"Meu Filho Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 6 — O Morto Que Fez a Ligação
"Seu pai morreu há cinco anos", disse Bruno.
"Eu reconheceria aquela voz depois de cinquenta."
Lia reproduziu a gravação. O grito durava menos de quatro segundos, mas Antônio pronunciava seu nome do modo que só ele usava, alongando a primeira sílaba.
"Conte os sinos", repetiu ela. "Era uma brincadeira nossa. Quando eu me perdia, ele mandava contar os sinos para encontrar a igreja mais próxima."
Dante pediu o mapa das antenas que captaram a chamada. O telefone descartável usara uma torre entre Mooca, Brás e Cambuci.
"Há dezenas de igrejas nessa área", disse Bruno.
"E água", lembrou Lia. "Meu pai disse para não levar Bento para a água."
Dante abriu o mapa industrial. Perto da antiga estação da Mooca havia um reservatório desativado e três galpões pertencentes, anos antes, à Aster Participações.
"Encontramos o lugar."
"Ou encontraram exatamente a pista que queriam que seguíssemos", alertou Bruno.
O telefone tocou novamente. Desta vez, a voz não estava alterada.
"Amelinha?"
Lia perdeu o ar.
"Pai?"
"Escute e não pergunte. Bento está vivo. Eles o levaram ao galpão do reservatório, mas vão transferi-lo quando ouvirem os sinos das dez."
"Onde você está?"
"Perto o bastante para vê-los. Longe demais para tirá-lo sozinho."
Dante tomou o aparelho, mantendo o tom controlado.
"Antônio, quem está com meu filho?"
Houve silêncio.
"A mesma pessoa que tentou me matar e fez minha filha acreditar que a ordem vinha de você."
"Otávio?"
"Não diga nomes numa linha aberta. Procure a porta azul. E não confie no primeiro arquivo que encontrar."
A chamada caiu.
Lia tremia.
"Ele está vivo. Meu pai está vivo e nunca me procurou."
Dante segurou os ombros dela.
"Você poderá exigir respostas quando Bento estiver seguro. Agora precisamos pensar como Antônio pensou."
Bruno dividiu a equipe em dois grupos e notificou apenas uma delegada de confiança. Dante recusou apoio ostensivo: sirenes poderiam antecipar a transferência.
Lia exigiu ir.
"Não."
"Meu pai deu a pista para mim."
"E os sequestradores esperam que você apareça."
"Bento vai chamar por mim. Se ouvir apenas homens armados, pode correr para o lugar errado."
Dante sabia que ela tinha razão. Entregou-lhe um colete leve e estabeleceu uma condição.
"Você fica atrás de Bruno até vermos Bento."
"E você?"
"Vou pela porta azul."
Às nove e quarenta, estacionaram duas ruas antes do reservatório. O bairro industrial estava quase vazio. O som de um trem cobriu a aproximação dos agentes.
Havia duas portas metálicas no galpão. Uma cinza e outra pintada de azul, descascada pelo tempo.
Dante entrou pela azul com Bruno. Lia permaneceu junto à parede externa, acompanhada pela delegada Camila Nogueira.
Dentro, o cheiro de ferrugem se misturava ao de combustível. Caixas vazias formavam corredores improvisados. No centro do galpão, um monitor exibia o auditório do hospital em tempo real.
Alguém planejara o sequestro sabendo onde cada Montenegro estaria.
Um choro baixo veio do andar superior.
"Mamãe?"
Lia ignorou a ordem e correu.
Dante a alcançou na escada quando um homem surgiu atrás de uma pilha de pneus. Bruno o derrubou antes que disparasse. O estampido atingiu o teto.
"Bento!", gritou Lia.
"Estou aqui!"
O menino estava preso numa sala de vidro, sentado no chão com os braços ao redor do dinossauro. Não parecia ferido.
Dante encontrou o painel eletrônico da fechadura. Um cronômetro indicava quinze minutos, ligado a fios que seguiam até tambores de combustível.
"Não toquem na porta", avisou Bruno.
Um homem de cabelos grisalhos apareceu do outro lado da passarela. Magro, com o rosto marcado por uma cicatriz, ele carregava um molho de chaves.
Lia o reconheceu.
"Pai."
Antônio desceu cambaleando. Ela correu até ele, mas parou antes do abraço.
"Você estava vivo."
"Eu tentei chegar até você."
