"A Garota Encontrou Sua Foto na Carteira do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — O Pagamento de Lúcia
O técnico de áudio chegou à mansão pouco depois das seis da manhã.
Chamava-se Henrique Salles e trouxera três computadores que nunca haviam sido conectados à rede dos Montenegro. Raul revistou os equipamentos antes de permitir sua entrada.
Clara colocou a fita sobre a mesa do antigo escritório de Álvaro.
“Quero ouvir cada palavra.”
Henrique examinou a película.
“Alguém cortou dois trechos, inverteu um deles e cobriu as emendas com uma gravação vazia. Posso recuperar parte do áudio, mas não prometo tudo.”
Dante permaneceu junto à janela. Desde que vira a descrição do pagamento, não falara sobre o pai.
Helena observava a agenda de Álvaro como se esperasse que o marido morto ainda pudesse explicar sua decisão.
“Comece”, ordenou Dante.
Enquanto Henrique trabalhava, Raul investigou o carro usado pelo homem que fotografara Lúcia. A placa levava a uma empresa encerrada dois meses depois do sequestro. Um dos antigos sócios era motorista de Otávio Ferraz.
“Ele morreu há quinze anos”, explicou Raul. “Acidente na Rodovia dos Bandeirantes.”
“Quantas pessoas ligadas àquela noite morreram em acidentes?”, perguntou Clara.
“Cinco”, respondeu Helena.
O número silenciou a sala.
Clara abriu os prontuários recuperados do hospital. Lúcia atendera um paciente sem nome na madrugada de 15 de agosto. O jovem apresentava desidratação, sedação e ferimentos nos pulsos.
O prontuário desaparecera do arquivo oficial, mas Lúcia guardara uma cópia.
No campo destinado ao responsável, escrevera apenas uma letra: H.
“Helena?”, perguntou Clara.
A mãe de Dante confirmou.
“Eu a encontrei na saída de serviço. Dante estava escondido na ambulância. Lúcia me entregou a chave e mandou que eu dirigisse sem parar.”
“E Álvaro?”
“Esperava num posto da estrada. Quando nos viu, abraçou Dante e pediu perdão.”
Dante virou-se.
“Por que pediria perdão se estava me salvando?”
“Porque sabia do plano antes que você fosse levado.”
Helena revelou que Álvaro recebera uma ameaça dois dias antes. Se procurasse a polícia, Dante seria morto. Ele organizara a falsa retirada com Lúcia, mas não impedira o primeiro sequestro porque tentava descobrir quem, dentro da família, participava.
“Ele usou o próprio filho como isca”, disse Dante.
“Acreditou que conseguiria controlar o risco.”
“E falhou.”
Clara viu a dor se transformar em raiva.
“Seu pai tomou uma decisão terrível. Isso não significa que desejasse seu sofrimento.”
“Você o está defendendo?”
“Estou dizendo o que disse sobre minha mãe. Uma prova não é a história inteira.”
Henrique pediu silêncio. Conseguira restaurar um fragmento.
A voz de Lúcia surgiu entre estalos.
“Álvaro sabia que o menino seria levado. Foi seu pai quem pagou para levarem você.”
O áudio terminou.
Dante afastou a cadeira com violência.
“Chega.”
“A frase continua”, disse Henrique. “Há outra emenda.”
“Quanto tempo?”
“Algumas horas.”
Dante saiu.
Clara o encontrou na antiga sala de música. Um piano fechado ocupava o centro. Sobre ele havia uma fotografia de Álvaro segurando o filho ainda criança.
“Ele sabia”, disse Dante. “Poderia ter me tirado de São Paulo, mas permitiu que me colocassem dentro daquele carro.”
“Talvez acreditasse que impediria algo maior.”
“Você sempre encontra uma explicação para os mortos.”
“Porque eles não podem responder quando os vivos escolhem a pior versão.”
Dante abriu o piano. Tocou as primeiras notas da música da caixa.
“Minha mãe tocava quando eu acordava gritando.”
Clara sentou-se ao lado dele.
“Lúcia cantava para mim.”
As duas famílias haviam usado a mesma melodia para acalmar crianças marcadas pela mesma noite.
“Se Álvaro participou, vou tornar público”, disse Dante.
“Mesmo que perca o grupo?”
“Se foi construído sobre isso, não me pertence.”
