"Depois da Morte da Esposa, a Amante Tomou Seu Lugar na Mansão — Mas Ela Não Fazia Ideia de Quem Era a Nova Babá" Capítulo 9
Maíra voltou lentamente para Ricardo.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Gael foi o primeiro.
"Você tem certeza?"
Ricardo soltou uma risada amarga.
"Eu passei meses tentando esquecer aquela noite. Tenho certeza."
"Então por que não disse isso antes?", Maíra perguntou.
"Porque Augusto me ajudou."
A resposta fez o estômago dela se revirar.
"Com o quê?"
Ricardo olhou para a biblioteca.
"Depois que finalmente chamamos a ambulância, ele disse que seria melhor não mencionar quanto tempo Elara ficou caída."
Maíra sentiu as unhas entrarem na palma.
"E você concordou."
"Sim."
"Ele alterou o horário?"
"Não sei exatamente o que fez."
"Você nunca perguntou?"
Ricardo levantou os olhos.
"Eu não queria saber."
Maíra riu, mas não havia humor algum.
"Essa parece ser a frase que define sua vida."
Gael interveio.
"Augusto examinou Elara naquela noite?"
"Antes da ambulância chegar."
"E declarou alguma coisa?"
"Disse que ela provavelmente tinha sofrido uma queda após tomar medicação."
Maíra ficou imóvel.
"Medicação prescrita por ele."
Ricardo assentiu.
Gael pegou o celular.
"Isso acabou de deixar de ser uma investigação particular."
Delegada Beatriz Faria chegou à mansão menos de duas horas depois.
Tinha trinta e poucos anos, cabelo castanho preso num coque baixo e uma forma direta de falar que não parecia se alterar diante do tamanho da propriedade.
Ela ouviu Ricardo sem interromper.
Depois pediu que repetisse tudo.
Do começo.
Quando ele terminou, Beatriz fechou o bloco de anotações.
"Então o senhor omitiu informação relevante na investigação da morte da sua esposa."
Ricardo baixou os olhos.
"Sim."
"E permitiu que um médico presente na cena influenciasse o relato."
"Sim."
"E só está dizendo isso agora."
"Sim."
Beatriz permaneceu alguns segundos em silêncio.
"Vou precisar que o senhor repita isso formalmente na delegacia."
Ricardo assentiu.
Maíra estava perto da janela.
Beatriz olhou para ela.
"E a senhora?"
"Eu?"
"Quero tudo o que encontrou sobre Elara. Sem esconder nada."
Maíra olhou para Gael.
"Há documentos protegidos."
"Então seu advogado pode providenciar a entrega correta."
"Ele não é meu advogado."
Gael virou o rosto para ela.
Beatriz ergueu uma sobrancelha.
"Ótimo. Então decidam depois o que ele é."
Maíra quase respondeu.
Gael disfarçou um sorriso.
Beatriz continuou.
"Agora, o médico."
Helena conseguiu levantar os primeiros documentos ainda naquela manhã.
Gael colocou tudo sobre a mesa de reunião do escritório.
Receitas.
Notas fiscais.
Registros de farmácia.
Pagamentos.
Maíra passou os olhos pelas folhas.
"Isso é para Tomás?"
"Algumas receitas estão vinculadas ao cadastro dele."
"Mas não aparecem no prontuário."
"Exatamente."
Beatriz examinou uma delas.
"Clonazepam em solução."
Maíra sentiu o peito apertar.
"Para um bebê?"
"Não há justificativa clínica registrada."
Gael apontou outra página.
"E essas compras se repetem."
"Quanto tempo?", Beatriz perguntou.
"Quase quatro meses."
Maíra fechou os olhos.
Quatro meses.
Tomás vinha sendo exposto havia muito mais tempo do que imaginavam.
"Augusto estava dopando ele."
Beatriz levantou a mão.
"Temos indícios de que medicamentos foram adquiridos usando dados vinculados ao paciente. Ainda precisamos provar quem administrou."
Maíra respirou fundo.
