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"Depois do funeral do meu marido, meu filho me levou até uma estrada deserta e disse:" Capítulo 3 — A Terra Que Eles Esqueceram

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Capítulo 3 — A Terra Que Eles Esqueceram

Duas horas depois, eu estava sentada diante da escrivaninha de Heitor com os pés enfaixados e a roupa ainda marcada pela poeira da estrada.

Antes de sair do restaurante, relatei o abandono às autoridades, entreguei cópias das fotografias e pedi que registrassem a mensagem de Ricardo. Dona Nair confirmou a hora em que me vira chegar. O sobrinho dela já havia separado as imagens das câmeras.

Indiquei também o ponto onde escondera a mala. Uma equipe que patrulhava a região a encontrou atrás do barranco, ainda fechada. Pedi que fotografassem a posição antes de recolhê-la. Até os objetos escolhidos pelos meus filhos para a minha suposta mudança passavam a contar parte daquela história.

Eu não sabia até onde aquela apuração iria. Mas ninguém poderia dizer que eu saíra de casa por vontade própria.

Heitor colocou duas pastas sobre a mesa.

“Esta é a documentação do nosso arquivo.”

Abriu a primeira. Reconheci as páginas que Augusto e eu havíamos lido no ano anterior, quando ele ainda conseguia caminhar até o galpão sem ajuda.

O testamento tratava da parte de Augusto nas quotas da empresa familiar, das máquinas e dos bens que realmente lhe pertenciam. Também reconhecia meu direito de permanecer na casa e participar da administração enquanto eu desejasse.

Um ato de grande disposição de imóveis ligados à atividade precisaria respeitar minha posição patrimonial e passar pelos procedimentos adequados da sucessão.

Não havia frase alguma expulsando-me do negócio que eu ajudara a construir.

“Agora veja o que Ricardo apresentou.”

Na segunda pasta, as primeiras folhas imitavam a formatação dos documentos verdadeiros. A última página, porém, declarava que Augusto havia transferido previamente suas quotas aos filhos e concedido a Ricardo poderes amplos para negociar todos os imóveis do Vale das Araucárias.

“Essa página foi feita para parecer parte do conjunto”, eu disse.

“É o que parece. Precisaremos de análise técnica e dos documentos originais antes de afirmar como ela foi produzida.”

Heitor apontou para a assinatura.

“Você tem certeza de que Augusto não assinava assim em agosto?”

“Eu colocava a caneta entre os dedos dele para que assinasse os recibos da fisioterapia. Tenho certeza.”

Ele fechou a pasta.

“Podemos pedir uma medida urgente, contestar o uso do documento e comunicar a existência de uma disputa à empresa compradora.”

“Podemos fazer mais do que isso.”

Puxei a bolsa para o colo e retirei o envelope resistente ao fogo.

Heitor ficou imóvel enquanto eu desfazia o fecho.

Dentro estavam minha certidão de casamento, cópias antigas dos registros da empresa e a escritura de uma área rural de oito hectares, adquirida quando eu ainda assinava Celina Duarte.

Coloquei o documento diante dele.

“Essa terra não pertencia a Augusto.”

Heitor ajustou os óculos e leu a matrícula duas vezes.

“Você comprou antes do casamento.”

“Com o dinheiro que recebi quando vendemos a casa da minha mãe. Augusto e eu usamos a área no pomar, mas nunca alteramos o registro.”

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“Por que mantiveram separado?”

“No começo, era nossa segurança. Se o negócio fracassasse, ainda teríamos onde recomeçar. Depois a vida ficou corrida, o pomar cresceu e ninguém perguntou.”

Ele foi até um armário, retirou um mapa cadastral antigo e o abriu sobre a mesa. Acompanhamos os limites com o dedo.

Os oito hectares formavam uma faixa irregular entre o restante do pomar e a estrada municipal. Ali ficavam o principal ponto de captação usado na irrigação, parte do reservatório e o corredor de acesso registrado por onde passavam caminhões e máquinas.

