"Meu Filho Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 3 — O Bracelete Vermelho
Dante fotografou os dois documentos e enviou as imagens a Bruno.
"Descubra quem gerou esse código. Não use a rede do Grupo Montenegro."
"Você acha que alguém dentro da empresa está monitorando?", perguntou Bruno.
"Alguém dentro da empresa fabricou duas mentiras diferentes e esperou cinco anos para saber se ainda acreditávamos nelas."
Lia segurou Bento pela mão.
"Nós vamos sair."
"Você ouviu o que ele disse", respondeu Dante.
"Ouvi. E não vou ficar trancada num hospital controlado por pessoas ligadas à sua família."
"O Santa Cecília não pertence aos Montenegro."
"Mas a diretora veio pessoalmente quando você chegou. Seu nome abre todas as portas, inclusive as que deveriam permanecer fechadas."
Bento acompanhava a discussão com os olhos. Dante conteve a resposta que daria a qualquer outra pessoa.
"Há uma saída de serviço. Bruno levará vocês a um apartamento seguro."
"Meu apartamento é seguro."
"Seu endereço pode ser encontrado pelo prontuário dele."
Lia percebeu que ele tinha razão e odiou isso.
A porta se abriu antes que pudessem decidir. Uma mulher de uniforme azul entrou empurrando uma cadeira de rodas infantil. Usava máscara cirúrgica, crachá do hospital e um bracelete vermelho com uma pedra oval.
"A doutora pediu uma radiografia do joelho", explicou.
Lia franziu a testa.
"Ela disse que era apenas um arranhão."
"Mudou de ideia depois de avaliar as imagens."
A mulher sorriu para Bento.
"Vamos passear, campeão?"
O menino se escondeu atrás da mãe.
Dante observou o crachá. O nome dizia Renata Lima, mas a fotografia mostrava uma mulher com sobrancelhas mais finas.
"Qual foi o lado examinado?", perguntou.
"O joelho direito."
O arranhão estava no esquerdo.
Dante fechou a porta com o pé.
"Bruno."
A falsa funcionária abandonou a cadeira e correu. Tirou um spray do bolso, mas Dante segurou seu pulso antes que ela apontasse. Bruno entrou no mesmo instante e a imobilizou contra a parede.
Bento gritou. Lia o cobriu com o corpo.
"Tirem essa mulher daqui!"
O spray caiu no chão. Dante o chutou para longe.
"Quem mandou você?"
A mulher não respondeu. Mordeu a própria língua, tentando provocar sangue, e começou a gemer como se tivesse sido atacada.
"Câmeras", alertou Bruno.
"Eu não toquei nela além do necessário. Chame a segurança do hospital e a polícia."
Quando um agente se aproximou, a mulher mostrou um segundo crachá e gritou que fora confundida. O corredor encheu-se depressa. No tumulto, uma porta corta-fogo se abriu.
As luzes se apagaram.
Antes da escuridão completa, Lia percebeu que a mulher não procurava uma saída. Ela olhava diretamente para Bento, como alguém que conhecia o rosto dele e recebera ordens precisas para levá-lo vivo.
Dante ouviu Lia chamar pelo filho.
"Bento!"
Uma sombra pequena passou entre duas macas. Dante avançou no escuro e encontrou uma mão puxando o menino pelo braço.
Ele atingiu o desconhecido no ombro, soltou Bento e o ergueu. O invasor fugiu pela escada antes que Bruno alcançasse a porta.
As luzes de emergência acenderam.
Bento estava agarrado ao pescoço de Dante, chorando sem som.
"Olhe para mim", pediu Dante. "Você se machucou?"
O menino balançou a cabeça.
Lia chegou e tocou o rosto do filho, os braços, o peito. Quando confirmou que ele estava inteiro, encostou a testa na de Dante por um segundo involuntário.
"Obrigada."
Era a primeira palavra sem veneno que ela lhe dirigia.
A falsa funcionária havia desaparecido durante o apagão. No lugar onde Bruno a mantivera, restava apenas o bracelete vermelho, rompido perto do fecho.
Bruno encontrou um fio transparente preso ao quadro de energia. O apagão fora preparado durante a madrugada, horas antes de Bento encontrar Dante na rua.
Bento apontou para a joia.
"Eu já vi isso."
Lia enxugou as lágrimas dele.
"Onde?"
