"Depois da Morte da Esposa, a Amante Tomou Seu Lugar na Mansão — Mas Ela Não Fazia Ideia de Quem Era a Nova Babá" Capítulo 8
O sobrenome no documento era Ferraz.
Maíra sentiu o corpo inteiro endurecer.
Gael pegou a folha da mão dela e leu novamente.
Representante legal indicado em documento suplementar.
Augusto Ferraz.
O médico de Tomás.
O homem que, poucas horas antes, havia dito que a criança não precisava ir ao hospital.
"Isso não pode ser coincidência", Maíra disse.
Gael já estava guardando os documentos.
"Não é."
Otávio fechou a porta da sala.
"Preciso informar que o doutor Ferraz não conseguiu acesso ao cofre. O documento apresentado por ele não corresponde às autorizações registradas."
"Ele está aqui?", Gael perguntou.
"Estava."
"Estava?"
"Saiu assim que soube que havia duas pessoas autorizadas na sala."
Maíra deu um passo para a porta.
"Então ele sabe que fomos nós."
Gael segurou seu olhar.
"Provavelmente."
"E Ricardo?"
"Precisamos falar com ele antes que Augusto fale."
Ricardo voltou à mansão no começo da noite.
Tomás permanecia internado, acompanhado por Dona Célia e uma enfermeira indicada pelo hospital.
A casa parecia maior sem o bebê.
Mais vazia.
Mais hostil.
Ricardo entrou na biblioteca e encontrou Maíra e Gael esperando.
Parou na porta.
"O que vocês estão fazendo aqui?"
Gael colocou a pasta vermelha sobre a mesa.
"Precisamos conversar."
"Agora não."
"Agora."
Ricardo olhou para Maíra.
"Eu já disse que você não mora mais nesta casa."
"Não vim morar."
"Então saia."
Maíra abriu a pasta.
"Depois que você explicar isso."
Ricardo viu os extratos.
Seu rosto mudou.
Pouco.
Mas mudou.
Gael percebeu.
"Você reconhece."
"Não sei do que está falando."
"Transferências das contas de Elara para empresas ligadas a você."
Ricardo ficou imóvel.
"Isso é assunto do casamento."
"Ela morreu", Maíra respondeu.
"Eu sei."
"Então pare de falar dela como se ainda pudesse se defender."
Ricardo apertou o maxilar.
"Você não sabe nada sobre meu casamento."
"Sei que você traía sua esposa."
Silêncio.
"Sei que Camila já frequentava esta casa antes de Elara morrer."
Ricardo olhou para Gael.
"Foi você que contou?"
"Não."
"Então quem?"
"Isso importa?", Maíra perguntou.
"Importa porque vocês estão invadindo a minha vida."
Ela soltou uma risada curta.
"Sua vida?"
Apontou para os documentos.
"Você roubava dinheiro da sua esposa."
"Eu não roubava."
"Então como chama?"
"Movimentação patrimonial."
Gael falou pela primeira vez.
"Sem autorização dela?"
Ricardo permaneceu em silêncio.
"Com assinaturas que parecem falsificadas?"
"Você está ultrapassando limites."
"Responda."
Ricardo caminhou até o bar.
Serviu uma dose de uísque.
Maíra observou suas mãos.
Elas tremiam.
"Eu administro empresas", ele disse.
"Elara nunca entendeu como funcionava."
"Então resolveu assinar por ela?", Gael perguntou.
"Eu estava tentando proteger os ativos."
"De quem?"
Ricardo bebeu.
"De decisões impulsivas."
Maíra sentiu o sangue ferver.
"Ela tentou tirar você da herança."
Ricardo virou-se.
O copo parou no ar.
"O quê?"
Gael abriu o testamento.
"Tomás é o beneficiário principal."
Ricardo não piscou.
"E você recebe quase nada diretamente."
"Isso é falso."
"Não."
Gael empurrou o documento.