A delegada tinha razão.
Não bastava saber.
Precisavam provar.
Helena colocou outra pasta sobre a mesa.
"E encontrei isso."
Gael abriu.
Era uma cópia do prontuário de Elara.
Na semana anterior à morte, havia registros de ansiedade intensa, insônia, confusão e episódios de desequilíbrio.
Maíra franziu a testa.
"Minha irmã nunca teve isso."
Helena apontou para a página seguinte.
"Veja as datas."
Três consultas em cinco dias.
Todas assinadas por Augusto.
Gael colocou ao lado uma agenda pessoal digitalizada de Elara.
"Nos mesmos dias, ela registrou reuniões, uma ida ao banco e um almoço comigo."
Beatriz percebeu imediatamente.
"Então ela estava funcional."
"Mais do que isso", Gael respondeu. "No dia em que o prontuário afirma que ela apresentava confusão importante, ela assinou uma alteração patrimonial diante de duas testemunhas."
Maíra sentiu raiva.
"Ele estava construindo uma história."
"Talvez", Beatriz disse.
"Uma mulher instável. Medicada. Confusa."
A delegada fechou a pasta.
"Uma história que tornaria uma queda muito mais fácil de explicar."
O celular de Maíra tocou.
Dona Célia.
Ela atendeu imediatamente.
"Como está Tomás?"
Do outro lado, silêncio.
"Dona Célia?"
A voz veio tremendo.
"Maíra... ele sumiu."
O mundo parou.
"O quê?"
Gael levantou-se.
Beatriz também.
"Tomás não está aqui."
"Como assim não está?"
"Camila veio."
Maíra sentiu o sangue gelar.
"O que ela fez?"
"Disse que Ricardo tinha autorizado levar o menino para casa."
"Ricardo está na delegacia!"
"Eu sei agora!"
Maíra já corria para a porta.
"Há quanto tempo?"
"Uns vinte minutos."
"Qual carro?"
"Uma SUV branca."
Gael pegou as chaves.
Beatriz falou ao telefone com a equipe.
"Placa."
Dona Célia passou a informação.
Gael digitou no celular enquanto caminhava.
"Está registrada em nome de uma empresa de Camila."
"Você consegue localizar?", Maíra perguntou.
"Talvez."
"Talvez não serve!"
Gael parou diante dela.
"Maíra, olhe para mim."
Ela respirava rápido.
"Ela levou meu sobrinho."
"Eu sei."
"Ela vai machucar ele."
"Então você vai pensar."
"Eu vou atrás dela."
"E eu vou impedir que ela saia da cidade."
Beatriz ouviu.
"Como?"
Gael já estava ligando.
"Vou pedir bloqueio emergencial das contas usadas pela empresa e acionar a seguradora do veículo. A SUV tem rastreador."
Beatriz assentiu.
"Faça. Me passe tudo."
Maíra olhou para os dois.
"Eu sei onde ela pode estar."
Gael desligou.
"Onde?"
"Não sei ainda."
"Maíra..."
"Preciso pensar como Elara."
A SUV apareceu no sistema perto da Marginal Pinheiros.
Depois sumiu.
"Desligaram o rastreador", Gael disse.
Beatriz xingou baixo.
"Temos equipes procurando."
Maíra olhava para o mapa.
Camila não podia levar Tomás para um hotel.
Nem para o apartamento.
Nem para um aeroporto.
Todos seriam óbvios.
Ela precisava de um lugar ligado à família.
Um lugar que parecesse seguro.
Maíra fechou os olhos.
Lembrou das fotografias encontradas no quarto de Elara.
Tomás recém-nascido.
Elara no jardim.
Elara diante da piscina.
Outra imagem.
Uma casa pequena.
Madeira clara.
Árvores.
No verso havia uma frase.
"Quando tudo ficar pesado, volto para cá."
Maíra abriu os olhos.
"A casa de campo."
Gael virou-se.
"Que casa?"
"Elara tinha uma casa fora de São Paulo."
"Ricardo nunca mencionou."
