"A Garota Encontrou Sua Foto na Carteira do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — O Homem em Quem Ele Mais Confiava
Raul guardou a caixa, a fita e o negativo numa maleta resistente ao fogo. Dante cobriu o rosto de Clara com o próprio paletó e conduziu-a pelo corredor tomado de fumaça.
A saída principal estava bloqueada. Eles quebraram uma janela lateral e alcançaram o estacionamento segundos antes de uma explosão destruir o laboratório.
Nenhum funcionário morreu, mas todos os computadores foram queimados.
“Não foi para nos matar”, disse Raul. “Foi para destruir as cópias.”
Dante ergueu a maleta.
“A pessoa não sabia que as retiramos.”
Clara olhou para as chamas.
“Otávio nos convida para jantar e o laboratório pega fogo.”
“Pode ser exatamente o que querem que pensemos.”
“Você ainda o protege.”
“Estou impedindo que nosso verdadeiro inimigo use a minha raiva.”
Dante decidiu aceitar o convite. Raul protestou, mas ele pretendia observar Otávio antes que soubesse quais provas haviam sobrevivido.
Clara poderia permanecer numa casa segura.
“Eu vou ao jantar.”
“Não.”
“O convite foi para mim.”
“Isso não o torna seguro.”
“Se minha mãe apontou para o homem que sentava à direita de Helena, preciso vê-lo naquela cadeira.”
Dante reconheceu que não conseguiria impedi-la sem transformá-la em prisioneira.
Naquela noite, Clara usou um vestido vinho emprestado por Helena. Não havia luxo exagerado, mas o corte simples valorizava a segurança que ela tentava sentir.
Dante esperava no corredor.
Por um instante, esqueceu a frase que pretendia dizer.
“O vestido está errado?”, perguntou Clara.
“Não.”
“Então pare de olhar como se procurasse uma arma.”
“Estou procurando.”
“E encontrou?”
“Ainda não decidi.”
Otávio Ferraz os recebeu num casarão dos Jardins. Aos sessenta e um anos, conservava a postura elegante de um diplomata. Os cabelos grisalhos estavam impecáveis e uma bengala escura apoiava seu passo.
“A filha de Lúcia. Finalmente.”
Clara não lhe ofereceu a mão.
“O senhor conheceu minha mãe?”
“Toda a família conhecia a mulher que salvou Dante.”
“Por que nunca a procurou?”
“Ela exigiu distância.”
Dante colocou uma cópia do negativo sobre a mesa.
“Foi você quem entregou esse dinheiro?”
Otávio mal olhou a imagem.
“Você não contou a Clara que pagamos o tratamento de Lúcia durante anos?”
“Os pagamentos começaram na noite do sequestro.”
“Porque Lúcia precisava retirar você do hospital sem registrar seu nome. Havia policiais comprados esperando por qualquer notícia.”
Cada resposta parecia preparada.
Durante o jantar, Otávio contou como assumira as empresas depois do assassinato de Álvaro. Falava de Dante como um filho que salvara da ruína.
“Eu o ensinei a sobreviver.”
“Também ensinou a desconfiar de todos?”, perguntou Clara.
“A desconfiança manteve Dante vivo.”
“Minha mãe também.”
Otávio sorriu.
“Lúcia era corajosa. E muito ambiciosa.”
Clara pousou os talheres.
“Está dizendo que ela fez aquilo por dinheiro?”
“Estou dizendo que ninguém arrisca a vida sem desejar alguma coisa.”
Dante percebeu a provocação.
“Você pagava as despesas médicas dela.”
“A pedido de Helena.”
Clara observou a bengala. Na empunhadura havia pequenas flores idênticas às da caixa de música.
“De onde veio esse desenho?”
Otávio passou o polegar sobre o metal.
“Era o selo particular de Álvaro.”
“A caixa de música possui o mesmo símbolo.”
O olhar dele endureceu por um instante.
“Então encontraram a caixa.”
Dante se inclinou.
“Eu não disse que encontramos.”
Otávio recuperou o sorriso.
“Lúcia falava dela. Disse que um dia Clara ouviria a música.”
“Quando disse isso?”
“Pouco antes de adoecer.”
Clara sentiu o coração acelerar. Otávio mantivera contato com Lúcia muito depois de todos alegarem respeitar sua distância.
“O senhor esteve com minha mãe?”
“Ela precisava lembrar quem pagava o tratamento.”
Dante levantou-se.
“O jantar terminou.”