"Está registrado."
Ricardo não pegou.
Seus olhos foram para Maíra.
"Como vocês conseguiram isso?"
"Do cofre de Elara."
Pela primeira vez, ele perdeu completamente a expressão.
"Que cofre?"
Maíra viu.
Era genuíno.
Ricardo realmente não sabia.
E isso confirmava a gravação.
Ricardo não sabe de tudo.
Camila também não.
Gael fechou o testamento.
"Você não sabia."
Ricardo deixou o copo sobre o móvel.
"O que mais tinha lá?"
"Nós fazemos as perguntas", Maíra respondeu.
"Não nesta casa."
"Especialmente nesta casa."
Ela tirou o celular do bolso.
Abriu o áudio.
A voz de Elara preencheu a biblioteca.
"Ricardo está mexendo nas contas. Eu confrontei ele. Ele negou."
Ricardo empalideceu.
Maíra não desviou os olhos dele.
"Ela estava mentindo?", perguntou.
Nenhuma resposta.
O áudio continuou.
"Camila sabe mais do que admite."
Ricardo fechou os olhos.
"Desliga isso."
"Não."
"Maíra."
Ela congelou.
Era a primeira vez que ele dizia seu nome daquele jeito.
Não como patrão.
Não como homem irritado.
Como alguém assustado.
"Você nem sabe quem eu sou", ela disse.
Ricardo a encarou.
"Sei que está obcecada pela minha esposa."
"Minha irmã."
O silêncio caiu como vidro quebrado.
Ricardo não se moveu.
Gael também não.
Maíra sentiu o coração bater forte.
Ela não planejara dizer.
Mas agora não havia volta.
"Elara era minha irmã."
Ricardo olhou para Gael.
"Isso é verdade?"
Gael respondeu sem hesitar.
"É."
Ricardo recuou.
"Não."
"Ela procurou por mim durante anos", Maíra continuou.
"Não."
"Ela deixou documentos."
"Não."
"Ela morreu antes de me encontrar."
"Chega."
"Eu entrei nesta casa porque queria saber o que aconteceu com ela."
Ricardo bateu o copo contra o bar.
"CHEGA!"
O vidro tombou.
Uísque escorreu pela madeira.
Maíra não recuou.
"Você estava com Camila antes de Elara morrer."
Ricardo respirava rápido.
"Sim."
A palavra surpreendeu até Gael.
Maíra ficou imóvel.
"Quanto tempo?"
"Meses."
"Elara sabia?"
"Descobriu."
"Quando?"
"Pouco antes de morrer."
Maíra sentiu a garganta fechar.
"Foi por isso que vocês brigaram?"
Ricardo passou as mãos pelo rosto.
"Entre outras coisas."
"Que outras?"
Silêncio.
"Dinheiro?"
Ele não respondeu.
"Você roubava dela e traía ela."
"Eu disse que não roubava."
"Então chama de quê?"
"Eu estava desesperado."
"Por quê?"
Ricardo olhou para Gael.
"Alguns investimentos deram errado."
"Quanto?", Gael perguntou.
"Muito."
"Então você usou o dinheiro dela."
"Eu pretendia devolver."
Maíra riu.
"Claro."
"Você não entende."
"Não. Eu entendo perfeitamente."
Ela se aproximou.
"Você tinha uma esposa rica, uma amante e dívidas."
"Não eram dívidas pessoais."
"Isso muda alguma coisa?"
Ricardo ficou em silêncio.
Maíra baixou a voz.
"Agora me diga sobre a noite em que ela morreu."
O rosto dele fechou.
"Não."
"Você estava aqui."
"Quem disse?"
"Você acabou de dizer com a sua cara."
Ricardo virou-se.
"Saia."
"Não."
"Maíra..."
"Ela estava viva quando você chegou?"
Ele parou.
Gael observou.
"Ricardo."
"Ninguém sabe exatamente o que aconteceu."
