"Voltei Cedo e Vi Quem Minha Noiva Realmente Era" Capítulo 3
Thomas encontrou Artur de joelhos na lama, tentando segurar uma lanterna entre os dentes enquanto amarrava os galhos com as mãos endurecidas pela artrite.
Natanael acompanhou pelas câmeras. O chefe da segurança cobriu o jardineiro com a própria capa e o conduziu para a guarita, ignorando os protestos de que "faltavam duas roseiras".
O telefone de Vitória tocou menos de um minuto depois. Ela ligava para a segurança.
Thomas atendeu diante da câmera, cumpriu a instrução recebida e disse apenas que agira por ordem de uma autoridade não identificada. Vitória desligou com tanta força que o áudio captou o impacto do aparelho.
Natanael salvou a gravação.
Uma nova batida veio da passagem secreta. Margarida entrou com roupas limpas, mas o polegar estava envolto em gaze grossa. O rosto parecia menor sem a firmeza profissional que ela usava durante o trabalho.
— Rute disse que o senhor voltou.
Natanael tomou a mão ferida antes que ela conseguisse escondê-la.
— Precisa de pontos?
— É só um corte.
— Um médico vai olhar.
— Desculpe pela taça da sua avó. Eu sei que era importante.
— Pare.
Margarida encolheu os ombros.
Natanael suavizou a voz.
— Nunca me peça desculpas por um copo. Sente-se.
Ele serviu uma dose pequena do uísque guardado para ocasiões que já não comemorava e colocou o copo diante dela.
— Beba um pouco.
— Eu não deveria.
— Hoje deveria.
Margarida levou o copo aos lábios, ainda segurando-o com as duas mãos.
— Ela disse que o senhor sabia das multas.
— Eu vi a auditoria. Dois milhões desviados. Parte saiu do salário de vocês.
Margarida fechou os olhos. Depois enfiou a mão no bolso do avental e tirou um objeto envolto em papel-toalha.
— Encontrei isto há três dias.
Natanael abriu o embrulho.
Era uma caixa de fósforos de papelão preto. Na capa, uma coroa de pontas afiadas brilhava em prata acima de duas palavras: CLUBE DA COROA.
O clube funcionava sob um hotel antigo no centro de Campinas. Não aparecia em mapas, não anunciava eventos e exigia indicação. Domingos Rainer recebia políticos, intermediários e chefes de segurança em salas privadas sem celulares.
— Onde estava?
— Na casa de hóspedes. Dona Vitória mandou preparar o chalé para um decorador de Campinas.
— Quando?
— Na noite de vinte e três do mês passado. O senhor estava numa reunião em Brasília.
Margarida respirou fundo.
— Era um homem alto. Cabelo escuro, barba curta. Tinha uma cicatriz daqui até aqui.
Ela traçou uma linha do olho ao maxilar.
— Juliano Vaz.
— O senhor conhece?
— Conheço o trabalho dele.
Margarida apertou a gaze.
— Ele não falou com ninguém. Vitória foi buscá-lo no portão. Ficaram duas horas no chalé.
— Foram à casa principal?
— Não. Eu assisti às câmeras da copa. Quando ele saiu, entregou a ela um envelope pardo, grosso. Vitória levou direto para o closet.
Natanael apoiou a caixa de fósforos sobre a mesa. A mesma noite registrava o download das plantas do terminal de Santos.
— Por que guardou isso?
— O jeito como ela olhou para os lados antes de pegar o envelope.
— Você suspeitou de quê?
— Não sabia. Só achei que alguém precisava lembrar que ele esteve aqui.
Natanael puxou uma embalagem própria para evidências da gaveta, fotografou o objeto onde estava e pediu que Margarida descrevesse cada gesto diante da câmera do escritório.
Ela respondeu com frases curtas. Horário. Roupa. Carro. Direção em que o visitante saiu. O que tocou. O que não tocou.
— A senhora fez tudo certo.
Margarida soltou uma risada sem humor.
