"Meu Filho Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 1 — O Menino Que Chamou Dante de Papai
O menino atravessou a Rua Oscar Freire correndo e se lançou contra as pernas do homem mais temido de São Paulo.
"Papai!"
Dante Montenegro parou no meio da calçada. Bruno levou a mão para dentro do paletó, e dois seguranças fecharam o espaço ao redor do chefe antes que os pedestres entendessem o que acontecia.
O pequeno não se assustou. Apertou ainda mais os braços ao redor da perna de Dante, como se tivesse encontrado um porto depois de uma tempestade.
"Eu sabia que você vinha."
Dante baixou os olhos. O menino devia ter quatro anos. Tinha cachos castanhos desordenados, uma camiseta amarela com um dinossauro e um dos tênis desamarrado.
Mas foram os olhos que fizeram o sangue de Dante esfriar.
Cinza com um círculo verde em torno da pupila.
Os olhos Montenegro.
"Afaste a criança", ordenou Bruno.
O menino se escondeu atrás da perna de Dante.
"Não deixa o homem bravo me levar, papai."
Bruno, que já enfrentara homens armados sem piscar, olhou para o chefe sem saber o que fazer. Dante não gostava de crianças. Não sabia conversar com elas e evitava qualquer evento em que pudesse ser obrigado a sorrir para uma.
Ainda assim, não permitiu que Bruno tocasse no menino.
"Onde está sua mãe?", perguntou Dante.
"Ela estava escolhendo remédio para a vovó. Eu só fui ver a foto. Depois a rua mudou de lugar."
"Ruas não mudam de lugar."
"Essa mudou."
O menino falou com tanta certeza que Dante quase discutiu. Em vez disso, agachou-se.
"Qual é o seu nome?"
"Bento Sampaio. Mas quando você falar com a mamãe, talvez eu vire Bento Montenegro."
O ruído da cidade pareceu desaparecer.
Dante segurou o queixo do garoto com delicadeza, procurando uma brincadeira, uma câmera ou o sinal de alguma armadilha. Viu apenas uma covinha central que conhecia desde o próprio reflexo de infância.
"Quem ensinou meu sobrenome a você?"
Bento enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou uma fotografia dobrada quatro vezes. O papel estava gasto nas bordas, como se tivesse sido aberto escondido muitas vezes.
Dante reconheceu primeiro o terraço da antiga casa de Atibaia. Depois reconheceu a própria camisa branca, o relógio que perdera naquela noite e a mão feminina apoiada em seu peito.
Lia.
Na fotografia, ela ria com o rosto voltado para ele. Dante não via aquele sorriso havia cinco anos, mas o corpo o reconheceu antes da memória. A cicatriz sob suas costelas ardeu como se a separação tivesse acontecido na véspera.
"Onde conseguiu isto?"
"Na caixa que a mamãe não abre."
"Ela sabe que você pegou?"
Bento abaixou a cabeça.
"Se soubesse, eu estaria de castigo."
Dante virou a fotografia. No verso, Lia escrevera: Para quando nossa coragem acabar.
Um carro buzinou. Bento estremeceu e cobriu os ouvidos. Dante o puxou instintivamente para perto antes que uma bicicleta passasse rente à calçada.
O menino encostou o rosto em seu ombro.
"Você cheira igual à foto."
"Fotografias não têm cheiro."
"A caixa tem."
Dante olhou para Bruno.
"Feche a rua. Encontre a mãe dele. Agora."
"Dante, podemos estar diante de uma abordagem planejada."
"Então descubra quem planejou. Até lá, ninguém encosta nele."
Bruno transmitiu ordens pelo ponto eletrônico. Os seguranças se espalharam, enquanto curiosos erguiam celulares. Dante percebeu que Bento tremia apesar do calor.
"Está com medo?"
"A mamãe diz que coragem é fazer a coisa mesmo tremendo."
A frase acertou Dante com a intimidade de uma voz antiga. Lia dizia aquilo quando ainda acreditava que ele poderia ser mais do que o sobrenome que carregava.
Bento apontou para o carro preto estacionado junto ao meio-fio.
"Esse carro é seu?"
"É."
"Tem biscoito?"
"Não. Então você não estava preparado para ser pai."
O telefone do segurança vibrou.
"Encontraram uma mulher correndo na direção daqui. Ela mostrou uma foto do menino a um policial."
Dante se levantou com Bento nos braços. Não decidira pegá-lo. Simplesmente aconteceu quando o menino estendeu as mãos.
O peso pequeno contra seu peito parecia absurdo e, ao mesmo tempo, familiar. Bento tocou a cicatriz fina junto à sobrancelha de Dante.
"Eu também tenho uma. Caí da cama procurando um monstro."
Passos apressados ecoaram na calçada. Uma mulher surgiu entre os seguranças, empurrando um deles com uma força nascida do pânico.
"Bento!"
O menino se iluminou.
"Mamãe, achei o papai!"
Amélia Sampaio parou.
Cinco anos não foram suficientes para ensinar Dante a respirar diante dela.