"Você sabe."
"Não."
"Você estava lá."
"NÃO!"
A palavra explodiu na biblioteca.
Ricardo levou as mãos à cabeça.
"Eu não matei Elara."
Maíra sentiu o peito apertar.
"Eu não perguntei se matou."
O silêncio seguinte foi pior.
Ricardo percebeu.
Gael percebeu.
Maíra também.
Ela deu um passo.
"Ela estava viva?"
Ricardo não respondeu.
"Estava?"
"Eu..."
"Ricardo."
Ele apertou os olhos.
"Ela estava no chão."
Maíra perdeu o ar.
"Como?"
"Perto da escada."
"Machucada?"
"Sim."
"Consciente?"
"Não."
"Respirando?"
Ricardo ficou em silêncio.
Maíra sentiu as mãos tremerem.
"Respirando?"
"Sim."
A palavra saiu quase inaudível.
Maíra ficou imóvel.
Gael deu um passo para perto dela, mas não tocou.
"Você chamou uma ambulância?", ela perguntou.
Ricardo olhou para o chão.
"Não imediatamente."
"Quanto tempo?"
"Eu não sei."
"Quanto tempo?"
"Alguns minutos."
"Quantos?"
"Eu não sei!"
"Cinco? Dez? Vinte?"
Ricardo bateu a mão na mesa.
"Eu disse que não sei!"
Maíra sentiu lágrimas nos olhos.
"Você deixou minha irmã no chão."
"Eu achei que ela..."
"Ela estava respirando."
"Sim."
"E você foi embora."
"Eu entrei em pânico."
"Por causa dela?"
Ricardo não respondeu.
"Ou por causa de você?"
A pergunta o atingiu.
Ele fechou os olhos.
Maíra entendeu.
"Por sua causa."
"Eu sabia que, se a polícia entrasse naquela casa naquele momento..."
"O quê?"
"Encontraria documentos."
"Que documentos?"
"As transferências."
"E Camila."
Ricardo não respondeu.
Maíra riu entre lágrimas.
"Meu Deus."
Gael falou baixo.
"Você atrasou o socorro para esconder o caso e o dinheiro."
"Eu não sabia que ela ia morrer."
"Mas sabia que ela estava viva", Maíra respondeu.
Ricardo ergueu o rosto.
"Eu voltei."
"Quando?"
"Depois."
"Depois de quanto tempo?"
"Não sei."
"Ela ainda respirava?"
Ricardo desmoronou numa cadeira.
"Quase nada."
Maíra não conseguia sentir as pernas.
"Você chamou ajuda?"
"Sim."
"Quando já era tarde."
"Eu não sabia!"
Ela avançou.
"Você sabia que ela precisava de ajuda!"
"Eu não matei sua irmã!"
Ricardo se levantou de repente.
A voz saiu quebrada.
"Eu não empurrei Elara! Eu não toquei nela!"
Maíra ficou a poucos passos dele.
As lágrimas escorriam, mas sua voz saiu firme.
"Você só escolheu não salvá-la."
Ricardo parou.
A frase pareceu arrancar todo o ar da sala.
Gael baixou os olhos por um instante.
Ricardo abriu a boca.
Nada saiu.
Maíra continuou.
"Talvez você não tenha empurrado."
"Eu não empurrei."
"Talvez não tenha colocado nada no corpo dela."
"Não coloquei."
"Mas viu uma mulher respirando no chão e decidiu que sua reputação, seu dinheiro e sua amante eram mais importantes do que a vida dela."
"Pare."
"Você podia ter salvado minha irmã."
"Pare."
"E escolheu não fazer."
Ricardo começou a chorar.
Não havia elegância.
Não havia controle.
Só um homem destruído pela própria confissão.
"Eu achei que ela fosse acordar."
Maíra balançou a cabeça.
"Não use isso."
"É verdade."
"Não use isso para se perdoar."
