"Voltei Cedo e Vi Quem Minha Noiva Realmente Era" Capítulo 2
O cronômetro no canto da tela marcava nove minutos quando alguém bateu na porta de serviço do escritório.
Natanael levantou-se sem desligar a chamada. A passagem estreita ligava a biblioteca à copa dos funcionários e quase nunca era usada depois das oito.
Rute Belém estava do outro lado, já com o casaco de rua e a bolsa no ombro. Os olhos vermelhos se arregalaram quando ela o viu.
— Seu Natanael? O senhor não estava viajando?
Ele abriu espaço.
— Estou em casa. Entre.
Rute segurava um papel dobrado entre os dedos manchados pela idade. Tentou escondê-lo dentro da bolsa.
Natanael reconheceu o contracheque.
— Sente aqui.
— Eu só ia deixar um recado para a Margarida. Não quero incomodar.
— Mostre o papel, Rute.
Ela continuou em pé.
— Dona Vitória explicou. Passei do orçamento do frango caipira. O fornecedor de Itatiba aumentou o preço e eu devia ter conferido a planilha nova.
— Mostre.
Rute entregou a folha. A dedução ocupava uma linha discreta: Ajuste Administrativo — Categoria 4.
— Há quanto tempo ela tira dinheiro do seu salário?
— Desde julho.
— Quanto no total?
— Não fiz a conta.
Natanael puxou uma cadeira e se sentou diante dela, para não obrigá-la a olhar para cima.
— Cinquenta reais por uma bandeja. Depois quinhentos por flores. Agora isso. A irmã da senhora ainda está na clínica em Sorocaba?
Rute apertou a alça da bolsa.
— Está. Eu dividi o pagamento deste mês. A clínica espera mais dez dias.
— E Margarida?
— Perdeu mil e oitocentos por causa de uma cortina molhada. Artur perdeu dois mil porque não terminou a cerca-viva antes do clube de bridge. Marcos teve desconto quando não conseguiu levantar a mala dela.
A voz de Davi entrou pelo fone.
— Natanael, estou ouvindo.
— Continue trabalhando.
Rute baixou o rosto.
— Não fique bravo com eles. Todo mundo tentou melhorar.
— Por que ninguém me telefonou?
O sapato gasto dela deslizou para trás.
— Dona Vitória disse que o senhor estava sob pressão. Falou que tinha revisado os custos e achado a equipe preguiçosa, cara e ingrata. Disse que as multas eram ordem sua.
A luminária projetava um círculo verde sobre a mesa. Natanael colocou o contracheque dentro desse círculo e alisou a dobra com o polegar.
— Eu nunca autorizei um centavo.
Rute ergueu os olhos.
— Nunca?
— Nunca. E quero que a senhora pare de pedir desculpas por comprar comida decente para esta casa.
Ela puxou o ar pelo nariz, mas o choro escapou mesmo assim.
Natanael atravessou o pequeno espaço e a abraçou. Por um momento voltou a ser o menino sentado sobre uma caixa de refrigerante, recebendo um pão de queijo escondido num guardanapo.
— Amanhã, às sete, quero a senhora, Margarida, Artur e Marcos na biblioteca. Não diga nada a Vitória.
— O senhor vai demiti-la?
— Primeiro vou descobrir o que ela fez.
Rute esfregou o rosto no ombro do casaco.
— O pai dela é desembargador. Ela disse que, se alguém reclamasse, ele acabaria com nossas aposentadorias.
Natanael afastou-se e pegou a bolsa caída no braço da cadeira.
— Vá para casa. Meu carro leva a senhora.
Quando a porta se fechou, Davi falou:
— A folha foi adulterada com credenciais administrativas válidas. Ela criou categorias internas para esconder os descontos.
— Consegue reverter?
— Consigo. Há coisa maior. Abra o arquivo que acabei de mandar.
Natanael retornou à mesa. A planilha tinha centenas de linhas: fornecedores inflados, manutenção fantasma, recepções inexistentes, duplicação de notas.
— Total?
— Dois milhões e sessenta mil reais em seis meses.
Natanael percorreu a coluna de beneficiários. Três empresas abertas no mesmo endereço de coworking em Delaware apareciam como consultorias de decoração e jardinagem internacional.
