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"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 6 — Eu Só Quero Que Você Fique Longe

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Capítulo 6 — Eu Só Quero Que Você Fique Longe

O pacote chegou à Cena Livre três dias depois.

Não havia remetente. Apenas meu nome, escrito à mão, e o endereço da agência.

Marcelo colocou a caixa sobre minha mesa.

"Se for presente de fã, precisamos registrar."

"Eu ainda não tenho fãs."

"Sua mãe não conta?"

"Ela manda comida, não caixas misteriosas."

Abri o pacote diante dele.

Dentro havia um álbum de capa azul-escura.

A primeira fotografia mostrava meu primeiro dia no Colégio Horizonte. Eu estava no pátio, com a mochila pendurada em um ombro e os cabelos bagunçados pelo vento.

Virei a foto.

Uma data estava escrita no verso, com a caligrafia de Isadora.

15 de fevereiro de 2016.

Continuei folheando.

Eu dormindo sobre um livro na biblioteca. Eu ensaiando sozinho atrás do auditório. Eu rindo com Camila na fila da cantina. Eu usando o paletó branco momentos antes da peça.

Isadora havia me fotografado durante quase dois anos sem que eu percebesse.

Na última página, encontrei uma embalagem antiga de bala de nêspera. O plástico estava amarelado, e a faixa verde quase desaparecera.

Ao lado, havia uma frase.

"Guardei uma cópia para mim e outra para você."

Marcelo permaneceu em silêncio.

Fechei o álbum.

"Você sabe quem enviou?" ele perguntou.

"Sei."

"Quer que eu devolva?"

Olhei para a capa azul sob minhas mãos.

"Ainda não."

Naquela noite, Isadora me esperava na calçada diante da Cena Livre.

Não havia motorista, assessor ou câmera. Ela vestia uma calça escura e uma blusa branca, como se tivesse saído de uma reunião sem trocar de roupa.

Parei a alguns passos dela.

"Eu pedi para você não usar meu endereço."

"Eu não usei. Enviei para a empresa que consta no seu registro profissional."

"Isso deveria tornar melhor?"

"Não."

Pela primeira vez, ela não tentou organizar a resposta para parecer impecável.

"Só não sabia como fazer você me ouvir."

"Você teve dez anos."

Isadora baixou os olhos.

"Eu sei."

Um vento frio atravessou a rua. Ela enfiou as mãos nos bolsos, mas não se aproximou.

"A rescisão não foi uma decisão minha", disse. "Eu pedi a revisão da sua representação. Queria tirar você de Leandro. Otávio usou uma resposta sobre o projeto da Braga para autorizar algo que eu nunca aprovei."

"Eu ouvi o que você respondeu."

"E eu deveria ter perguntado exatamente o que ele pretendia fazer."

"Deveria ter impedido um parceiro comercial de decidir quem fica na sua empresa."

"Sim."

A admissão me tirou parte da raiva que eu havia preparado.

Não trouxe paz.

"Eu revoguei o acesso dele aos departamentos internos", continuou. "Abri uma investigação sobre a sua rescisão e sobre Leandro. Posso anular o documento. Você pode voltar para a Aurora com uma nova equipe e controle sobre os testes que aceita."

"Não."

"Noah..."

"Eu não quero voltar."

"Você nem ouviu a proposta."

"Porque não quero que a minha carreira vire uma compensação pela sua culpa. Se eu aceitar um papel da Aurora agora, ninguém vai perguntar se sei atuar. Vão perguntar o que fiz para a presidente."

正文1

Ela ficou em silêncio.

"Consegui Rafael Moraes num teste aberto", prossegui. "Ninguém naquela sala sabia quem você era para mim. Foi a primeira oportunidade que senti que realmente me pertencia. Não vou devolver isso."

"Eu vi o teste."

Meu corpo enrijeceu.

"Como teve acesso?"

"A Aurora é coprodutora minoritária da série. O acordo foi assinado antes de eu voltar ao Brasil. Eu não participei da seleção e não sabia que você havia testado até receber a lista final."

"Então sabe que não preciso que me coloque de volta no seu catálogo."

"Sei."

Ela respirou fundo.

"Também preciso esclarecer uma coisa. Otávio não é meu noivo. Nunca foi."

A rua pareceu ficar mais silenciosa.

"Ele disse que vocês vão se casar. Os repórteres dizem isso. Seu pai permite. E você nunca negou."

"Nossos pais planejaram unir as empresas. Otávio começou a chamar isso de casamento antes que eu desse qualquer resposta."

"E qual foi sua resposta?"

"Não."

"Quando?"

Ela demorou.

"Em particular."

Ri sem vontade.

"Então ele contou ao Brasil uma história, e você deixou que seu silêncio parecesse um sim. Exatamente como dez anos atrás."

Isadora empalideceu.

"Não compare as duas coisas."

"Por quê? Porque eu ainda não sei o que aconteceu naquela semana? Porque toda vez que você está prestes a explicar, alguma coisa mais importante aparece?"

"Minha mãe estava morrendo."