"Eu não me perdoo."
"Pior para você."
Gael se aproximou discretamente de Maíra.
"Maíra."
Ela respirou fundo.
"Eu estou bem."
Não estava.
Mas precisava terminar.
"Quem estava aqui?"
Ricardo limpou o rosto.
"Ninguém."
"Mentira."
"Eu cheguei depois."
"Depois de quem?"
Ele hesitou.
"Camila."
Maíra sentiu um choque.
"Ela estava aqui?"
"Sim."
"Foi ela que encontrou Elara?"
"Eu não sei."
"O que ela disse?"
Ricardo olhou para o chão.
"Que havia acontecido um acidente."
"Que acidente?"
"Que Elara caiu."
"Você acreditou?"
"Naquele momento."
"Depois não?"
Ricardo não respondeu.
Maíra avançou.
"O que Camila fez quando você quis chamar a ambulância?"
Ele fechou os olhos.
"Ela disse para esperar."
"Por quê?"
"Porque estava apavorada."
"Com o quê?"
Ricardo demorou.
"Ela repetia que Elara sabia."
"Sabia o quê?"
"Eu perguntei."
"E ela respondeu?"
"Não."
"Ricardo."
Ele respirou fundo.
"Camila só dizia uma frase."
Maíra sentiu o corpo gelar.
"Qual?"
"Ela já sabe sobre o médico."
Silêncio.
Gael ergueu o rosto.
"Que médico?"
Ricardo balançou a cabeça.
"Na época eu achei que fosse sobre alguma consulta."
"Augusto?", Maíra perguntou.
Ricardo ficou pálido.
"Eu não sei."
"Ele cuidava dela?"
"Sim."
"Prescrevia medicação?"
"Às vezes."
"Que medicação?"
"Calmantes. Remédios para dormir."
Maíra lembrou imediatamente de Tomás.
Sedativos.
Pequenas doses.
Exposição repetida.
Tudo se encaixava de uma forma horrível.
Gael também percebeu.
"Augusto tratava Elara antes da morte?"
"Sim."
"Com frequência?"
"Nos últimos meses."
Maíra sentiu o estômago revirar.
"Ela estava doente?"
"Não exatamente."
"Então por que ele medicava?"
"Ela tinha insônia."
"Segundo quem?"
Ricardo ficou em silêncio.
"Segundo Augusto?"
"Sim."
Maíra deu um passo para trás.
Agora a raiva tinha virado outra coisa.
Medo.
Porque o mesmo médico que talvez tivesse medicado Elara agora acompanhava Tomás.
E alguém vinha dopando o bebê.
Ela olhou para Gael.
Ele entendeu sem precisar de palavras.
Precisavam sair.
Precisavam proteger Tomás.
Maíra se virou para a porta.
Ricardo levantou a cabeça.
"Maíra."
Ela não parou.
"Eu disse tudo."
Ela abriu a porta.
"Não."
"Não o quê?"
Maíra olhou por cima do ombro.
"Você disse o suficiente para eu saber quem você é."
Ricardo baixou os olhos.
Ela saiu.
Gael veio atrás.
Já estavam no corredor quando ouviram a voz de Ricardo.
"Espera!"
Maíra continuou.
"Maíra!"
Dessa vez havia desespero real.
Ela parou.
Ricardo apareceu na porta da biblioteca.
O rosto estava molhado de lágrimas.
"Tem mais uma coisa."
Maíra não respondeu.
Ricardo respirou fundo.
"Eu menti."
Gael ficou atento.
"Sobre o quê?"
Ricardo olhou diretamente para Maíra.
"Naquela noite, eu não fui a segunda pessoa a chegar."
Ela sentiu o coração acelerar.
"Quem estava lá?"
Ricardo engoliu em seco.
"O médico."
Maíra ficou imóvel.
Ricardo deu um passo para fora da biblioteca.
"O doutor Augusto estava lá naquela noite."
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