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"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 4 — Eu Assinei a Rescisão

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Capítulo 4 — Eu Assinei a Rescisão

Na manhã seguinte, a frase de Isadora continuava presa na minha cabeça.

"Faça como achar melhor."

Eu a ouvira dizer aquilo a Otávio sem sequer levantar os olhos do celular.

Talvez estivessem falando de outra pessoa. Talvez "resolver a situação" significasse apenas trocar meu agente, como ela havia sugerido na van.

Passei a noite inteira criando explicações que Isadora não me pedira para criar.

Às nove, encontrei Leandro esperando diante da sala de reuniões do setor jurídico.

Ele não fez nenhuma piada sobre meu atraso. Também não mandou que eu baixasse a cabeça.

Só evitou meus olhos.

"O que aconteceu?"

"Entre."

Otávio estava sentado na cabeceira da mesa. Ao lado dele, uma advogada da Aurora organizava três vias do mesmo documento.

Reconheci o título antes de me aproximar.

Termo de Rescisão Contratual.

O arquivo que eu havia deixado inacabado no meu computador parecia ter atravessado a cidade e chegado ali antes de mim.

"Sente-se, Noah", disse Otávio.

Permaneci de pé.

"A presidente sabe que o senhor está conduzindo uma rescisão de artista dentro da empresa dela?"

"Foi a própria Isadora quem autorizou."

Ele virou o celular sobre a mesa.

Na tela, havia uma captura da conversa entre os dois.

Otávio: "Quer que eu resolva a situação daquele artista que pode atrapalhar nossos projetos?"

Isadora: "Faça como achar melhor."

Eu não precisava da imagem. Tinha ouvido a resposta com meus próprios ouvidos.

Mesmo assim, vê-la escrita transformou a dúvida em alguma coisa sólida.

"Ela está no Rio", continuou Otávio. "Não quis adiar uma decisão simples por causa de alguém que mal participa do faturamento da empresa."

A advogada empurrou os papéis em minha direção.

"A Aurora propõe encerramento imediato, sem multa para nenhuma das partes."

Peguei a primeira via.

Havia cláusulas sobre confidencialidade, uso de imagem, pagamentos pendentes e retirada do catálogo. Li cada linha.

Otávio perdeu a paciência antes de eu chegar à segunda página.

"Não precisa fingir que tem poder de negociação. Você queria sair. Estamos apenas facilitando."

"Eu tenho poder para não assinar um documento que não li."

"E fazer o quê? Exigir que Isadora volte do festival para segurar sua mão?"

Levantei os olhos.

"Não mencione a mão dela quando está tentando usar a assinatura dela sem que esteja presente."

Leandro prendeu a respiração.

Otávio se inclinou para a frente.

"Você é um figurante que confundiu uma lembrança de adolescência com importância. Isadora administra uma empresa avaliada em centenas de milhões. Você aparece morto no fundo de uma cena."

"E ainda assim o senhor precisou organizar uma reunião jurídica para se livrar de mim."

O sorriso dele desapareceu.

Voltei ao contrato.

A cláusula de imagem permitia à Aurora manter meu rosto no catálogo por cinco anos. Risquei o trecho.

"Quero a retirada completa do meu material promocional em trinta dias. Quero cópia de todos os comprovantes de cessão de imagem e o pagamento das duas diárias em atraso."

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A advogada olhou para Otávio.

"Também quero a lista dos testes submetidos em meu nome nos últimos três anos. Pedi isso formalmente ontem."

Leandro finalmente falou:

"Essa lista não faz parte da rescisão."

"Então registre por escrito que a empresa se recusou a fornecê-la."

Ele ficou pálido.

Otávio bateu os dedos sobre a mesa.

"Aceite as alterações de imagem e pagamento", ordenou à advogada. "A lista será avaliada pelo departamento competente."

"Avaliada não significa entregue."

"É a oferta final."

Pedi uma caneta.

Minha mão não tremia. Isso me surpreendeu.

Assinei a primeira via, depois a segunda e a terceira.

Noah Han Ribeiro.

Durante três anos, aquele nome pertencera a uma empresa que quase nunca o colocava nos créditos. Agora voltava a ser apenas meu.

A advogada me entregou uma via carimbada e confirmou por e-mail o prazo dos pagamentos.

Guardei os dois documentos na mochila.

"Desejo sucesso", disse Otávio. "Você vai precisar."

"O senhor também. Quando Isadora descobrir que tomou uma decisão sem participar dela."

Por um instante, vi alguma coisa vacilar nos olhos dele.

Foi rápido.

Mas eu vi.

Babi me esperava do lado de fora.

"Você assinou?"

"Assinei."

"Noah, eu tentei ligar para Isadora. A equipe dela está em reunião desde cedo. Podemos suspender isso até ela voltar."

"Não quero uma suspensão."

"Você não sabe o que houve."

"Se ela não autorizou, escolheu alguém em quem não podia confiar para falar por ela. Se autorizou, decidiu que eu era descartável. Em nenhum dos casos devo continuar aqui."

Babi fechou os olhos por um segundo.

"E agora?"

"Agora eu descubro se sei atuar quando ninguém me mantém preso por um contrato."

Esvaziei meu armário.

Um par de sapatos, duas camisas de teste, uma caneca rachada e o crachá da Aurora. Dentro da carteira, encontrei a embalagem da bala de nêspera que Isadora me dera.

Eu a havia dobrado até virar um pequeno quadrado.

Pensei em jogá-la fora.

Guardei-a de novo.

Não porque ainda esperasse alguma coisa. Apenas porque apagar uma lembrança não mudava o que ela tinha sido.

Entreguei o crachá na recepção e atravessei as portas de vidro sem olhar para trás.

Do lado de fora, bloqueei o número de Isadora.

Depois bloqueei o perfil dela no Encore e removi nosso contato das redes sociais.

Não houve alívio imediato. Só um vazio silencioso, como quando as luzes de um set se apagam antes de desmontarem o cenário.

Meu celular tocou enquanto eu caminhava até o metrô.

Era um número desconhecido.

"Noah Ribeiro? Aqui é Marcelo Tavares, da Cena Livre. Recebemos seu teste para a série policial. Você pode vir conversar amanhã?"

Parei no meio da calçada.

"Sobre o teste?"

"Sobre o teste e sobre representação. Somos pequenos, não prometemos capa de revista. Mas assistimos às suas duas cenas três vezes."

Ninguém jamais me dissera que havia assistido ao meu trabalho três vezes.

"Estarei aí."

No dia seguinte, assinei com a Cena Livre um contrato simples, renovável por um ano. Sem exclusividade abusiva, sem promessa de fama e sem qualquer ligação com Isadora Salles.

Quando saí da pequena sala de Marcelo, recebi uma mensagem de Babi.

"Ela voltou."

Em seguida, veio outra.

"Viu que tiraram sua foto da parede e perguntou onde você estava."

Olhei para a tela por alguns segundos.

Então a guardei no bolso.

Pela primeira vez em dez anos, Isadora havia chegado depois que eu já tinha ido embora.

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