As palavras saíram baixas e rápidas.

Parei.

Os olhos de Isadora se encheram, mas nenhuma lágrima caiu.

"Meu pai nos tirou de São Paulo naquela madrugada. Eu não tive escolha."

"E nos nove anos seguintes?"

"Eu procurei você."

"Não encontrou."

"Não."

"Mas encontrou meu contrato quando assumiu a Aurora. Encontrou meu endereço. Encontrou meu perfil no Encore. E, mesmo assim, quando ficou diante de mim, disse que não éramos próximos."

Ela abriu a boca.

Uma voz feminina chamou meu nome atrás de mim.

"Noah?"

Sofia se aproximava com um envelope grande sob o braço.

"Trouxe as provas das fotos de divulgação. Marcelo disse que você ainda estava aqui."

Ela reconheceu Isadora imediatamente.

"Senhora Salles."

"Sofia Nascimento", respondeu Isadora. "Eu vi seu trabalho."

As duas se olharam por um instante.

Sofia me entregou o envelope.

"Não vou atrapalhar."

"Você não está atrapalhando", disse Isadora.

O tom dela era educado. A mão fechada junto ao corpo não era.

Sofia percebeu.

"Na verdade, eu ia convidar Noah para jantar."

"Sofia..."

"Sem pressão", ela acrescentou, olhando para mim. "Pode responder outro dia."

Isadora esperou até Sofia se afastar.

"Você está saindo com ela?"

"Isso não é assunto da presidente da Aurora."

"Não estou perguntando como presidente."

"Então como está perguntando?"

Isadora sustentou meu olhar.

"Como alguém com ciúme."

Dez anos antes, eu teria dado qualquer coisa para ouvir aquilo.

Naquela noite, só senti cansaço.

"Você não pode chegar depois de dez anos, me chamar de desconhecido diante das câmeras, permitir que outro homem encerre meu contrato e sentir ciúme quando alguém me trata como pessoa."

正文2

"Eu sei que não tenho esse direito."

"Então por que veio?"

"Porque, quando vi que você tinha ido embora, percebi que passei a vida inteira acreditando que ainda teria tempo."

Minha garganta apertou.

Isadora deu um passo na minha direção e parou antes de invadir o espaço entre nós.

"Não quero obrigar você a voltar para a Aurora. Só quero uma chance de contar tudo."

"Eu não consigo ouvir agora."

"Quando vai conseguir?"

"Não sei."

Ela assentiu devagar.

Eu precisava dizer aquilo antes que uma parte antiga de mim confundisse arrependimento com reparação.

"Isadora, eu só quero que você fique longe de mim."

Vi a esperança desaparecer dos olhos dela.

"Está bem", respondeu.

Ela foi embora sem pedir mais nada.

Na manhã seguinte, entrei no auditório onde a plataforma responsável pela série apresentaria o elenco à imprensa.

Meu nome aparecia no telão pela primeira vez: NOAH HAN RIBEIRO — RAFAEL MORAES.

Sentei entre dois atores coadjuvantes. Marcelo ficou na primeira fileira, e Sofia fotografava perto do palco.

A coletiva começou com perguntas sobre a trama. Quinze minutos depois, as portas laterais se abriram.

Otávio entrou acompanhado de um jornalista conhecido por escândalos de celebridades.

Ele não estava na lista de convidados.

Mesmo assim, tomou um microfone.

"Antes de celebrarem uma história de superação", disse, "talvez o público deva saber como este ator conseguiu o papel."

O telão ficou preto.

Uma gravação começou a tocar.

Minha voz dizia: "Se eu aceitar um papel da Aurora agora, ninguém vai perguntar se sei atuar. Vão perguntar o que fiz para a presidente."

Depois veio a voz de Isadora: "Eu vi o teste."

O áudio terminava ali.

O trecho em que ela explicava não ter participado da seleção havia sido cortado.

Os jornalistas se levantaram ao mesmo tempo.

"Noah, você teve um relacionamento com Isadora Salles?"

"Ela conseguiu o papel para você?"

"Otávio, Isadora traiu o noivado?"

Flashes explodiram diante dos meus olhos.

Peguei o microfone sobre a mesa.

"Meu teste foi aberto. A produção tem a gravação completa."

"Então por que a presidente assistiu antes do anúncio?"

"Por que você encerrou o contrato com a Aurora logo depois de ela assumir?"

"Você foi amante da sua própria chefe?"

Marcelo subiu ao palco, mas dois seguranças da Braga Media bloquearam seu caminho.

Otávio sorriu.

"Noah pode mostrar o que quiser. Todos sabemos que uma ordem da presidente vale mais do que qualquer teste."

As portas principais do auditório se abriram.

O barulho cessou aos poucos.

Isadora entrou com Babi, a diretora Helena Duarte e uma pasta preta nas mãos.

Ela parou no centro do corredor, encarou Otávio e depois olhou diretamente para as câmeras.

"Vocês querem provas?"

Isadora ergueu a pasta.

"Eu trouxe todas."

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