Clara percebeu que ele falava a verdade.
O telefone dela recebeu uma imagem. Era o vestido vermelho de sua infância, estendido sobre uma mesa que não reconhecia.
A mensagem trazia um endereço e uma ordem:
Venha sozinha se quiser ouvir o restante.
Clara apagou a mensagem, mas antes fotografou a tela com o aparelho antigo de Lúcia. Deixou a imagem dentro da caixa de música, sob o mecanismo da bailarina.
Não queria colocar Dante em perigo. Também não queria desaparecer sem deixar uma pista.
No corredor, encontrou Helena.
“Você está indo a algum lugar?”
“Preciso respirar.”
Helena notou o casaco e os sapatos.
“Lúcia usava a mesma expressão quando já havia tomado uma decisão.”
Clara quase contou. Então lembrou que alguém fotografara seu quarto dentro da mansão. Ainda não sabia quem podia ouvir.
“Se eu não voltar, entregue a caixa a Dante.”
“Clara...”
“Prometa.”
Helena segurou seu braço.
“Eu prometi proteger você há vinte anos e obedeci ficando distante. Foi um erro. Proteção sem verdade também aprisiona.”
Clara tocou a mão dela.
“Desta vez, deixe que eu escolha o risco.”
Saiu pela cozinha, trocou de carro duas vezes e caminhou três quarteirões antes de chegar ao depósito. Ainda assim, um veículo escuro acompanhou parte do trajeto.
Dentro do prédio, encontrou marcas recentes no chão e um cabo ligado ao gravador. A fita que tocaria não era o original. Alguém preparara apenas o trecho necessário para atraí-la.
Clara colocou o celular no silencioso e enviou a localização a Joana com uma única palavra: música.
Quando ouviu os passos de Otávio, já sabia que não fora chamada para receber uma resposta.
Fora chamada para entregar a prova que ele acreditava que Lúcia escondera com ela.
Antes de atravessar a última porta, Clara encontrou no chão uma flor de metal idêntica à da bengala. Não era descuido. Otávio queria que ela soubesse quem a esperava e entrasse mesmo assim.
Ela apertou a chave escondida na mão. Durante toda a vida, Lúcia tentara afastá-la daquele homem. Agora Clara entraria não por imprudência, mas porque somente ele podia revelar qual metade da verdade ainda faltava.
Clara não contou a Dante. Se o remetente estivesse observando a mansão, qualquer escolta colocaria Joana em risco.
Saiu pela entrada de serviço durante a troca dos seguranças e pegou um carro por aplicativo até a Mooca.
O endereço levava a um depósito abandonado. A porta estava aberta.
No centro havia um gravador e uma fotografia. A imagem mostrava Álvaro diante do hospital, segurando a mão de Dante encapuzado.
Clara apertou o botão.
Lúcia falava:
“Álvaro pagou para retirarem Dante porque sabia que o primeiro sequestro falharia. O segundo homem precisava levá-lo antes que...”
A frase foi interrompida por um ruído.
Passos surgiram atrás dela.
Otávio entrou apoiado na bengala.
“Sua mãe sempre falava demais.”
Clara recuou até a mesa.
“Foi o senhor quem alterou a fita?”
“Eu apenas corrigi uma história perigosa.”
“Minha mãe morreu por causa dessa história?”
Otávio retirou a lâmina escondida na bengala.
“Lúcia morreu porque não entendeu que silêncio também pode ser uma forma de proteção.”
“Proteção para quem?”
“Para Dante. Para Helena. Para tudo que Álvaro construiu.”
O celular de Clara estava no bolso, transmitindo sua localização para Joana. Ela precisava manter Otávio falando.
“O senhor ordenou o sequestro?”
“Uma costureira não faz perguntas a homens como eu.”
“Minha mãe era enfermeira e fez.”
Otávio encostou a lâmina em seu vestido.
“E veja onde isso a levou.”
A porta lateral explodiu para dentro.
Dante entrou com Raul. Otávio acionou uma cortina de fumaça e desapareceu por uma passagem nos fundos.
Na fuga, deixou a bengala.
Raul abriu a empunhadura. Dentro dela estava a parte retirada da fita.
Henrique encaixou o fragmento no gravador.
Antes de reproduzir, avisou:
“O que vocês ouviram termina no meio de uma única frase. A próxima palavra muda tudo.”
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