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"Meu marido desapareceu em 2005. No meu aniversário, ganhei um cartão com os dizeres "OLHE NO PORÃO"." Capítulo 3 — A Vida de Marcelo Braga

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Capítulo 3 — A Vida de Marcelo Braga

Na manhã seguinte, procurei um investigador particular.

Não contei a história inteira ao telefone. Disse apenas que precisava localizar um homem desaparecido havia vinte anos e verificar se ele usava outro nome.

Duas pessoas recusaram o caso. A terceira, Joana Prado, pediu que eu levasse somente cópias dos documentos.

Seu escritório ficava sobre uma loja de conserto de celulares no centro de Petrópolis. Não havia persianas fechadas nem fotografias de perseguições nas paredes. Havia uma mesa limpa, duas cadeiras e uma mulher de cabelos curtos que leu cada página antes de fazer a primeira pergunta.

"Por que a senhora acredita que ele ainda está vivo?"

Empurrei a fotografia do Natal de 2006 na direção dela.

"Porque meu marido desapareceu em 2005."

Joana olhou a foto, depois a cópia do documento de Marcelo Braga.

"E por que esperou até agora?"

Coloquei o cartão dentro do plástico sobre a mesa.

Ela não tocou nele.

"A letra é dele?"

"É."

"Isso não significa que foi ele quem entregou."

"Eu sei."

Joana me observou por alguns segundos, talvez avaliando se eu buscava fatos ou apenas alguém que confirmasse aquilo em que queria acreditar.

"O que exatamente a senhora quer que eu descubra?"

Eu tinha ensaiado muitas respostas. Queria perguntar por que Renato me abandonara, se amava aquela mulher, se pensara em Beatriz diante do rio.

Nenhuma delas serviria a Joana.

"Quero saber se Marcelo Braga existe, onde mora e se é o mesmo homem que se chamava Renato Avelar. Não se aproxime da família. Não quero que ninguém seja avisado."

Ela assentiu.

"Dez dias. Talvez menos."

Saí do escritório sem me sentir aliviada. A verdade não era mais uma ideia escondida no porão. Tinha datas, nomes e uma profissional encarregada de confirmá-la.

Durante os sete dias seguintes, mantive minha rotina. Comprei pão na mesma padaria, cuidei das hortênsias e falei com Beatriz todas as noites.

Também troquei o trinco da janela do porão, instalei um sensor de movimento e deixei a caixa metálica vazia dentro do compartimento.

Quem voltasse encontraria o esconderijo intacto e as provas ausentes.

No oitavo dia, Joana ligou.

"Encontrei Marcelo Braga."

Sentei-me no primeiro degrau da varanda.

"Está vivo?"

"Está. Mora em Juiz de Fora com Denise Sampaio. Trabalhou anos como representante de uma distribuidora de material didático e hoje presta consultoria para escolas particulares. Tenho endereço, registros públicos e imagens recentes."

Ela fez uma pausa.

"Lúcia, pelas fotografias e pelos sinais físicos, é muito provável que seja seu marido. Mas eu gostaria que a senhora identificasse uma característica que não apareça nos documentos."

Pensei na cicatriz sob o joelho direito, resultado de uma queda de bicicleta. No dente levemente torto. No jeito de apertar os lábios antes de mentir.

Então me lembrei do papel.

"Ele dobra recibos em quatro partes iguais e alisa cada dobra com a unha do polegar. Nunca os amassa."

正文1

Dois dias depois, sentei-me no banco do passageiro do carro de Joana, estacionado diante de uma padaria em Juiz de Fora.

Eu havia insistido em ir.

Não queria que a primeira confirmação viesse por uma mensagem ou por mais uma fotografia. Durante vinte anos, outras pessoas tinham me explicado o que provavelmente acontecera com meu marido. Desta vez, eu veria.

Às dez e vinte, um homem saiu da padaria carregando uma sacola de pão e um copo de café.

O tempo não parou.

Foi pior. Continuou normalmente enquanto meu corpo esquecia como respirar.

Renato estava mais grisalho e um pouco curvado. Usava óculos que eu nunca tinha visto e uma camisa verde de mangas dobradas. Ainda caminhava apoiando mais peso na perna esquerda.

Ele parou ao lado de um carro prata, colocou o café sobre o teto e conferiu o recibo.

Depois o dobrou ao meio.

Dobrou novamente.

Passou a unha do polegar sobre as bordas e guardou o quadrado perfeito na carteira.

"É ele", eu disse.

Minha voz não tremeu.

Renato abriu a porta do carro, mas não entrou. Virou o rosto em nossa direção.

Os vidros estavam fechados e o reflexo do céu escondia parte do interior. Mesmo assim, senti os olhos dele atravessarem o para-brisa.

"Não se abaixe", Joana murmurou. "Isso chamaria atenção."

Mantive o rosto voltado para a rua. Renato ficou parado por alguns segundos. Em seguida, entrou no carro e partiu.

Eu o acompanhei pelo espelho até desaparecer na esquina.

Não chorei.

Ao longo de duas décadas, imaginei aquele reencontro milhares de vezes. Em algumas versões, eu corria até ele. Em outras, gritava ou lhe dava um tapa.

Na realidade, apenas anotei a hora.

"Agora preciso saber quem consultou os dados da minha casa", falei.

Joana levantou uma sobrancelha.

Contei sobre a tentativa de abrir a janela. Mostrei o vídeo, a marca do sapato e o horário. Ela pediu uma cópia.

Na volta a Petrópolis, Joana recebeu uma resposta de um contato que verificava registros comerciais e imobiliários acessíveis.

"Alguém pesquisou seu endereço há três semanas", disse. "A consulta saiu de uma empresa de contabilidade em Juiz de Fora."

"De Denise?"

"Ainda não sei. A empresa está ligada a ela, mas isso não prova quem fez a pesquisa."

Guardei a advertência. Eu já havia sido ferida por conclusões construídas sem provas.

Quando cheguei em casa, a porta estava trancada. O sensor do porão não registrara movimento. Mesmo assim, antes de subir, fui até a sala de jantar e abri a caixa metálica vazia.

Uma fotografia estava lá dentro.

Eu tinha guardado todas as imagens numa pasta no armário do escritório. Conferi a sequência no vídeo da manhã em que abri a caixa. Aquela fotografia aparecia entre a oitava e a nona.

Agora estava sozinha, bem no centro do fundo metálico.

Mostrava Renato, Denise e Caio diante da casa branca.

No verso, alguém escrevera com tinta azul:

"Ele sabe que você encontrou."

Meu celular tocou antes que eu pudesse fotografar a mensagem.

O nome de Beatriz apareceu na tela.

Atendi imediatamente.

"Mãe", ela disse, sem me desejar boa noite. "Aconteceu uma coisa estranha."

Olhei para a fotografia dentro da caixa.

"O que foi?"

"Um homem chamado Marcelo Braga acabou de me mandar uma mensagem."

O porão permaneceu silencioso atrás de mim.

Então Beatriz completou:

"Ele disse que conhecia meu pai."

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