"Na mulher da escola."
"Que mulher?"
"Ela ficava dentro do carro branco. Perguntou se meu pai sabia que eu existia."
Lia empalideceu.
"Quando aconteceu?"
"Antes de a vovó ficar doente."
"Por que não me contou?"
"Ela disse que era surpresa."
Dante pegou o bracelete com um lenço. A peça parecia cara, feita sob encomenda. A pedra vermelha tinha um pequeno V gravado na lateral.
Bruno voltou da escada.
"O homem escapou por uma ambulância. A placa foi coberta."
"E a mulher?"
"Misturou-se à equipe durante o apagão. A credencial usada pertence a uma enfermeira de licença."
"Alguém preparou isso antes de sabermos que Bento viria ao hospital", disse Lia.
"Ou sabia qual seria minha escolha", respondeu Dante.
Ela o encarou.
"Seu tio?"
"Ainda não tenho prova."
"Você precisava de prova para condenar a mim?"
Dante aceitou o golpe sem reagir.
"Não vou cometer o mesmo erro duas vezes."
O delegado de plantão chegou, mas Dante não confiava que o caso permaneceria sigiloso. Entregou o spray, o crachá e cópias das câmeras, guardando o bracelete para análise independente.
Depois levou Lia e Bento para um apartamento seguro em Vila Mariana, registrado em nome de Teresa Montenegro. Era simples para os padrões da família e não constava nos relatórios empresariais.
Teresa abriu a porta ainda de robe. Ao ver Lia, levou a mão à boca.
"Meu Deus. Você está viva."
Lia permaneceu rígida.
"Eu nunca estive morta."
"Para ele, esteve."
Teresa olhou para Bento e começou a chorar. Não perguntou quem era. Os olhos da criança respondiam.
"Posso abraçar você?"
Bento analisou a senhora.
"Tem biscoito?"
"Tenho uma lata inteira."
"Então pode."
Teresa se ajoelhou e o recebeu com cuidado. Dante desviou o rosto, incomodado pela facilidade com que a criança ocupava espaços vazios havia anos.
Enquanto Bento comia na cozinha, Lia falou com a mãe por videochamada. Dona Celina estava internada para uma cirurgia cardíaca e acreditava que a filha passaria a noite trabalhando.
"Você voltou por causa dela", concluiu Dante.
"O plano era ficar dez dias."
"E depois fugir novamente."
"Voltar para a vida que construí."
"Uma vida em que meu filho não sabia meu nome?"
"Ele sabia mais do que deveria. Encontrou a fotografia há três semanas. Começou a perguntar por você, mas eu ainda não sabia como explicar."
"Podia começar pela verdade."
"Qual delas? A minha ou a que seu tio imprimiu?"
Teresa entrou carregando uma bandeja e interrompeu a resposta.
"Dante, Bruno mandou isto."
Era uma fotografia ampliada do bracelete. Teresa reconheceu a peça imediatamente.
"Foi presente seu."
Dante pegou o papel.
"Para quem?"
"Valentina. No aniversário de trinta anos. Ela perdeu a mãe naquele mês e você pediu que eu escolhesse algo com a inicial dela."
Lia cruzou os braços.
"Valentina Azevedo?"
"Ela assumiu a diretoria jurídica depois que você partiu", explicou Teresa. "E passou a acompanhar Otávio em tudo."
Dante ligou para Bruno.
"Onde está Valentina?"
"Na sede. Participou de uma reunião por vídeo há quinze minutos."
"Verifique se o bracelete está com ela. Sem alertá-la."
Bento apareceu no corredor com migalhas na camisa.
"É a mulher vermelha."
"Você viu o rosto dela na escola?", perguntou Dante.
"Não. Ela usava óculos grandes. Mas a voz parecia música de dormir."
Teresa deixou cair uma colher.
"Valentina cantava para você assim", disse, olhando para Dante. "Na casa de Atibaia, antes de Lia desaparecer."
O telefone vibrou. Bruno enviara uma imagem tirada naquele instante na sede do grupo.
Valentina estava diante da mesa de reuniões, sorrindo para os conselheiros. No pulso direito, não havia joia alguma.
Mas sobre a mesa, ao lado de sua pasta, estava uma caixa vazia com o símbolo da joalheria que fizera o bracelete.
E Valentina acabara de solicitar acesso ao exame de DNA de Bento.
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