"Depois da Morte da Esposa, a Amante Tomou Seu Lugar na Mansão — Mas Ela Não Fazia Ideia de Quem Era a Nova Babá" Capítulo 4
A pergunta de Gael fez o quarto parecer menor.
Maíra não respondeu.
A fotografia continuava entre seus dedos, e o rosto de Elara parecia observá-la do papel.
"Coincidência", ela disse.
Gael soltou uma respiração curta.
"Não acredito em coincidências."
"Problema seu."
Ele a encarou por mais alguns segundos.
"Você mente mal quando está com medo."
"Eu não estou com medo."
"Está desde que eu mencionei os olhos dela."
Maíra guardou a fotografia no bolso.
"Se quer respostas, comece pelas suas."
"Eu já respondi uma."
"Não. O senhor disse que Elara procurou você para preparar documentos. Não disse quais."
Gael se aproximou da cômoda.
"Porque eu ainda não sei se posso confiar em você."
"Engraçado. Eu ia dizer exatamente a mesma coisa."
Ele quase sorriu.
Quase.
"Saia da casa esta noite."
"Ricardo já mandou."
"Não estou falando como advogado dele."
"Então está falando como o quê?"
Gael parou.
"Como alguém que sabe que Elara tinha medo antes de morrer."
A frase atingiu Maíra com força.
"Medo de quem?"
"Se eu soubesse, talvez ela ainda estivesse viva."
O silêncio mudou.
Pela primeira vez, Maíra não viu arrogância nele.
Viu culpa.
Antes que pudesse insistir, um grito ecoou pelo corredor.
"Senhor Ricardo!"
Dona Célia.
Maíra correu para a porta.
Gael destrancou antes dela.
Os dois saíram quase ao mesmo tempo.
"É o Tomás!", Dona Célia gritou do alto da escada.
Maíra não pensou.
Correu.
Tomás estava no quarto, deitado no berço, com o rosto avermelhado.
Ricardo permanecia ao lado dele, pálido.
"Ele está queimando."
Maíra tocou a testa do bebê.
Quente demais.
"Quanto deu?"
"Trinta e nove e dois", Dona Célia respondeu.
Tomás respirava rápido.
Rápido demais.
Maíra inclinou-se.
"Há quanto tempo ele está assim?"
"Começou a ficar molinho depois que o pediatra foi embora."
"Ele mamou?"
"Quase nada."
Maíra aproximou o ouvido do peito da criança.
"Chame o médico de novo."
Ricardo pegou o celular.
"Já estou ligando."
Tomás soltou um gemido baixo.
Maíra afastou a manta.
As mãos do bebê estavam mornas, mas o corpo parecia sem força.
"Tomás?"
Ela tocou o rosto dele.
"Olha para mim."
Os olhos se abriram por um instante.
Depois fecharam.
Maíra ficou tensa.
"Ele está sonolento demais."
Ricardo olhou para ela.
"Ele quase se afogou."
"Não é só isso."
"Como sabe?"
"Porque a respiração dele está estranha."
Gael apareceu à porta.
"Precisamos levá-lo ao hospital?"
"Sim", Maíra respondeu.
Ricardo hesitou.
"Vamos esperar o doutor Augusto."
"Não."
Ricardo virou-se.
"O quê?"
"Não espere."
"Ele acompanha Tomás desde que nasceu."
"E isso não muda o que estou vendo."
Ricardo cerrou os dentes.
"Maíra, você não trabalha mais aqui."
"Então esqueça que sou a babá e escute como pai."
Tomás tossiu.
Maíra ergueu o corpo dele com cuidado.
"Meu amor, abre os olhos."
Nada.
"Ricardo, ele precisa de atendimento agora."
"Augusto está chegando."
Maíra fechou os olhos por um segundo.
A raiva subiu.
"Se alguma coisa acontecer com ele enquanto o senhor espera, não vai poder culpar outra pessoa desta vez."
Ricardo ficou imóvel.
Gael observou os dois.
"Ela tem razão."
Ricardo virou a cabeça.
"Você agora acredita nela?"
"Eu acredito que uma criança com febre alta e dificuldade para respirar não deveria esperar uma discussão terminar."
Antes que Ricardo respondesse, o som de um carro entrou pelo portão.
Dona Célia correu até a janela.
"É o doutor Augusto."
Augusto Ferraz entrou no quarto menos de dois minutos depois.
Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos bem cortados e uma elegância que parecia excessiva para alguém chamado às pressas durante a madrugada.
Ele largou a maleta sobre uma poltrona.
"Onde está meu paciente?"
Maíra deu espaço.
Augusto examinou Tomás, mediu a temperatura, ouviu o peito e verificou a garganta.
