"Meu Filho Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 4 — Noventa e Nove Vírgula Noventa e Nove
"Ela não receberá resultado algum", disse Lia.
Dante ampliou a mensagem de Bruno.
"Valentina não deveria saber que o exame foi considerado."
"Talvez a diretora do hospital tenha contado. Talvez seu tio. Talvez todos trabalhem para a mesma pessoa."
"Por isso faremos o teste fora do hospital."
Lia ficou diante dele.
"Eu já disse a verdade."
"O teste não é para decidir se acredito em você. É para impedir que alguém diga amanhã que Bento é uma fraude."
Ela olhou para o filho, que montava uma torre de biscoitos com Teresa.
Dante continuou:
"A fotografia dele já circula. Se eu o reconhecer sem um documento, Valentina e o conselho atacarão você primeiro."
"E se eu recusar?"
"Continuarei sabendo que é meu. Mas não poderei protegê-lo legalmente como pai."
Lia odiava o poder do sobrenome Montenegro. Naquela noite, porém, o mesmo poder podia criar uma barreira entre Bento e quem tentara levá-lo.
"Sem hospital da família. Sem laboratório indicado por Otávio."
"Você escolhe o laboratório e acompanha as amostras."
Na manhã seguinte, uma biomédica de um laboratório independente foi ao apartamento. Lia conferiu lacres, documentos e números de protocolo. Dante permitiu cada verificação sem reclamar.
Bento abriu a boca para o cotonete e depois observou o procedimento no pai.
"Vai dizer se temos o mesmo olho?"
"Vai dizer coisas mais complicadas", respondeu Lia.
"Adultos complicam tudo."
"Nisso ele também é Montenegro", murmurou Teresa.
O resultado urgente levaria seis horas. Durante a espera, Bruno investigou o código dos documentos antigos. A autenticação pertencia a uma plataforma contratada pelo Grupo Montenegro exatamente no mês do desaparecimento de Lia.
O registro de auditoria mostrava que uma conta administrativa consultara os dois arquivos naquela manhã. O acesso partira do andar ocupado exclusivamente pela diretoria financeira e pelo jurídico.
"Quem autorizou o contrato?", perguntou Dante.
"Otávio assinou como diretor financeiro", respondeu Bruno. "Valentina revisou como advogada externa."
Lia fechou os olhos.
"Os dois."
"É uma ligação, não uma confissão", disse Dante.
"Você ainda está protegendo seu tio?"
"Estou construindo uma prova que ele não consiga destruir."
Bruno colocou sobre a mesa outro relatório. A clínica citada no falso laudo de aborto recebera pagamentos mensais de uma empresa chamada Aster Participações.
"Aster pertence a quem?"
"Oficialmente, a três sócios que não existem. O endereço fiscal é o mesmo de um imóvel administrado por Otávio."
Bruno exibiu uma nota de R$ 48 mil emitida na semana do falso aborto. A descrição dizia consultoria médica, mas o pagamento fora aprovado pelo usuário pessoal de Valentina.
Lia segurou a borda da mesa.
Durante anos, pensara ter protegido o filho do homem errado. A constatação não apagava o passado de Dante, mas destruía a certeza sobre a qual ela construíra todas as escolhas.
"Meu pai descobriu essa empresa", lembrou. "A palavra Aster estava anotada numa agenda dele."
"Você ainda tem a agenda?"
"Não. Desapareceu do apartamento depois do incêndio."
Teresa aproximou-se devagar.
"Lia, você enviou uma carta para a mansão?"
"Enviei. Sem remetente."
"Eu me lembro de um envelope azul. Otávio pegou a correspondência naquele dia porque Dante estava fora. Depois disse que era propaganda."
Dante fitou a governanta.
"Por que nunca contou?"
"Porque não sabia que era dela. Só reconheci agora a pequena chave que Lia usa no pescoço. O mesmo desenho estava no lacre."
Lia tocou o pingente.
"Meu pai me deu esta chave."
"A carta pode ter sido guardada", disse Teresa. "Otávio não joga fora aquilo que pode usar contra alguém."
Bento entrou correndo, com um guardanapo amarrado como capa.
"Eu sou o Super-Bento. Salvo mães e pais teimosos."
Dante o segurou antes que escorregasse no tapete. O menino riu e pediu que ele o levantasse de novo.
