"Meu marido desapareceu em 2005. No meu aniversário, ganhei um cartão com os dizeres "OLHE NO PORÃO"." Capítulo 1 — O Cartão Debaixo da Porta
Capítulo 1 — O Cartão Debaixo da Porta
O cartão chegou na manhã em que completei sessenta e quatro anos.
Não tinha selo nem endereço do remetente. Estava caído no piso da sala, junto com um folheto de supermercado, como se alguém o tivesse empurrado por baixo da porta durante a madrugada.
Na frente, meu nome aparecia escrito à mão: Lúcia.
Reconheci a letra antes mesmo de tocar no envelope.
Renato inclinava as palavras para a direita e fazia o traço do T comprido demais. Durante vinte e quatro anos de casamento, eu tinha visto aquela caligrafia em listas de compras, provas de História e bilhetes deixados ao lado da cafeteira.
Também a tinha visto pela última vez em julho de 2005.
Meu coração começou a bater com tanta força que precisei me apoiar na cristaleira. Fiquei olhando para o envelope enquanto a chaleira apitava na cozinha.
Renato estava desaparecido havia vinte anos.
Peguei o cartão pelas bordas. Era barato, decorado com flores lilases e uma frase impressa sobre recomeços. Dentro, havia apenas quatro palavras em letras maiúsculas:
"OLHE NO PORÃO."
Sentei-me no sofá sem sentir as pernas.
Em 18 de julho de 2005, Renato saiu de casa dizendo que compraria leite. Dois dias depois, a polícia encontrou nosso carro numa via estreita perto do Rio Piabanha. A carteira, o celular e a aliança estavam sobre o banco do passageiro.
O corpo nunca apareceu.
Os investigadores falaram em queda voluntária no rio, correnteza e ausência de testemunhas. Eu me agarrei a outras hipóteses até não ter mais forças: amnésia, assalto, acidente, qualquer coisa que permitisse imaginar que ele ainda tentava voltar.
Beatriz tinha vinte e dois anos. Ficou ao meu lado no memorial, diante de um caixão vazio, segurando minha mão como se fosse ela a mãe e eu, a filha.
Durante anos, acordei com a certeza de que havia perdido algum sinal. Depois passei a acreditar que eu mesma tinha sido o motivo.
Agora, a letra dele estava na minha sala.
Meu primeiro impulso foi ligar para Beatriz. Ela morava em Brasília e sempre telefonava no meu aniversário antes das oito. Parei com o celular na mão.
Se aquilo fosse uma crueldade, eu não a obrigaria a enterrar o pai pela segunda vez antes de saber o que estava acontecendo.
Fotografei o envelope dos dois lados. Coloquei-o, com o cartão, dentro de um saco plástico transparente. Depois abri o aplicativo da câmera que Beatriz mandara instalar sobre a garagem.
Às três e dezessete da madrugada, uma figura de capuz apareceu junto ao portão. O rosto ficou escondido atrás de um guarda-chuva escuro. A pessoa atravessou o jardim sem acender nenhuma luz, permaneceu quarenta segundos diante da porta e foi embora a pé.
Não parecia um entregador perdido.
Assisti ao vídeo três vezes. Na última, percebi que a pessoa não procurava o número da casa. Sabia exatamente onde estava.
Tranquei a porta e fui buscar a lanterna na gaveta da cozinha.
Minha casa ficava numa ladeira de Valparaíso, em Petrópolis. Tinha sido construída na década de 1950, quando se faziam paredes grossas, corredores estreitos e porões parcialmente enterrados na encosta.
Renato passara os últimos meses antes de desaparecer naquele porão.
Dizia que estava separando livros antigos e consertando infiltrações. Quando eu descia para oferecer café, encontrava a porta fechada e recebia respostas curtas.
Na época, pensei que ele estivesse deprimido.
Talvez fosse mais fácil acreditar numa doença do que admitir que meu marido não queria mais minha presença.
A porta do porão rangeu quando girei a maçaneta. O cheiro de madeira úmida e tinta velha subiu pela escada. A lâmpada no teto não funcionava, por isso liguei a lanterna e desci devagar.
Eu só entrava ali uma ou duas vezes por ano. As caixas de Natal continuavam empilhadas perto da escada. A bicicleta de infância de Beatriz estava encostada atrás de uma estante. Sobre uma mesa, coberta por um lençol, permanecia a máquina de escrever que Renato jurava que um dia consertaria.
Nada parecia diferente.
Até eu apontar a luz para a parede do fundo.
Havia um retângulo mais claro junto ao antigo aquecedor. A tinta ao redor escurecera com os anos, mas aquela parte continuava lisa, quase sem poeira.
Aproximei-me e passei os dedos pela superfície. Encontrei uma linha vertical fina demais para ser uma rachadura. Embaixo, perto do rodapé, havia uma pequena depressão.
Pressionei-a.
Um painel de madeira se soltou com um estalo seco.
Dei um passo para trás. Minha mão tremia tanto que o feixe da lanterna percorreu o teto, as caixas e o chão antes de voltar ao buraco.
Atrás do painel havia uma cavidade estreita. Dentro dela, uma caixa metálica ocupava quase todo o espaço.