"Durante cinco anos?"
"Eles vigiavam cada pessoa que eu amava. Quando descobri a gravidez, desaparecer foi a única maneira de não entregar vocês."
Dante apontou para o painel.
"Primeiro, meu filho."
Antônio entregou uma chave magnética.
"Não desarma o cronômetro. Abre o quadro atrás do monitor. O fio amarelo é falso. Corte o branco."
Bruno obedeceu. O relógio parou em onze minutos e três segundos.
Dante abriu a sala. Bento se lançou contra ele com tanta força que quase os derrubou.
"Você demorou."
"Eu sei."
"Eu contei até cem três vezes."
"Nunca mais vai precisar contar esperando por mim."
Lia abraçou os dois. Antônio os observou com lágrimas silenciosas, mas não tentou participar do abraço.
Camila entrou com policiais. Encontraram dois sequestradores desacordados, equipamentos de transmissão e caixas de documentos.
"Como você chegou aqui?", perguntou Dante a Antônio.
"Há três anos, vivo sob o nome de Artur Sales, com proteção informal de uma equipe da Polícia Federal. Eu entregava informações sobre a Aster. Ontem, meu contato desapareceu. Vim verificar o galpão e fui capturado."
"Por que a proteção era informal?"
"Porque alguém vazava tudo o que entrava no sistema. Eu não sabia até onde Otávio alcançava."
Lia finalmente abraçou o pai. Bateu no peito dele antes de se render ao choro.
"Você deixou que eu enterrasse uma caixa vazia."
"Se eu tivesse aparecido, enterrariam você de verdade."
O reencontro foi interrompido por Camila.
"Dante, precisa ver isto."
Numa mesa do escritório havia contratos, ordens de execução e registros de pagamento. Todos traziam a assinatura digital de Dante Montenegro.
Uma planilha relacionava empresas de fachada, remessas clandestinas e mortes ocorridas durante os últimos sete anos. O nome de Antônio aparecia ao lado da palavra concluído.
"São falsos", disse Lia.
Camila manteve o rosto sério.
"Eu acredito que parte seja. Mas os peritos terão de decidir."
Bruno encontrou um vídeo armazenado num notebook. A gravação mostrava Dante entrando naquele galpão dois anos antes, acompanhado de homens armados.
"Nunca estive aqui", afirmou ele.
Antônio aproximou o rosto da tela.
"A imagem foi montada. Mas fizeram bem."
Sirenas cercaram o quarteirão. Não eram da equipe de Camila.
O telefone da delegada vibrou. Ela leu a ordem e olhou para Dante.
"A corregedoria recebeu denúncia anônima de que você comandou o sequestro para eliminar provas. Há um mandado de busca contra a mansão e a sede do grupo."
Dante entregou Bento a Lia.
"Quem assinou?"
"Um juiz plantonista. O pedido foi instruído com estes mesmos arquivos antes de chegarmos."
Otávio não esperara o resgate terminar. Preparara uma história em que Dante encontraria o filho e perderia a liberdade no mesmo lugar.
Antônio retirou do forro do casaco um pequeno cartão de memória e tentou entregá-lo a Camila. Um disparo vindo do lado de fora quebrou a janela antes que ela o alcançasse.
Bruno derrubou todos atrás das caixas. O cartão escapou dos dedos de Antônio e caiu por uma grade no piso, desaparecendo no canal de drenagem.
"O que havia nele?", perguntou Dante.
"A lista original das empresas usadas por Otávio. Era a única cópia que eu carregava."
"Você disse que entregaria outras cópias."
"Estão divididas. Cada arquivo precisa de uma chave diferente. Se eu for levado, procure a última conta aberta antes do incêndio."
"Em qual banco?"
Antônio olhou para Bento e se recusou a responder diante dos agentes que se aproximavam.
"O nome da conta não importa. A data importa. Otávio escolheu uma data que ainda não significava nada para ele. Hoje significa tudo para vocês."
Lia quis insistir, mas Camila sinalizou silêncio. Havia policiais demais entrando, e nenhum deles pertencia à equipe que conhecia a investigação.
Camila abriu a porta lateral.
"Se sair agora, parecerá fuga. Se ficar, eles podem prendê-lo."
Dante olhou para Bento, que ainda estendia os braços em sua direção.
Então ergueu as mãos vazias quando os agentes invadiram o galpão.
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