“A Horizonte Sul não pode entregar o projeto que anunciou sem resolver esta área”, disse Heitor. “A propriedade da terra não transforma a água em bem particular, e qualquer intervenção dependerá das autorizações ambientais cabíveis. Mas eles também não podem agir como se esta matrícula estivesse incluída na venda.”

“Ricardo sabe disso?”

“Se sabe, ocultou. Se não sabe, prometeu vender algo sem conferir.”

“Nos dois casos, mentiu para alguém.”

Heitor recostou-se na cadeira.

“Celina, com isso podemos parar a negociação. Eu sugiro protocolarmos tudo hoje e entrarmos com todas as medidas possíveis.”

“Primeiro, vamos impedir que alguma coisa desapareça.”

Peguei um bloco de papel.

Listei as três contas usadas pelo pomar, o nome de Osvaldo, nosso contador havia dezenove anos, e os dois funcionários que tinham acesso ao galpão de máquinas. Anotei os maiores clientes, os contratos de fornecimento, os veículos e os equipamentos mais fáceis de vender.

“Avise formalmente o banco de que existe disputa sobre os poderes apresentados por Ricardo”, eu disse. “Peça preservação dos registros. Não quero descobrir amanhã que ele esvaziou as contas ou levou um trator.”

Heitor ergueu uma sobrancelha.

“Você pensou nisso enquanto caminhava oito quilômetros?”

“Pensei nisso durante quarenta e quatro anos de trabalho.”

Liguei para Osvaldo na presença do advogado. Não contei sobre a estrada. Perguntei apenas se houvera alguma solicitação incomum.

“Ricardo pediu acesso integral aos extratos e uma lista dos ativos”, respondeu ele. “Disse que assumiria a administração após a morte do pai.”

“Não entregue nada novo sem verificar com Heitor. Continue pagando salários e despesas normais, mas registre qualquer pedido extraordinário.”

“Dona Celina, está acontecendo alguma coisa?”

Olhei para a escritura aberta.

“Está. E é por isso que preciso que tudo continue funcionando.”

Em seguida, telefonei para Marlene, supervisora da embalagem. Pedi que fotografasse o painel de chaves dos veículos no início e no fim de cada turno e que não permitisse a retirada de máquinas sem a autorização habitual.

Eu não estava apenas bloqueando uma venda. Estava protegendo a colheita, os empregos e a única renda de famílias que não tinham culpa dos meus filhos.

Heitor preparou uma notificação de disputa de titularidade e autoridade. Anexou os dados da matrícula, sem enviar o original, e comunicou a Horizonte Sul que nenhum instrumento assinado por Ricardo poderia incluir meus oito hectares.

Também requereu a preservação de todos os e-mails, propostas e minutas trocados com ele e Patrícia.

Li cada linha antes de autorizar o envio.

Às 17h12, a confirmação chegou.

Menos de quarenta minutos depois, a assessoria jurídica da Horizonte Sul respondeu. A assinatura prevista para a semana seguinte estava suspensa até esclarecimento da cadeia de titularidade.

Ricardo ainda não sabia quanto eu havia revelado. Eu queria mantê-lo assim por mais algum tempo.

“Onde você vai dormir?”, perguntou Heitor.

“Não na casa em que ele pode me encurralar de novo.”

Aluguei por alguns dias o pequeno apartamento sobre a padaria da irmã de Dona Nair. Antes de sair do escritório, deixei o original da escritura no cofre de Heitor e levei comigo apenas uma cópia autenticada.

Na porta, a secretária dele me chamou de volta.

“Dona Celina, chegou outra mensagem da Horizonte Sul.”

Heitor leu em silêncio e virou o monitor para mim.

A empresa exigia que a divergência fosse solucionada em quarenta e oito horas. Sem minha assinatura, abandonaria o negócio e responsabilizaria os vendedores por qualquer omissão relevante na proposta de oito milhões e quatrocentos mil reais.

Meu filho me deixara numa estrada porque acreditava que eu era o único obstáculo entre ele e aquele dinheiro.

Agora a empresa também sabia disso.

E o relógio já estava correndo.

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