Eu poderia ter ligado para a polícia. Poderia ter esperado Beatriz chegar. Em vez disso, coloquei o celular sobre uma prateleira, iniciei uma gravação e disse em voz alta a data, a hora e o que eu estava vendo.
Depois puxei a caixa.
Era pesada. O metal raspou no cimento, produzindo um som que pareceu acordar a casa inteira.
Não estava trancada.
Levantei a tampa.
Em cima havia um envelope de fotografias. Tirei a primeira.
Renato aparecia diante de uma igreja que eu não conhecia, usando o paletó azul que vestira na formatura de Beatriz. Ao lado dele, uma mulher morena sorria para a câmera. Ele segurava a cintura dela com uma intimidade que não deixava espaço para explicações inocentes.
Na fotografia seguinte, a mesma mulher carregava um bebê. Renato estava inclinado sobre os dois, sorrindo de um jeito que eu não via desde antes de nossa filha sair de casa.
Virei a foto.
"Marcelo, Denise e Caio — Natal de 2006."
Tive de me sentar no chão.
Havia mais imagens. Aniversários, almoços, uma praia, uma casa com varanda. Em todas elas, Renato parecia perfeitamente vivo. Mais velho a cada ano, mas vivo.
Debaixo das fotografias encontrei a cópia de uma carteira de identidade. O rosto era o dele. A data de nascimento tinha sido alterada em dois anos.
O nome impresso no documento não era Renato Avelar.
Era Marcelo Braga.
Ouvi um carro diminuir a velocidade na rua e apaguei a lanterna por instinto. Permaneci imóvel, abraçada à caixa, até o motor se afastar.
Então olhei novamente para o documento.
Durante vinte anos, eu perguntara onde meu marido tinha morrido.
Naquela manhã, entendi que essa nunca havia sido a pergunta certa.
Renato não tinha desaparecido do mundo.
Ele tinha desaparecido de mim.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 15
[A Beleza Tímida e O Bilionário]
Trabalhar como garçonete em New Jersey não era exatamente o trabalho dos sonhos de Analeina, mas ela conseguiu encaixá-lo em sua vida, embora sempre desejasse por uma nova oportunidade ou aventura. Quando Analeina derrama acidentalmente café quente em um dos bilionários e solteirões mais cobiçados de New Jersey, Jaxon Terrace, ela não esperava que aquilo se tornasse sua oportunidade. Quando o bilionário irritado exige que ela pague pelas roupas que ela arruinou, ela admite não ter dinheiro, mas o Bilionário não aceita isso. Ele a aceita em seu emprego por um período de tempo como sua secretária para que ela possa pagar pelas roupas. No entanto, quando o prazo se encerra e a dívida é paga, Jaxon não está pronto para deixar Analeina ir embora. Porém, quando ela não está muito animada em permanecer em seu emprego, a besta dentro dele aparece e a tímida beleza se torna sua única vítima. Jaxon conquistará o amor de Analeina no final, ou ela o verá como nada mais que uma besta indigna e sem merecimento de amor?Moderno|Romance08 23 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4 -
TerminadoCapítulo 10
O 12º Beijo
“Cinderela tinha até meia-noite, tenho doze beijos para reconquistar o coração do meu príncipe”, John quer que Metilda termine o casamento. Ele acredita que se apaixonou por outra mulher. Metilda concorda, mas tem uma condição. John deve beijá-la todas as tardes na frente do filho durante doze dias. No 12º beijo, algo inesperado acontece……Moderno|Fantasia08 7 -
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 10
O Alpha me quer
Um mundo onde os humanos desprezam os lobisomens não porque os conhecem pessoalmente, mas sim por medo deles. Stella Morgan é apenas uma mulher de 20 anos comum, trabalhando duro para se manter na faculdade e no emprego; ela sabia sobre lobisomens, mas nunca havia conhecido um até o dia em que chegou em casa e descobriu que os lobisomens estavam visitando sua cidade, não apenas uma visita qualquer; o alpha estava procurando uma companheira…Alpha|Fantasia08 13 -
TerminadoCapítulo 1
Laços do Destino: A Noiva Substituta
Avelyn Harrison, uma jovem de 18 anos, que acabou de dar seu CBSE, voltou para casa para o casamento de sua irmã mais velha. Mal sabia ela que esse casamento mudaria completamente sua vida...Moderno|Romance4338 4 -
TerminadoCapítulo 2
A Muda Sra. Bilionária
Emma Campbell, a única herdeira da Campbell & Co. Um acidente na infância a deixou muda. Ser muda nunca a tornou fraca, mas mais forte e feroz. Asher King da King Corp. Ele é um empresário impiedoso e faria qualquer coisa pela empresa. As garotas veneram o chão por onde ele passa. O que acontece quando o destino os junta? Eles sobreviverão juntos ou se separarão?Moderno|Romance08 4 -
TerminadoCapítulo 1
Paixão proibida: Um romance da máfia
Lucien, o Rei da Máfia, conhecido como o Diabo. Heloísa, conhecida como anjo. Os dois são arranjados para se casar, forçados pelos pais, juntando-se às duas máfias. Mas Heloísa acaba descobrindo que até o diabo já foi um anjo.Romance1.3 mil palavras8 2