"Febre reativa."
Maíra franziu a testa.
"Reativa a quê?"
O médico olhou para ela.
"À aspiração de água, ao estresse, ao frio."
"Ele está sonolento."
"É um bebê cansado depois de um trauma."
"A pupila dele está respondendo devagar."
Augusto ergueu o rosto.
"Desculpe?"
Maíra se aproximou.
"Veja de novo."
"Eu já examinei."
"E ele quase não consegue manter os olhos abertos."
Augusto tirou os óculos.
"Quem é você?"
"Maíra."
"Sei seu nome. Perguntei quem é."
Ricardo respirou fundo.
"A babá."
Augusto lançou um olhar rápido para Maíra.
"Então deixe o diagnóstico para quem estudou medicina."
Gael, encostado perto da porta, ergueu levemente as sobrancelhas.
Maíra ignorou o tom.
"Ele tomou alguma medicação hoje?"
Augusto fechou a maleta.
"Não que eu saiba."
"Algum anti-histamínico? Calmante? Qualquer coisa?"
"Por que está perguntando isso?"
"Porque a sonolência não combina com a febre."
Augusto sorriu sem humor.
"Você é babá, não médica."
A frase caiu no quarto.
Dona Célia abaixou os olhos.
Ricardo não reagiu.
Maíra sentiu o rosto aquecer.
Mas não recuou.
"Eu sei o que sou."
Augusto cruzou os braços.
"Então aja de acordo."
"Também sei reconhecer quando alguma coisa está errada."
"Isso é suficiente."
Maíra deu um passo à frente.
"Não, não é."
Augusto estreitou os olhos.
"Você está questionando minha conduta?"
"Estou questionando por que um bebê de oito meses está quase sem reação depois de passar por um episódio de quase afogamento e o senhor quer chamar isso apenas de febre."
Ricardo levantou a voz.
"Chega."
Maíra olhou para Tomás.
Ele parecia menor no meio da cama.
"Leve-o para o hospital."
Augusto respondeu antes de Ricardo.
"Não há necessidade."
"Faça um exame toxicológico."
Dessa vez, todos ficaram em silêncio.
Ricardo franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque alguém tentou matar seu filho esta noite."
Camila não estava mais na casa.
Mas a presença dela parecia continuar em cada cômodo.
"Se isso foi planejado, talvez a piscina não tenha sido a única coisa."
Augusto ficou sério.
"Você está fazendo uma acusação grave."
"Estou pedindo um exame."
"Sem qualquer indicação clínica."
"Sonolência intensa é indicação."
"Depois de um trauma, não."
Maíra virou-se para Ricardo.
"Se o exame der negativo, eu vou embora e nunca mais falo disso."
Ricardo a encarou.
"E se der positivo?"
"Então talvez o senhor finalmente pare de tratar tudo isso como um acidente."
Gael descruzou os braços.
"Faça o exame."
Augusto virou-se para ele.
"Gael, isso não é assunto jurídico."
"Não. É assunto de uma criança potencialmente intoxicada."
"Você também?"
Gael manteve o olhar.
"Se ela estiver errada, um exame resolve. Se estiver certa, esperar pode custar caro."
Ricardo fechou os olhos.
Tomás soltou outro gemido.
Foi isso que decidiu.
"Vamos para o hospital."
Augusto pareceu irritado.
"Ricardo..."
"Eu disse vamos."
No Hospital Vila Nova, a madrugada avançou lentamente.
Tomás foi encaminhado para observação.
Fizeram exames de sangue, radiografia e monitoramento respiratório.
Maíra permaneceu no corredor.
Ricardo não mandou que ela fosse embora.
Também não agradeceu por ela ter ficado.
Gael surgiu ao lado dela com dois copos de café.
Estendeu um.
"Não quero."
"Não perguntei."
Maíra aceitou.
"Você sempre é irritante assim?"
"Normalmente sou pior."
Ela quase sorriu.
Quase.
Gael olhou através do vidro.
"Como sabia?"
"Do quê?"
"Que podia haver alguma substância."
Maíra ficou em silêncio.
"Instinto?"
"Observação."
"Não foi só isso."
Ela tomou um gole de café.
"Já cuidei de crianças antes."
"Quantas?"
"Algumas."
"Em hospitais?"
Maíra virou o rosto.
"Por que está me investigando?"
Gael não negou.
"Porque você apareceu na casa de Ricardo com um currículo cheio de buracos."
Ela sentiu o corpo ficar tenso.
"Você puxou meu histórico?"
"Puxei."
"Sem minha autorização."
"Não precisava."
"Claro. Advogados ricos nunca precisam."