Na terceira vez, Lia percebeu que Dante sorria.
Não era o sorriso frio das revistas de negócios. Era o mesmo sorriso desarmado da fotografia de Atibaia, preservado em algum lugar que ela julgara morto.
"Chega", disse, embora sem dureza. "Você acabou de comer."
Bento permaneceu nos braços do pai.
"Posso conhecer sua casa?"
Dante olhou para Lia antes de responder.
"Se sua mãe permitir."
Ela notou o esforço. O antigo Dante teria anunciado uma decisão. Aquele esperava.
"O apartamento não é seguro depois da tentativa no hospital", disse Bruno. "A mansão tem perímetro próprio e equipe que posso selecionar pessoalmente."
"Sem homens armados perto de Bento", exigiu Lia.
"Armas ficam no posto externo", concordou Dante.
"E nós dormimos em quartos separados."
Uma sombra de ironia passou pelo rosto dele.
"Eu não sugeri o contrário."
"Seu olhar sugeriu."
"Meu olhar não assina contratos."
Foi Bento quem encerrou o impasse.
"Se tiver biscoito, eu voto na casa."
A mansão Montenegro ficava no Jardim Europa, atrás de muros altos e árvores antigas. Lia não entrava ali desde a noite em que recebera a notícia sobre o pai.
Cada corredor despertava uma lembrança. O piano em que Dante tocava quando não conseguia dormir. A janela pela qual ela vira Otávio chegar com a pasta. A escada onde Valentina a abraçara e dissera que sentia muito.
Valentina já sabia.
Talvez tivesse sabido de tudo.
Bento correu até uma fotografia de Dante criança sobre o aparador.
"Sou eu!"
"É seu pai", corrigiu Teresa.
O menino comparou a imagem ao próprio rosto e pareceu satisfeito.
O resultado chegou às quatro e vinte da tarde. Lia, Dante, Bruno e a biomédica se reuniram no escritório. Teresa ficou com Bento no jardim.
A profissional abriu o envelope lacrado e leu com objetividade:
"A probabilidade de paternidade é superior a noventa e nove vírgula noventa e nove por cento. O senhor Dante Montenegro é o pai biológico de Bento Sampaio."
Dante não falou.
Sentou-se, apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu a boca com uma das mãos. Lia esperara raiva, cobrança ou triunfo. Viu apenas um homem tentando compreender tudo o que perdera.
"Quatro aniversários", ele disse. "Quatro Natais. O primeiro passo. A primeira palavra."
Lia sentiu os olhos arderem.
"A primeira palavra foi mamãe. A segunda foi bola."
"E a terceira?"
"Não."
Dante soltou uma breve risada, e ela chorou antes de conseguir impedir.
Ele se aproximou, mas parou a um passo.
"Posso?"
Lia assentiu. Dante a abraçou sem apertar, como se ambos fossem feitos de algo que ainda podia quebrar.
A porta do escritório se abriu com força.
Valentina entrou usando um vestido branco, seguida por Otávio e dois assessores. No pulso, havia uma faixa de seda cobrindo exatamente o lugar do bracelete.
"Que cena comovente", disse ela.
Dante se colocou diante de Lia.
"Quem autorizou sua entrada?"
"Ainda tenho acesso à casa onde vou morar depois do casamento."
Lia se afastou do abraço.
"Casamento?"
Valentina tirou um envelope da bolsa e o lançou sobre a mesa. Dentro havia convites impressos com o brasão Montenegro e uma data marcada para dali a seis semanas.
"O anúncio será publicado amanhã", declarou. "Dante e eu vamos nos casar."
Dante rasgou um dos convites ao meio.
"Não existe casamento."
Otávio apoiou as duas mãos na bengala.
"Existe um acordo aprovado pelo conselho. Se você o romper agora, perde o comando do grupo."
Valentina olhou além de Dante e viu o resultado do DNA.
Seu sorriso desapareceu apenas por um segundo.
Depois, aproximou-se de Lia e baixou a voz.
"Você deveria ter continuado escondida. Da primeira vez, recebeu um aviso. Desta vez, trouxe seu filho para dentro da guerra."
Lia fitou a faixa de seda no pulso dela.
Uma pequena mancha vermelha atravessava o tecido, exatamente onde o fecho do bracelete se rompera.
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