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"Minha sogra colocou algo na minha bebida durante um jantar em família; troquei de copo com o marido" Capítulo 2 — Não Foi a Sobremesa

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Capítulo 2 — Não Foi a Sobremesa

"Ele tomou algum calmante? Remédio para dormir? Alguma medicação que não conste na ficha?"

A médica fez a pergunta pela terceira vez.

Lúcia respondeu pela terceira vez que não.

Estávamos no pronto-socorro havia quase uma hora. Augusto permanecia em observação, sonolento demais para sustentar uma frase. Helena caminhava entre a porta do box e as cadeiras do corredor. Felipe tentava falar com o plano de saúde. Renata não largava o celular.

Eu mantinha os dois sacos sobre os joelhos.

"Foi intoxicação alimentar", Lúcia repetiu. "Comemos frutos do mar no almoço."

A médica, doutora Marina Leal, olhou para ela sem alterar a voz.

"Intoxicação alimentar não costuma causar esse grau de rebaixamento de consciência sem vômito, dor abdominal ou diarreia. Precisamos considerar exposição a medicamentos."

"Meu marido não usa nada disso."

"Então precisamos descobrir o que ele ingeriu."

Lúcia virou-se para mim.

"Dê essas taças para mim. Vou pedir que alguém da casa lave tudo antes que manche."

Eu me levantei.

"A doutora pode ficar com elas."

O rosto dela endureceu.

"São minhas."

"Uma delas pode explicar por que seu marido desmaiou."

Helena parou de andar.

"Caio, o que você quer dizer?"

Eu gostaria de ter contado em casa, quando tivéssemos calma e privacidade. Mas Lúcia já tentava tirar a única prova física das minhas mãos.

"Eu vi sua mãe colocar alguma coisa em uma das taças."

Felipe encerrou a ligação. Renata ergueu os olhos do telefone.

Helena ficou imóvel.

"Você viu o quê?"

"Um líquido transparente. Três gotas. Ela marcou a taça com uma casca de limão e disse que era para mim."

Lúcia soltou uma risada incrédula.

"Isso é absurdo. Era essência de laranja para combinar com a sobremesa."

"Então por que você perguntou a Augusto se ele tinha bebido o meu copo?"

"Eu não disse isso."

"Eu ouvi."

"Você estava assustado. Ouviu o que quis ouvir."

Doutora Marina estendeu a mão.

"Senhor Caio, entregue as taças à equipe. Vamos registrar como foram recebidas."

Lúcia tentou segurá-la pelo braço.

"Não há necessidade de criar um escândalo."

A médica se desvencilhou.

"Há um paciente semiconsciente que pode ter ingerido uma substância desconhecida. Há necessidade médica."

Entreguei os sacos. Uma enfermeira registrou o horário, colocou etiquetas separadas e pediu que eu descrevesse qual taça estava diante de Augusto.

Pela primeira vez desde a cozinha, consegui respirar um pouco melhor.

Helena me puxou para o fim do corredor.

"Por que você não me contou na hora?"

"Porque eu não sabia o que era."

"Mas você colocou o copo na frente do meu pai."

A acusação me atingiu com mais força do que eu esperava.

"Coloquei."

"Se você achava que era perigoso, por quê?"

"Porque achei que sua mãe não colocaria na bebida do próprio marido algo capaz de matá-lo. E porque, se eu jogasse fora ou fizesse uma acusação sem prova, eles diriam exatamente o que estão dizendo agora."

正文1

Helena passou as mãos pelo rosto.

"Você podia ter chamado a polícia. Podia ter filmado."

"Aconteceu em segundos. Eu tomei uma decisão ruim dentro de uma situação que sua mãe criou. Não vou fingir que foi certo. Mas aquela taça era para mim, Helena."

Ela me encarou, dividida entre o medo pelo pai e a impossibilidade do que eu dizia.

"Minha mãe não faria isso."

"Eu também queria acreditar nisso."

Meu celular vibrou. Era um lembrete automático: apresentação do projeto, 9h.

Lúcia viu a tela antes que eu a apagasse.

"Você só pensa nesse filme enquanto Augusto pode estar morrendo?"

"Não use isso agora", Helena pediu.

"Eu estou defendendo seu pai! Seu marido o acusa de tomar uma bebida que ele mesmo colocou na mesa e ainda se preocupa com uma reunião."

A frase me fez olhar para ela com atenção.

"Como você sabe que a reunião é às nove?"

Lúcia hesitou.

"Helena deve ter comentado."

"Eu não comentei", disse minha esposa.

O silêncio que se seguiu foi pequeno, mas mudou a temperatura do corredor.

Doutora Marina voltou antes que Lúcia encontrasse outra explicação.

"O senhor Augusto está estável. Os primeiros exames não indicam evento cardíaco ou neurológico agudo. A triagem toxicológica apontou presença de uma substância sedativa. Precisamos aguardar confirmação."

Felipe se aproximou.

"Sedativo? Qual?"

"Ainda não posso afirmar. Também não encontramos esse tipo de medicamento na lista fornecida pela família."

Augusto abriu os olhos quando nos deixaram entrar de dois em dois. Helena e Lúcia foram primeiro. Eu fiquei do lado de fora, ouvindo apenas fragmentos.

"...não faça isso..."

"Foi um acidente", Lúcia sussurrou.

"Sem polícia."

Quando Helena saiu, estava pálida.

"Meu pai quer ir para casa assim que receber alta. Pediu para não envolvermos ninguém."

"Alguém colocou um sedativo no vinho."

"Eu sei o que a médica disse."

"Então por que ele não quer saber como aquilo foi parar lá?"

Ela não respondeu.

Peguei o celular e escrevi para a produtora responsável pela apresentação. Disse que houvera uma emergência médica na família, anexei o comprovante de entrada no hospital e pedi algumas horas de adiamento. Não dei detalhes.

Quinze minutos depois, recebi a confirmação: apresentaria às quatro da tarde, por chamada de vídeo.

Eu não sabia se estaria em condições. Mas Lúcia não tomaria também aquela oportunidade.

Pouco depois, dois policiais chegaram para registrar a possível administração de substância sem consentimento. A médica havia feito a comunicação por causa do resultado e do meu relato.

Um deles pediu que cada pessoa falasse separadamente.

Contei tudo, inclusive a troca dos copos. Não tentei me fazer parecer melhor. Descrevi o frasco, as gotas, a tira de limão e a frase de Lúcia quando Augusto caiu.

Quando terminei, o policial perguntou:

"O senhor entende que colocou a bebida suspeita diante de outra pessoa?"

"Entendo. E assumo o que fiz. Mas não fui eu quem colocou a substância nela."

Do outro lado da porta, a voz de Lúcia aumentou.

"Ele está mentindo!"

O policial abriu a porta.

Minha sogra entrou chorando, com Helena logo atrás.

"Caio levou as taças para a mesa", disse Lúcia. "Ele estava furioso porque Augusto zombou do trabalho dele. Se havia algum remédio naquele vinho, foi ele quem colocou. Meu genro tentou dopar meu marido."

Helena olhou para mim.

E, pela primeira vez desde nosso casamento, eu não consegui saber de que lado ela estava.

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