"Meu Filho Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 2 — A Mulher Que Fugiu Grávida
Lia não respondeu.
O silêncio dentro do carro foi tão absoluto que o ruído dos fotógrafos contra os vidros pareceu vir de outra cidade. Bento olhou de Dante para a mãe, sem entender por que uma pergunta tão simples assustava dois adultos.
"Mamãe, ele perguntou se eu sou filho dele."
Lia recolheu a pulseira da maternidade e a fechou na mão.
"Eu ouvi, meu amor."
"Então responde."
Dante manteve a voz baixa.
"Não pressione sua mãe."
Lia soltou uma risada sem humor.
"Agora você se preocupa em não me pressionar?"
Bruno entrou no banco da frente e pediu ao motorista que seguisse. Do lado de fora, celulares acompanhavam o carro. Em menos de uma hora, o rosto de Bento poderia estar em todas as redes sociais.
"Leve-nos à farmácia", disse Lia.
"A farmácia está cercada", respondeu Bruno. "Há uma saída de serviço no Hospital Santa Cecília. Posso chamar uma médica para examinar o menino e retirar vocês pela garagem."
"Ele não precisa de hospital."
"Ficou sozinho numa rua movimentada", disse Dante. "Será examinado."
"Você não dá ordens sobre meu filho."
"Se existe a possibilidade de ser meu também, começo a dar agora."
Bento apertou o cinto contra o peito.
"Eu não quero exame com agulha."
Lia imediatamente suavizou o rosto.
"Ninguém vai usar agulha sem eu deixar."
Dante percebeu o olhar que ela lhe lançou. Era um aviso, não um pedido.
No hospital, entraram por uma rampa reservada. A diretora os recebeu pessoalmente, mas Dante exigiu discrição e uma sala sem identificação na porta.
A pediatra examinou Bento, limpou um arranhão em seu joelho e confirmou que ele estava bem. O menino aceitou um suco e adormeceu poucos minutos depois, exausto, num sofá estreito.
Lia cobriu o filho com o próprio casaco.
"Agora você vai embora", disse ela.
Dante fechou a porta.
"Agora você responde."
"Não levante a voz."
"Estou falando baixo há cinco anos."
Ela se endireitou.
"Sim. Bento é seu filho. Biologicamente. Isso não transforma você no pai dele."
A confirmação não trouxe triunfo. Dante sentiu primeiro uma dor funda, seguida por uma raiva que precisava manter longe da criança adormecida.
"Você roubou quatro anos da vida dele."
"Eu mantive Bento vivo."
"Longe de mim?"
"Longe dos homens que queimaram o carro do meu pai."
Dante caminhou até a janela, mas as persianas estavam fechadas. A sala parecia pequena demais para o passado que entrava nela.
"Antônio investigava desvios no Grupo Montenegro. Eu sabia disso. Pedi que entregasse os documentos a mim."
"E quando ele não entregou, seu motorista o seguiu até Campinas."
"Meu motorista estava comigo no Rio naquela noite."
"Eu vi a ordem assinada por você."
"Onde?"
"Na pasta que seu tio levou ao apartamento do meu pai."
Dante virou devagar.
"Otávio esteve lá?"
"Ele me encontrou diante da porta arrombada. Disse que tinha tentado impedir você. Mostrou a ordem e uma fotografia do carro antes do incêndio."
"Meu tio disse que você já tinha saído do país."
"Eu fui para Curitiba naquela madrugada. De lá, segui para o interior do Paraná. Troquei de telefone, abandonei meu emprego e passei a usar apenas o sobrenome da minha mãe."
"Grávida."
Lia olhou para Bento.
"Descobri dois dias depois."
Dante fechou os olhos por um instante. Imaginou-a sozinha num consultório, ouvindo o coração do filho que ele nem sabia existir.
"Por que não me contou?"
"Eu tentei."
"Não recebeu uma única ligação sua."
"Enviei mensagens, e-mails e uma carta. Tudo voltou ou desapareceu. Então um homem me encontrou em Londrina."
"Que homem?"
"Não deu nome. Colocou sobre a mesa uma fotografia minha saindo da clínica e disse que, se eu insistisse, a próxima foto seria do meu enterro."
Dante sentiu a mandíbula endurecer.
