"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 5 — Ele Já Tinha Outro Contrato
Capítulo 5 — Ele Já Tinha Outro Contrato
A sede da Cena Livre ocupava três salas sobre uma padaria na Vila Mariana.
Não havia recepção de mármore, fotógrafos na entrada ou uma parede com rostos famosos. A cafeteira vazava, o ar-condicionado fazia um ruído estranho e Marcelo atendia o telefone, revisava contratos e regava uma samambaia no intervalo entre as ligações.
Gostei do lugar imediatamente.
"Não se anime", ele avisou. "Temos quatro atores, duas atrizes e uma dívida com a gráfica."
"Na Aurora, eu era um entre centenas e também devia para a lanchonete. Parece uma evolução."
Marcelo riu.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Era Babi.
Atendi no corredor.
"Isadora recuperou a conversa completa", disse ela, sem cumprimento. "A pergunta de Otávio estava no meio de várias mensagens sobre a equipe de uma coprodução. Ela achou que ele queria substituir um representante, não rescindir seu contrato."
Fechei os olhos.
"Isso muda o que aconteceu?"
"Ela discutiu com ele diante do jurídico. Revogou o acesso dele aos setores internos e exigiu todos os documentos da sua saída. Também tentou ligar para você."
"Eu bloqueei o número."
"Eu percebi. Ela também."
Houve uma pausa.
"Quer que eu diga onde você está?"
Olhei através da porta de vidro. Marcelo esperava diante de um roteiro aberto, não de uma promessa antiga.
"Não. Se ela precisa tratar da rescisão, pode falar com meu novo representante."
"Você já tem outro representante?"
"Tenho."
Desliguei antes que Babi pudesse fazer outra pergunta.
Ele colocou diante de mim as páginas da série policial para a qual eu havia enviado o vídeo.
"A produção quer um novo teste presencial. O papel é pequeno: policial Rafael Moraes, três cenas. Mas ele tem nome, conflito e pode voltar na segunda temporada."
Passei os olhos pelo texto.
Rafael interrogava um adolescente acusado injustamente. Em vez de pressioná-lo, desligava a câmera da sala e lhe dava água. A cena dependia mais do que ele escondia do que do que dizia.
"Quando?"
"Hoje à tarde."
"Já estou pronto."
"Você nem leu a última página."
"Li o bastante para saber por que ele desliga a câmera."
Marcelo apoiou os braços na mesa.
"Então me mostre."
Ensaiamos por duas horas. Ele não elogiou meu rosto nem disse que eu tinha presença. Interrompeu quando minha pausa ficou longa, quando usei as mãos demais e quando tentei tornar Rafael mais simpático do que o texto permitia.
Era a primeira vez em anos que alguém me dirigia como ator, não como objeto de cenário.
Às três, entramos em um estúdio alugado na Barra Funda. Havia uma câmera, uma leitora de texto e três pessoas da produção.
Nenhuma sabia que eu conhecia a presidente da Aurora.
Nenhuma precisava saber.
Fiz a primeira cena.
A diretora, Helena Duarte, pediu outra tomada.
"Desta vez, não tente convencer o garoto de que você é bom", disse. "Deixe que ele perceba que você está com medo por ele."
Respirei e recomecei.
Quando cheguei à última fala, não olhei para o adolescente. Olhei para a câmera desligada sobre a mesa, como se soubesse que aquilo me custaria o distintivo.
Helena não disse nada por alguns segundos.
Depois pediu:
"Faça a cena seguinte também."
"Ela não estava no material enviado."
"Agora está."
Saí do estúdio sem saber se tinha conseguido o papel, mas com a sensação de que alguém finalmente me vira inteiro.
O e-mail chegou naquela noite.
Rafael Moraes era meu.
Três cenas. Duas diárias. Um nome nos créditos antes do final da lista.
Minha mãe chorou ao telefone como se eu tivesse ganhado um prêmio.
