"A Garota Encontrou Sua Foto na Carteira do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — A Caixa de Música
Raul abriu a fita. Parte da película havia sido removida e recolocada de forma invertida. A emenda não era recente.
“Alguém alterou isto antes de Lúcia esconder a caixa.”
Clara examinou o negativo contra a luz. Via a silhueta da mãe ao lado de um carro e um envelope entre duas mãos.
“Precisamos revelar.”
O laboratório particular de Dante ficava numa empresa de segurança. Para evitar vazamentos, Raul acompanhou cada etapa.
A imagem ampliada mostrava Lúcia recebendo dinheiro de um homem fora do enquadramento. Na porta do carro aparecia o brasão Montenegro.
Dante aproximou a fotografia.
“Sua mãe recebeu dinheiro naquela noite.”
Clara sentiu a frase como uma acusação.
“Ela também tirou você daquele depósito.”
“Uma coisa não apaga a outra.”
“Está dizendo que ela ajudou no sequestro?”
“Estou dizendo que ainda não sabemos.”
“Você condenou minha mãe no momento em que viu o envelope.”
Dante voltou-se para ela.
“E você decidiu que qualquer prova contra Lúcia foi fabricada.”
“Porque conheci a mulher que passou a vida cuidando de pessoas que não podiam pagar.”
“Eu conheci um pai que me ensinou lealdade. Se ele esteve envolvido, também quero saber.”
Clara percebeu que a dureza dele escondia o mesmo medo que ela sentia.
Os dois podiam descobrir que haviam amado pessoas capazes de destruí-los.
Dante tocou a fotografia.
“Não vou esconder isto de você.”
“Por quê?”
“Porque alguém escondeu de nós por vinte anos.”
O telefone dele recebeu uma mensagem de Otávio Ferraz.
Traga a filha de Lúcia para jantar. Chegou a hora de ela conhecer a gratidão dos Montenegro.
Junto havia uma fotografia de Clara dormindo no quarto de hóspedes na noite anterior.
Alguém dentro da mansão registrara a imagem.
“Ele sabe que estou com você.”
“Sabe mais do que deveria”, respondeu Dante.
Raul verificou o bilhete sob luz ultravioleta. Entre as fibras surgiu uma segunda mensagem escrita por Lúcia:
O homem que me pagou sentava à direita de Helena.
Dante conhecia a disposição de todos os jantares da família.
À direita de Helena sempre se sentava Otávio.
Clara fechou a caixa, mas a bailarina continuou girando. Quando a música chegou à última nota, uma peça interna se soltou.
Dentro do vestido de porcelana havia um pequeno rolo de papel com um número de conta e uma única inicial:
O.F.
Antes que pudessem examinar, o alarme de incêndio disparou.
Fumaça começou a entrar pelo sistema de ventilação do laboratório.
Alguém não queria que saíssem levando a música completa.
Raul conduziu os dois por uma escada de manutenção enquanto a fumaça descia. No andar inferior, encontraram um técnico desacordado junto ao painel de ventilação.
Clara ajoelhou-se e verificou sua respiração, repetindo os gestos que aprendera com Lúcia. O homem abriu os olhos e segurou seu pulso.
“Foi um funcionário”, murmurou. “Crachá vermelho.”
Somente supervisores possuíam aquela identificação. O responsável pelo turno, Leandro Paes, desaparecera quinze minutos antes do incêndio.
No armário dele, Raul encontrou fotografias da caixa de música tiradas meses antes da morte de Lúcia. Havia também comprovantes de depósitos feitos por uma empresa chamada F. Consultoria.
“Ferraz”, disse Clara.
“Ou alguém quer que leiamos Ferraz”, respondeu Dante.
As câmeras externas mostraram Leandro entrando num carro cinza. O veículo estava registrado em nome de uma fundação administrada por Otávio, mas fora declarado roubado naquela manhã.
Clara percebeu por que Dante se recusava a aceitar uma conclusão rápida. Todas as pistas apontavam com perfeição excessiva para o padrinho.
“Se Otávio fez isso, está deixando rastros demais.”
“E se não fez, alguém conhece nossa suspeita.”
Raul conseguiu falar com o técnico do áudio. Antes do incêndio, ele enviara uma cópia criptografada da fita para um servidor externo. A gravação não estava perdida.
“Quanto tempo para recuperar a parte invertida?”, perguntou Clara.
“Talvez dois dias.”
Dante guardou o endereço do servidor num papel, evitando os telefones.
Do outro lado da rua, um homem fotografava a saída do prédio. Quando Raul se aproximou, ele abandonou a câmera e correu.
No cartão de memória havia imagens de Clara desde o funeral de Lúcia.
Alguém a vigiava muito antes de a carteira cair aos seus pés.
Raul ampliou as datas das imagens. A primeira fora registrada no dia em que Lúcia recebera alta pela última vez. A segunda mostrava Clara buscando medicamentos. A terceira, Joana escondendo um pacote sob a máquina de costura.
“Eles sabiam onde estava a caixa”, concluiu Clara. “Só não tinham a chave.”
Dante olhou para as mãos dela.
“Por isso esperaram você abrir.”
Clara compreendeu que encontrar a mensagem da mãe não encerrara a caçada. Ao contrário, acabara de mostrar ao inimigo que a última barreira deixada por Lúcia já não existia.
Na última fotografia, Lúcia ainda estava viva. Conversava na porta de casa com um homem cuja bengala tinha uma empunhadura coberta por pequenas flores de metal.
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