalo simultâneo das fechaduras eletrônicas foi mais alto que qualquer grito.

— Você vai me prender na minha própria casa? — perguntou Mirela.

— Vou descobrir por que minha filha tem medo de você.

Beatriz Bellini chegou correndo pelo corredor lateral. Ao ver Lívia, abriu os braços, mas não tentou tocá-la sem permissão.

— Quer vir comigo, meu amor?

Lívia olhou para Dante.

— Você vem também?

— Vou.

Ele dispensou os convidados em menos de cinco minutos. Não permitiu explicações públicas, pedidos de desculpas ensaiados ou perguntas dirigidas à criança. Mirela foi conduzida ao escritório de hóspedes, com uma funcionária à porta e água sobre a mesa.

Na antiga sala de música, Beatriz sentou-se no tapete com Lívia. Dante permaneceu perto, sem interromper, enquanto a filha contava o que conseguia.

Mirela ficara irritada porque Lívia perguntara pela mãe durante a festa. Dissera que Isabella estava morta e que repetir seu nome era uma forma de desrespeito. Quando Lívia chamou a madrasta de mentirosa, Mirela a levou pela mão até a lavanderia, apagou a luz e girou a chave.

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— Quanto tempo? — perguntou Dante.

Lívia deu de ombros.

— Muito.

Beatriz não insistiu em minutos. Pediu que a menina mostrasse como saíra.

— A porta abriu sozinha quando começou a música. Eu corri.

Dante sabia que a porta não abria sozinha. Alguém a libertara ou o mecanismo havia sido acionado remotamente.

— E a chave do Coelhinho?

— Já estava lá. Um homem colocou quando eu dormia.

O ar mudou.

— Que homem?

— O tio Vítor.

Dante fechou a mão em torno do latão.

Vítor Moretti administrara a segurança da família por mais de vinte anos. Fora ele quem identificara o corpo de Isabella depois do acidente, coordenara o funeral e instalara cada sistema de proteção da mansão.

Dante pediu a Beatriz que ficasse com Lívia e desceu à lavanderia. A luz acendeu de imediato, revelando um espaço amplo demais para parecer ameaçador: armários brancos, máquinas importadas, piso cinza, cheiro de sabão.

Então ele viu o trinco instalado do lado de fora.

Era novo.

Na parte interna da porta havia quatro marcas pequenas de unha, ainda nítidas na tinta.

Dante respirou fundo antes de tocar nelas.

O chefe de segurança retirou a tampa do detector de fumaça. Atrás do sensor, uma lente minúscula piscava em vermelho.

— Quem autorizou isso? — Dante perguntou.

— Não consta no sistema oficial.

No corredor do quarto de Lívia, encontraram outra câmera. No quarto, uma terceira apontava para a cama.

Dante ficou parado sob a lente.

— Desligue tudo, mas preserve os arquivos. Quero cópias em três servidores e uma perícia externa antes do amanhecer.

No closet de Isabella, fechado desde sua morte, a chave de latão abriu um cofre embutido atrás de uma prateleira. Lá dentro havia fotografias, documentos sobre o fundo patrimonial de Lívia e uma carta em envelope azul.

Na primeira fotografia, Isabella aparecia do lado de fora de uma clínica particular. A data impressa no canto era de oito meses depois do enterro dela.

Dante sentou-se no chão.

A carta tinha uma única página.

Dante, se você encontrou isto, Vítor perdeu o controle da situação. Ele sabe onde estou. Também sabe por que Lívia nunca deveria ter sobrevivido àquela noite. Não confie em uma explicação que transforme vigilância em amor. — Isabella

O telefone tocou antes que ele pudesse reler a última frase.

— Dante — disse Vítor. — Não machuque Mirela.

— Você entrou no quarto da minha filha enquanto ela dormia?

Silêncio.

— Sim.

— Instalou as câmeras?

— Duas delas.

— Escondeu esta chave no brinquedo?

— Sim.

— Onde está Isabella?

Vítor hesitou. Ao fundo, uma voz feminina pronunciou o nome de Dante.

Ele conhecia aquela voz melhor do que conhecia a própria.

Antes que pudesse responder, um segurança entrou no closet.

— Senhor, temos um problema.

— Qual?

— Mirela desapareceu do escritório.

Por três segundos, Dante apenas encarou a porta aberta.

Antes de subir, ele voltou à sala de música. Lívia estava deitada no sofá, coberta até o queixo, mas ainda acordada.

— A Mirela vai dizer que eu menti? — perguntou.

— Talvez ela diga muitas coisas. Você não precisa provar nada sozinha.

— Você acredita em mim?

Dante sentiu a pergunta como uma acusação contra todos os adultos que a haviam deixado duvidar disso.

— Acredito no que você sentiu e vou conferir o que aconteceu. Se alguma parte estiver confusa, continuamos procurando juntos.

Lívia apertou o brinquedo aberto.

— Não fica bravo comigo porque eu estraguei o Coelhinho?

— Ele pode ser costurado.

— E eu?

— Você não está estragada.

Beatriz desviou o rosto para esconder as lágrimas. Dante beijou a testa da filha e pediu que ninguém voltasse a interrogá-la naquela noite. O depoimento formal seria feito por uma profissional, num ambiente adequado.

No corredor, ele encontrou a filmagem da lavanderia já copiada. O vídeo mostrava Mirela empurrando a menina para dentro, mas não registrava o momento em que a porta se abrira. Às vinte e uma horas e sete minutos, a imagem simplesmente saltava dezenove segundos.

Alguém com acesso ao sistema cortara o trecho.

Isso explicava por que a câmera não era apenas um instrumento de vigilância. Também podia ser usada para fabricar versões convenientes da verdade.

Dante anotou o horário num papel, em vez de confiar só no sistema. Pela primeira vez, tratou a casa que comandava como uma cena onde sua autoridade não bastava para definir o real.

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