Gael ignorou a provocação.
"Você estudou dois anos em uma faculdade particular de saúde."
Maíra apertou o copo.
"Não terminei."
"Por quê?"
"Problema meu."
"Depois disso, você desaparece dos registros por quase três anos."
"Eu trabalhei."
"Com nomes de empregadores que não existem."
Maíra olhou para ele.
"Está me ameaçando?"
"Estou tentando descobrir se você representa perigo para Tomás."
Ela sentiu a raiva voltar.
"Eu pulei numa piscina para salvar aquele menino."
"Eu sei."
"Então pare de agir como se eu fosse criminosa."
Gael abaixou a voz.
"Eu não acho que você seja."
Maíra ficou imóvel.
Foi a primeira vez que alguém naquela casa dizia isso de forma tão direta.
"Então o que acha?"
Gael a observou.
"Que você esconde alguma coisa."
"Todo mundo esconde."
"Você mais do que os outros."
"Talvez eu tenha motivos."
"Talvez."
Antes que ela respondesse, Ricardo apareceu no corredor.
Seu rosto estava exausto.
"O médico chamou."
Os três entraram.
A médica do plantão segurava uma prancheta.
"Tomás está estável."
Ricardo soltou o ar.
"Graças a Deus."
"Mas encontramos algo que precisamos discutir."
Maíra sentiu a nuca arrepiar.
"O quê?"
A médica olhou para ela, depois para Ricardo.
"O exame toxicológico detectou traços de um sedativo."
O silêncio foi instantâneo.
Augusto, que aguardava mais atrás, levantou a cabeça.
"Sedativo?"
"Sim."
Ricardo empalideceu.
"Que sedativo?"
"Uma substância da família dos benzodiazepínicos, em dose baixa."
Maíra apertou os dedos.
"Isso pode acontecer por contaminação?"
A médica balançou a cabeça.
"Não é impossível, mas é improvável."
Augusto se aproximou.
"Pode haver erro laboratorial."
"Repetimos a análise."
Gael olhou para ele.
"Então não parece ser erro."
Augusto ficou em silêncio.
A médica continuou.
"O mais importante é que os níveis não sugerem uma administração única recente."
Maíra franziu a testa.
"Como assim?"
"Os marcadores sugerem exposição repetida."
Ricardo pareceu não entender.
"Repetida?"
"Pequenas doses ao longo do tempo."
O rosto dele perdeu a cor.
"Quanto tempo?"
"Não podemos precisar ainda."
Maíra sentiu o coração bater com força.
Aquilo era pior do que imaginara.
Muito pior.
Gael olhou para Augusto.
Depois para Maíra.
"Parece que a babá estava certa."
A frase não saiu com ironia.
Saiu como uma constatação.
Augusto endureceu o rosto.
"Isso ainda precisa ser investigado."
"Claro", Maíra respondeu.
"Principalmente porque o senhor acompanha Tomás desde o nascimento."
Augusto a encarou.
"Está me acusando?"
"Não."
Ela olhou para Ricardo.
"Estou dizendo que alguém teve acesso suficiente a esse bebê para dopá-lo mais de uma vez sem que ninguém percebesse."
Ricardo levou a mão à testa.
"Camila..."
Maíra não respondeu.
Não queria oferecer uma resposta fácil.
Talvez fosse ela.
Talvez não.
Era exatamente esse o problema.
A médica colocou a prancheta sobre a mesa.
"Vamos mantê-lo internado até amanhã."
"Posso vê-lo?", Ricardo perguntou.
"Daqui a pouco."
Ele saiu do consultório como se tivesse envelhecido dez anos.
Augusto permaneceu parado.
Gael acompanhou o médico com os olhos.
Maíra também.
Quando ficaram sozinhos no corredor, Gael se aproximou dela.
"Você suspeitava disso antes?"
"Não."
"Mas pensou rápido."
"Porque alguém já tentou matá-lo uma vez."
Gael ficou sério.
"Uma vez?"
Maíra olhou para a folha do exame que a médica deixara sobre a bancada.
Exposição repetida.
Baixas doses.
Ao longo do tempo.
Ela sentiu um frio percorrer os braços.
A imagem da piscina voltou à sua cabeça.
O carrinho caindo.
Camila mentindo.
A gravação apagada.
O bilhete atrás da fotografia.
Pare de procurar, ou o bebê será o próximo.
Maíra pegou o papel.
Leu outra vez.
Depois ergueu os olhos.
"Não."
Gael franziu a testa.
"O quê?"
Maíra encarou o corredor que levava ao quarto de Tomás.
Sua voz saiu baixa.
"Então a piscina não foi a primeira vez."
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