"Mãe, são três cenas."
"Antes eram cadáveres. Agora você prende os criminosos. É uma promoção."
"Tecnicamente, Rafael pode ser suspenso."
"Não estrague meu orgulho com detalhes."
Na primeira leitura do elenco, Helena ampliou minha participação para cinco cenas. Não foi um presente. Ela entregou duas páginas novas e pediu que eu as defendesse diante dos protagonistas.
Eu defendi.
Depois da leitura, Marcelo me chamou para um canto.
"Um portal soube que você saiu da Aurora na mesma semana em que Isadora Salles voltou. Querem explorar a coincidência."
"Diga que meu contrato terminou por acordo entre as partes."
"Eles perguntaram se vocês tiveram um relacionamento."
"Diga que meu teste foi aberto, gravado e avaliado pela produção."
"Não foi isso que perguntaram."
"É a única resposta que receberão."
Marcelo me observou e assentiu.
"Ótimo. Porque eu não represento romance inventado. Represento trabalho."
Na semana seguinte, fui ao estúdio fazer as fotografias de divulgação.
A fotógrafa ajustava uma luz quando entrei. Tinha cabelos cacheados presos no alto da cabeça e uma câmera pendurada no pescoço.
Ela olhou para mim, baixou a câmera e sorriu devagar.
"Noah Han Ribeiro."
"Nós nos conhecemos?"
"Colégio Horizonte. Eu era da turma ao lado. Sofia Nascimento."
Procurei o rosto dela na memória.
"Desculpe."
"Não se desculpe. Nós nunca conversamos."
Sofia apontou para um banco diante do fundo cinza.
"Mas eu fotografei você naquela peça do paletó branco."
"A foto da parede foi sua?"
"Uma delas. Guardei outras."
Ela me posicionou diante da luz e pediu que eu olhasse para fora do quadro.
"Você parecia diferente no palco", comentou.
"Mais novo?"
"Visto."
A palavra me atingiu com uma precisão desconfortável.
Sofia não insistiu. Continuou fotografando, pediu um perfil, um close e uma expressão menos controlada.
No fim, mostrou uma das imagens na tela.
Não parecia o homem que ficara amarrado no asfalto depois do corte.
Parecia um ator.
"Vou participar de uma exposição de fotografia de cena no sábado", disse ela. "A imagem antiga está entre as escolhidas. Se quiser ver, tenho um convite extra."
Pensei em recusar. Minha vida já tinha memórias demais voltando sem permissão.
Mas Sofia não me olhava como quem esperava uma dívida.
"Eu vou."
No sábado, nos encontramos diante de uma galeria em Pinheiros. Ela me entregou um café com pouco açúcar sem perguntar o que eu preferia.
"Como sabia?"
"Você tomava assim na cantina."
"Você observava muita coisa."
"É meu trabalho."
Vimos as fotografias, conversamos sobre cinema e rimos de alguns figurinos antigos. Com Sofia, o silêncio não parecia uma punição. Era apenas silêncio.
Ao sairmos, ela pediu uma foto nossa diante da fachada.
Camila, que viera prestigiar a exposição, apareceu no instante em que Sofia se aproximou de mim.
"Finalmente uma prova de que o Encore funciona", brincou.
"Nós não nos conhecemos pelo aplicativo", respondi.
Camila tirou a foto antes que eu terminasse.
Mais tarde, no metrô, recebi um e-mail sem assunto.
O remetente era Isadora.
Não podia me alcançar pelo telefone nem pelas redes, então usara o endereço profissional que constava no antigo contrato.
Havia apenas duas linhas.
"Camila me enviou uma fotografia. Não sabia que você já estava conhecendo alguém."
Embaixo, ela acrescentara:
"Também não sabia que você já tinha outro contrato."
Li a mensagem duas vezes.
Depois arquivei sem responder.
Isadora havia descoberto que eu não estava mais esperando.
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