— Se eu tivesse feito tudo certo, Arthur não estaria no jardim e o Marcos não teria subido aquelas caixas.
— A responsabilidade era minha.
— O senhor não estava aqui.
— Esse é o problema.
Ela o encarou.
— Trabalhar não é abandonar uma casa.
— Dar autoridade sem fiscalizar chega perto.
Natanael pediu que Thomas acompanhasse Margarida ao ambulatório particular da propriedade. Antes de sair, ela parou na porta.
— Dona Mary também guardava coisas pequenas.
— Como assim?
— Recibos, bilhetes, nomes de quem precisava de ajuda. Dizia que casa grande engole a verdade se ninguém deixa migalhas pelo caminho.
A passagem se fechou.
Davi chegou às cinco e quarenta com o paletó molhado e uma maleta presa ao pulso. Trouxe uma promotora federal, Laura Siqueira, que entrou pelo portão de manutenção sem registrar o sobrenome.
Eles passaram uma hora consolidando cópias, metadados, extratos e imagens. Laura não se impressionou com o patrimônio nem com a reputação de Caldas.
— Se ela transferiu dinheiro e entregou informação operacional, temos fraude, associação criminosa e espionagem empresarial. Quero a confissão, mas não provoque uma fuga.
— Ela está no quarto.
— E acha que você está em Brasília.
— Nova York, segundo a agenda falsa que deixei.
Laura fechou a pasta.
— Mantenha assim até emitirmos as ordens.
Às seis e vinte, eles ouviram passos do lado de fora. A maçaneta principal girou.
Vitória entrou usando um robe branco de seda e segurando água com gás. O sorriso surgiu antes que seus olhos se acostumassem à penumbra.
— Natan? Eu ouvi vozes. Meu Deus, quando você voltou?
Ela viu Davi junto à janela.
Depois enxergou as planilhas na tela, o contracheque de Rute e a caixa preta com a coroa prateada dentro do invólucro transparente.
A água transbordou sobre o robe.
O sorriso desapareceu.
Natanael apontou para a cadeira diante da mesa.
— Sente-se, Vitória.
A promotora se manteve fora do alcance direto da luminária. Vitória ainda podia pedir advogada ou permanecer em silêncio. Em vez disso, fixou os olhos no fósforo e tentou medir quanto os outros sabiam. Durante dezoito meses, Natanael confundira aquele cálculo com serenidade.
Davi confirmou a identidade de Juliano por cicatriz, documento e veículo. Natanael retirou discretamente os turnos vulneráveis dos terminais, reforçou a vigilância e fechou depósitos para inspeção. Mais de duzentas pessoas estavam fora das áreas citadas nos arquivos antes das duas da manhã.
Uma câmera mostrou Vitória verificando a porta do escritório às quatro. Natanael apagou a luminária e esperou. Ela ouviu por quase um minuto, depois voltou ao quarto. Na tela congelada, Juliano não olhava para a câmera do portão; olhava para Vitória, que o esperava.
Antes da chegada de Vitória, Margarida também reconheceu no vídeo o carro alugado usado por Juliano. Guardara a placa num bilhete porque o veículo bloqueara a entrada de fornecedores. Thomas confirmou a locadora, e Laura obteve o contrato em nome de uma empresa de Domingos. O detalhe simples ligava o homem, o chalé e o dinheiro sem depender de confissão.
Natanael pediu que o curativo de Margarida fosse fotografado apenas para o laudo, nunca para imprensa. Ela concordou depois de escolher uma advogada própria. Quando voltou aos aposentos, levou uma cópia do depoimento e a caixa transparente permaneceu selada sobre a mesa.
O médico voltou antes do amanhecer e trocou a gaze. Margarida aceitou descansar quando Natanael garantiu por escrito que o dia seria pago e que nenhuma ausência médica dependeria da aprovação de Vitória. Ela guardou o papel junto ao depoimento.
Ao sair, ela endireitou os ombros e levou consigo a primeira prova de que podia dizer não.
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