— Por que mandar verba doméstica para fora do país?
— Para misturar com remessas de outros clientes. A conta da casa tem baixa supervisão e volume alto. Era uma torneira pequena dentro de uma tubulação enorme.
Davi compartilhou outra tela. Os repasses atravessavam as empresas americanas, retornavam a um fundo no Panamá e desembocavam numa companhia brasileira.
Coroa Negra Logística S.A.
Natanael empurrou a cadeira para trás.
Domingos Rainer tentava tomar suas rotas de carga pelo Porto de Santos havia três anos. Comprara fiscais, ameaçara motoristas e financiara greves artificiais. Uma tentativa de incêndio num terminal em Cubatão deixara dois vigias feridos.
— Confirme o controlador final.
— Já confirmei. Domingos tem sessenta e dois por cento por meio de dois fundos. O restante pertence a testas de ferro ligados ao Clube da Coroa.
— Preserve tudo. Cópia fora da rede da casa.
— Já fiz. Também encontrei acessos aos arquivos de viagem e aos códigos operacionais dos terminais.
Natanael se inclinou para a tela.
— Quais terminais?
— Santos, Campinas e Guarulhos. Alguém baixou plantas, turnos de vigilância e rotas de contingência.
— Com que usuário?
Davi demorou dois segundos.
— Vitória Caldas.
O nome ficou na tela ao lado de uma sequência de horários. Cada acesso coincidia com uma viagem de Natanael.
Ele abriu o calendário. Vitória sabia onde ele estava, quanto tempo ficaria fora e quando a casa teria menos segurança.
No corredor, uma porta se fechou. Passos leves passaram diante do escritório e seguiram em direção à suíte dela.
— Há risco imediato nos terminais? — Natanael perguntou.
— Estou cruzando. Preciso envolver a promotoria e a Polícia Federal.
— Faça isso. Só gente que você conhece pessoalmente.
— Você quer que eu vá até aí?
Natanael olhou para a chuva. No jardim oeste, uma luz pequena tremia entre as roseiras.
Artur ainda estava lá fora.
— Venha antes das seis. Traga os documentos e quatro cheques administrativos.
— Valores?
— Todo o dinheiro descontado, corrigido. Acrescente indenização provisória e apoio jurídico individual.
— Isso não apaga o que aconteceu.
— Eu sei.
Natanael ligou para a guarita.
— Thomas, vá ao jardim oeste. Tire Artur da chuva, dê roupa seca e café. Ele está dispensado até segunda.
— Sim, senhor. Ninguém sabia que o senhor tinha chegado.
— Continue assim.
O relatório de Davi atualizou mais uma vez. Na última página, abaixo das transferências, aparecia uma lista de hóspedes autorizados por Vitória.
Um deles usara documento falso e chegara à propriedade às onze e oito da noite, três semanas antes.
A câmera do portão mostrava um homem alto, de barba curta, com uma cicatriz que descia do olho esquerdo até o maxilar.
Natanael ampliou a imagem.
Juliano Vaz estava dentro de sua casa.
Davi enviou a imagem ampliada para um canal seguro e recebeu confirmação por cicatriz, documento e veículo. Juliano cumprira pena por extorsão e aparecia em dois inquéritos de incêndio contra transportadoras menores. Nenhum processo chegara a julgamento.
Natanael telefonou aos três terminais e ordenou retirada discreta dos turnos vulneráveis. Caminhoneiros foram redirecionados, vigilantes receberam reforço e o depósito de inflamáveis foi fechado para inspeção. Às duas da manhã, duzentas e oito pessoas estavam fora das áreas citadas nos arquivos.
Só então ele permitiu que Davi encerrasse a ligação. Na tela, Juliano não olhava para a câmera; olhava para Vitória, que o esperava além do portão.
Davi pediu que Natanael não confrontasse ninguém antes da cadeia de custódia estar pronta. Nos registros restaurados, surgiram queixas apagadas de Marcos, Artur e Margarida, todas marcadas como "resolvidas" pela conta de Vitória.
A intimidade também servira de cobertura: três downloads coincidiam com jantares em que ela insistira para que Natanael deixasse o telefone fora da mesa.
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