"Talvez porque não fosse dele."
Beatriz aproximou-se.
"Local?"
Maíra tentou lembrar.
Na fotografia havia uma placa ao fundo.
Um nome.
"Atibaia."
Gael começou a pesquisar os documentos patrimoniais.
Encontrou.
"Chácara em Atibaia. Registrada em nome de Elara antes do casamento."
Maíra pegou a bolsa.
"É lá."
"Como sabe?", Beatriz perguntou.
"Porque Camila quer fazer parecer que Tomás desapareceu."
"E?"
"Ela precisa de um lugar onde ninguém procure."
Gael entendeu.
"Uma propriedade que não aparece no patrimônio de Ricardo."
"Exatamente."
A polícia chegou primeiro à estrada de acesso.
A SUV branca estava abandonada perto de um posto.
Mas uma câmera registrara Camila entrando em outro carro com uma mulher e o bebê.
Gael permaneceu com Beatriz para rastrear o segundo veículo e providenciar os bloqueios.
Maíra foi com dois policiais até a chácara.
"Não entre sozinha", Gael disse antes que ela saísse.
"Não vou esperar se ouvir Tomás."
"Maíra."
Ela olhou para ele.
Havia algo nos olhos de Gael que nunca estivera ali antes.
Medo.
Não pela investigação.
Por ela.
"Volte", ele disse.
Só isso.
Maíra assentiu.
"Com ele."
A casa parecia abandonada.
Porta fechada.
Janelas escuras.
Os policiais foram pelos fundos.
Maíra ficou diante da entrada.
Então ouviu.
Um choro.
Baixo.
Distante.
"Tomás."
Ela correu.
"Senhora, espere!"
Não esperou.
A porta lateral estava destrancada.
Maíra entrou.
"Tomás!"
Nenhuma resposta.
Só o choro.
Vinha do andar inferior.
Ela encontrou uma escada estreita que levava a uma antiga adega.
Desceu.
"Tomás!"
O choro aumentou.
Maíra abriu uma porta.
E viu um berço portátil.
Tomás estava dentro.
Sozinho.
Ela correu.
"Meu amor!"
Pegou o bebê.
Ele estava quente, assustado, mas consciente.
Maíra o apertou contra o peito.
"A tia chegou."
Dessa vez não corrigiu.
Não precisava.
"Eu estou aqui."
Tomás chorou contra seu pescoço.
Maíra também.
Então ouviu palmas.
Lentas.
Atrás dela.
Camila estava na porta.
"Que cena emocionante."
Maíra virou-se.
"Você."
Camila sorria.
Mas havia desespero nos olhos.
"Você realmente acredita que ganhou."
"Afaste-se."
"Você entrou naquela família fingindo ser uma ninguém."
"Eu nunca precisei fingir para ser melhor do que você."
O sorriso de Camila desapareceu.
"Me dê o menino."
"Venha buscar."
Camila deu um passo.
Maíra protegeu Tomás com o corpo.
"Mais um e eu grito."
"Não tem ninguém aqui."
"Tem polícia do lado de fora."
Camila congelou.
Maíra viu.
"Achou mesmo que eu viria sozinha?"
Um ruído surgiu no andar de cima.
Vozes.
Camila recuou.
"Você destruiu tudo."
Maíra apertou Tomás.
"Não. Você fez isso sozinha."
Camila virou-se para fugir.
Dois policiais apareceram na escada.
"Parada!"
Ela tentou passar.
Foi contida.
Maíra fechou os olhos.
Tomás estava seguro.
Mas ainda faltava Augusto.
O médico foi localizado naquela mesma tarde.
Tentava sair de uma clínica particular nos Jardins quando Beatriz o abordou.
Gael e Maíra chegaram minutos depois.
Augusto estava encostado contra uma viatura.
"Isso é ridículo", ele dizia.
Beatriz mostrou o mandado.
"Falsificação de prontuários, prescrição irregular e suspeita de participação em crimes contra uma criança. O senhor pode discutir o resto com seu advogado."