Otávio não tentou impedir.
“Pergunte a Helena por que a caixa que Álvaro deu a ela terminou nas mãos de uma enfermeira.”
Na mansão, Helena confessou que a caixa fora entregue por Álvaro a Lúcia na noite do sequestro. Dentro havia documentos sobre desvios feitos por uma empresa ligada à família.
“Lúcia trouxe Dante e me deu a fotografia de Clara”, contou. “Disse que a menina vira o rosto do homem que pagou os sequestradores.”
“Por que não levou Clara à polícia?”, perguntou Dante.
“Dois investigadores foram mortos naquela semana. Álvaro acreditava que havia homens comprados em toda parte.”
Clara mostrou a fotografia da bengala.
Helena empalideceu.
“Álvaro carregava esse selo. Otávio ficou com a bengala depois que ele morreu.”
“Foi Otávio quem a matou?”, perguntou Clara.
“Não tenho prova.”
Raul entrou trazendo o relatório bancário. Todos os pagamentos feitos a Lúcia haviam saído de uma conta pessoal de Álvaro Montenegro.
O primeiro fora autorizado três horas antes do sequestro.
Na descrição, lia-se:
Serviço contratado: retirada de Dante.
Dante olhou para a mãe.
“Meu pai pagou para que me levassem?”
Helena não respondeu.
Seu silêncio foi pior do que uma confirmação.
Helena pediu que Raul deixasse a sala. Clara também se preparou para sair, mas Dante impediu.
“Ela fica. A mãe dela aparece em cada documento que vocês esconderam.”
Helena abriu um compartimento na escrivaninha de Álvaro e retirou uma agenda. Na página do dia do sequestro havia dois horários: às seis da tarde, uma reunião com Otávio; às nove, a palavra retirada.
“Álvaro descobriu que planejavam levar você”, explicou. “Não confiava na polícia. Criou uma segunda operação para arrancá-lo das mãos dos primeiros sequestradores.”
“Por que nunca me contou?”
“Porque eu não sabia se o plano funcionara como ele esperava. Quando você voltou, Álvaro já suspeitava que alguém de sua equipe o traíra.”
“E decidiu deixar Lúcia sozinha com a culpa?”
“Lúcia exigiu que Clara fosse mantida longe.”
Clara abriu a agenda. Uma página havia sido arrancada depois da data do sequestro.
“Quem ficou com os papéis de Álvaro após a morte?”
Helena respondeu sem olhar para Dante.
“Otávio.”
O laboratório confirmou naquele momento que o frasco encontrado no apartamento de Clara continha o mesmo anticoagulante detectado no sangue de Lúcia antes da morte. A dose fora aumentada gradualmente durante três semanas.
“Alguém a matou devagar”, disse Clara.
Helena sentou-se.
“Otávio visitou Lúcia durante esse período.”
“A senhora sabia?”
“Ele dizia acompanhar o tratamento em nome da fundação.”
Dante ligou para o padrinho e colocou no viva-voz.
“Por que visitou Lúcia antes de ela morrer?”
Otávio não demonstrou surpresa.
“Porque sua mãe pediu.”
Helena balançou a cabeça, negando.
“E por que o senhor guardou isso em segredo?”, perguntou Clara.
“Segredo é uma palavra usada por pessoas que desconhecem acordos antigos.”
“Que acordo?”
“Pergunte a Helena quem escolheu Lúcia para retirar Dante.”
A ligação terminou.
Dante encarou a mãe.
“Foi você?”
Helena chorou pela primeira vez.
“Fui eu quem entregou o nome de Lúcia a Álvaro.”
“Então conhecia o plano.”
“Conhecia apenas a tentativa de resgate.”
Clara aproximou a agenda da luz. Sob a folha arrancada, a pressão da caneta deixara marcas. Esfregou grafite suavemente sobre o papel.
Uma frase surgiu:
Se a segunda retirada falhar, Otávio ficará com o menino.
Dante leu em silêncio.
O pagamento de Álvaro não provava que ele ordenara o primeiro sequestro. Provava que sabia que o próprio filho seria levado.
Mas ainda não explicava por que Lúcia dissera que o pai de Dante pagara para levá-lo.
Nem por que Otávio parecia conhecer cada palavra da gravação antes que ela fosse recuperada.
Dante fechou a agenda.
“Amanhã ouviremos a fita inteira.”
Clara segurou a caixa de música.
“E se a verdade condenar seu pai?”
“Então eu mesmo direi o nome dele.”
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