Lia estava mais magra. Os cachos castanhos agora chegavam aos ombros, e o vestido simples deixava à mostra uma corrente com uma pequena chave. Seus olhos mel continuavam capazes de desmontar todas as defesas dele.
Mas o rosto que antes se abria ao vê-lo perdeu a cor.
"Coloque meu filho no chão."
Dante sentiu a palavra antes de compreendê-la.
Meu filho.
Não nosso filho.
"Você desapareceu", disse ele.
"E você não tinha o direito de me procurar."
"Durante cinco anos, acreditei que estivesse na Europa."
"Foi melhor assim."
Bento passou os braços pelo pescoço de Dante, confundido pela dureza da mãe.
"Não briga com ele. Ele me achou."
"Eu achei você, meu amor. Agora venha."
Lia estendeu os braços, mas dois homens de Dante avançaram quando ela se aproximou rápido demais. Bento choramingou.
"Mande-os sair da frente", exigiu ela.
"Abaixem as mãos", ordenou Dante.
Os seguranças obedeceram. Lia tomou Bento dos braços dele e examinou o filho da cabeça aos pés. Só depois de confirmar que não havia ferimentos olhou para Dante novamente.
"Ele se afastou por menos de quatro minutos. Se alguém da sua família armou isto..."
"Minha família não sabia que você estava viva em São Paulo. Eu também não."
"Não use essa palavra perto dele."
"Qual palavra? Viva?"
"Família."
Dante conteve a raiva. Havia câmeras apontadas para eles e um menino entre os dois. Mas a imagem de Lia recebendo dois milhões de reais voltou com a precisão de uma lâmina.
"Foi você quem decidiu quanto valia nossa família."
Lia recuou como se ele a tivesse atingido.
"Você ainda consegue dizer isso olhando para mim?"
"Consigo dizer olhando para os comprovantes."
"Que comprovantes?"
A pergunta pareceu genuína. Dante procurou mentira no movimento dos olhos dela e não encontrou.
Bento remexeu-se no colo da mãe.
"Mamãe, posso mostrar a foto?"
Lia viu o papel na mão de Dante. O pânico substituiu a raiva.
"Você mexeu na caixa azul?"
"Eu só queria saber se ele tinha o mesmo olho."
"Nós vamos embora."
Ela girou, mas Dante segurou seu pulso. Não apertou. Mesmo assim, Lia ficou imóvel.
"Solte."
"Primeiro, responda uma pergunta."
"Você perdeu o direito de fazer perguntas quando mandou aqueles homens atrás do meu pai."
Dante soltou o pulso dela.
Antônio Sampaio morrera num carro incendiado na Rodovia dos Bandeirantes uma semana depois do desaparecimento da filha. Dante soubera do acidente pelos jornais e enviara homens para procurar Lia. Nunca os mandara atrás de Antônio.
"Eu não matei seu pai."
Lia cobriu o ouvido de Bento com a mão livre.
"Não diga isso aqui."
"Então diga onde."
"Não existe lugar em que eu queira ouvir sua versão."
Uma motocicleta parou adiante. O piloto manteve o capacete fechado e ergueu o celular na direção deles. Bruno percebeu e se colocou entre a câmera e Bento.
"Precisamos sair", avisou. "A imagem já está circulando."
Dante encarou Lia. Ela podia fugir dele, mas não de uma cidade inteira perguntando quem era o menino que chamara Dante Montenegro de pai.
"Meu carro leva vocês."
"Não."
"Há fotógrafos chegando pelas duas esquinas. Você quer explicar isto com Bento no colo?"
Lia olhou ao redor e entendeu a armadilha que não fora criada por Dante, mas pelo nome dele. Abraçou o filho com mais força.
"Até a farmácia. Depois desaparecemos da sua vida."
"Você já fez isso uma vez."
"E farei de novo se for necessário para protegê-lo."
Dante abriu a porta traseira do carro. Lia entrou com Bento, sem lhe agradecer. Quando ele se sentou do outro lado, o menino ficou entre os dois e segurou uma mão de cada um.
O gesto era tão simples que doeu.
Bento comparou os dedos deles e sorriu.
"Eu sabia."
"Sabia o quê?", perguntou Lia, com a voz quebrada.
"Que ele era o homem da foto."
Dante fitou o perfil do menino. A curva da orelha, a covinha, os olhos. Depois fez a conta que evitava desde a primeira vez que ouvira o nome.
Quatro anos.
Lia partira havia cinco, poucas semanas depois da última noite em Atibaia.
"Quantos anos ele tem exatamente?"
"Isso não importa."
"Importa para mim."
"Dante, não faça isso na frente dele."
Bento soltou as mãos dos dois e tirou da mochila uma pulseira da maternidade, guardada junto de seus tesouros. Lia tentou pegá-la, mas Dante já tinha lido a data.
O mundo se reduziu aos números impressos no plástico amarelado.
Dante levantou os olhos para a mulher que amara e odiara com a mesma intensidade.
"Bento é meu filho?"
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