Augusto viu Maíra.
Seu rosto mudou.
"Você."
Ela se aproximou.
"Há quanto tempo dopava Tomás?"
"Eu nunca administrei nada."
"Mas prescrevia."
Silêncio.
"E Elara?"
Augusto desviou o olhar.
"Minha irmã descobriu o quê?"
Nada.
Beatriz se aproximou.
"Doutor, aconselho que pare de falar."
Mas Augusto parecia ter perdido o controle.
"Vocês acham que isso começou com Camila?"
Maíra ficou imóvel.
Gael também.
Augusto riu.
"Ela não teria inteligência para organizar metade disso."
"Quem pagava você?", Gael perguntou.
Augusto fechou a boca.
Helena já encontrara parte da resposta.
Os pagamentos não vinham diretamente de Camila.
Nem de Ricardo.
Vinham de uma empresa chamada Fênix Participações.
Encerrada havia quase nove anos.
Mas Gael encontrara seu antigo registro societário.
A empresa pertencera a um grupo empresarial controlado pelo pai de Ricardo.
Homem morto havia seis anos.
Maíra mostrou o documento.
"Por que uma empresa extinta da família Alvarenga pagava você?"
Augusto perdeu a cor.
"Eu não sei."
"Mentira."
"Eu recebia instruções."
"De quem?"
Ele permaneceu calado.
Beatriz fez sinal para os policiais.
Um deles segurou Augusto pelos braços.
O médico começou a ser conduzido para a viatura.
Maíra deu um passo.
"Quem matou Elara?"
Augusto parou.
Beatriz ordenou:
"Continue andando."
Mas ele virou o rosto.
Olhou diretamente para Maíra.
Não havia arrogância agora.
Havia medo.
"Eu não matei sua irmã."
Maíra sentiu um arrepio.
"Então quem matou?"
Augusto olhou ao redor, como se temesse que alguém pudesse ouvi-lo mesmo cercado por policiais.
"Eu só fazia o que me mandavam."
"Quem mandava?"
"Você não entende."
"Então me faça entender."
O médico soltou uma risada nervosa.
"Ricardo acha que tudo isso é sobre dinheiro."
Gael ficou atento.
"Não é?"
Augusto olhou para ele.
"Dinheiro era só uma parte."
Maíra se aproximou.
"E Camila?"
"Camila queria Ricardo. Queria a casa. Queria o lugar de Elara."
"E você queria o quê?"
"Continuar vivo."
A resposta silenciou todos.
Maíra sentiu o coração acelerar.
"De quem você tinha medo?"
Augusto não respondeu.
O policial voltou a puxá-lo.
Dessa vez ele caminhou.
Dois passos.
Três.
Então parou novamente.
Olhou para Maíra por cima do ombro.
"Sua irmã descobriu uma coisa que nunca deveria ter descoberto."
Maíra gelou.
"O quê?"
Augusto abriu a boca.
Antes que respondesse, seu celular, apreendido por Beatriz e guardado dentro de um saco de evidências, começou a tocar.
Todos olharam.
Na tela havia apenas uma identificação.
Sem nome.
Uma única palavra.
"Casa."
Augusto ficou branco.
Maíra viu o medo nos olhos dele.
Um medo muito maior do que demonstrara diante da polícia.
Beatriz ergueu o saco transparente.
"Quem está ligando?"
Augusto não respondeu.
"Quem é 'Casa'?"
Ele baixou a cabeça.
O telefone continuou tocando.
Maíra aproximou-se.
"Augusto."
O médico ergueu os olhos.
"Se essa pessoa descobrir que eu falei..."
"Quem?"
O toque parou.
Um segundo depois, uma mensagem apareceu na tela.
Beatriz leu.
Seu rosto endureceu.
Gael se aproximou.
"O que diz?"
Ela virou o aparelho.
Maíra leu a mensagem.
E sentiu o sangue gelar.
"Você devia ter terminado o serviço naquela noite."
Abaixo havia uma segunda linha.
"Agora nós terminamos."
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