"Como ele era?"
"Alto. Cabelo raspado. Uma tatuagem de serpente no punho."
Bruno, do lado de fora, ouviria tudo pelo ponto se Dante o chamasse. Ele conhecia os homens das antigas equipes e poderia identificar aquela marca.
"Você deveria ter confiado em mim."
"Confiar em quem? No homem que resolvia problemas fazendo pessoas desaparecerem?"
A acusação acertou porque continha uma parte da verdade. Dante construíra poder com medo, favores e violência. Podia jurar que nunca tocaria nela, mas não podia fingir que Lia não tivera motivos para acreditar nas provas.
"Eu nunca machucaria você."
"Talvez não com suas mãos."
Bento se mexeu no sofá. Os dois se calaram até a respiração dele voltar a ficar regular.
Dante tirou o telefone do bolso e abriu um arquivo protegido. Encontrou a pasta que não acessava havia anos.
"Veja."
Lia não pegou o aparelho.
"O que é isso?"
"O laudo da clínica de Curitiba. Seu nome, seu CPF antigo e a confirmação de uma interrupção espontânea da gestação."
Ela tomou o telefone.
O rosto perdeu a cor enquanto lia.
"Eu nunca estive nessa clínica."
"O documento chegou três semanas depois de você partir."
"É falso."
"Hoje eu sei que é. Na época, havia carimbo, assinatura digital e um médico registrado."
Lia ampliou a imagem.
"A data está errada. Nesse dia, eu estava em Londrina. Tenho o primeiro ultrassom de Bento."
"Há mais."
Dante abriu o comprovante de uma transferência de dois milhões de reais para uma conta em nome de Amélia Sampaio. O pagamento saíra de uma empresa ligada à família.
"Disseram que você exigiu dinheiro para desaparecer."
"Eu nunca tive essa conta."
"A assinatura eletrônica foi validada."
"Então foi validada por alguém que me roubou."
"Otávio me entregou os documentos."
Lia levantou os olhos.
Pela primeira vez desde o reencontro, a raiva entre eles abriu espaço para a mesma suspeita.
"O seu tio levou a ordem que supostamente provava que você mandou seguir meu pai", disse ela.
"E me entregou as provas de que você vendeu nosso filho antes de ele nascer."
Bento acordou com um pequeno gemido.
"Vocês estão brigando por minha causa?"
Lia se ajoelhou diante dele.
"Nunca por sua causa. Os adultos erraram antes de você nascer."
"Meu pai errou?"
Ela hesitou.
Dante não.
"Errei muitas vezes. Uma delas foi acreditar em papéis sem procurar sua mãe com meus próprios olhos."
Bento considerou a resposta.
"Você pode pedir desculpa. Na escola funciona às vezes."
"Vou precisar pedir mais de uma vez."
O menino estendeu a mão para Dante, que se aproximou. Lia não impediu, embora cada músculo do corpo dela demonstrasse vontade de fazê-lo.
"Você mora num castelo?", perguntou Bento.
"Numa casa."
"Tem dinossauro?"
"Não."
"Biscoito?"
"Vou verificar."
O menino sorriu e segurou seu dedo. Dante ficou imóvel diante da confiança que não merecera conquistar.
Uma batida interrompeu o momento. Bruno entrou com o rosto tenso.
"A fotografia já foi publicada. Ainda não identificaram Lia, mas deram zoom no menino."
Dante se levantou.
"Retirem as imagens."
"Estamos tentando. Há outro problema. Alguém consultou o prontuário de Bento há vinte minutos."
Lia abraçou o filho.
"Quem?"
"Uma credencial interna. Foi usada antes mesmo de chegarmos."
Dante olhou para a porta e depois para a câmera no canto do corredor.
Se alguém acessara o prontuário antes da entrada oficial, significava que sabia quem Bento era e para onde seria levado.
"Ninguém sai desta sala", ordenou.
Lia apertou Bento contra o peito.
"Você trouxe o perigo até ele."
"Não", respondeu Dante, examinando o comprovante falso ainda aberto no telefone. "O perigo já sabia que ele existia."
Então colocou os dois documentos lado a lado: a ordem mostrada a Lia e o laudo enviado a ele.
No rodapé de ambos aparecia o mesmo código de autenticação.
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