localização atual: Novela Mágica Depois do funeral do meu marido, meu filho me levou até uma estrada deserta e disse: Capítulo 1 — A Última Viagem em Família
标题上

"Depois do funeral do meu marido, meu filho me levou até uma estrada deserta e disse:" Capítulo 1 — A Última Viagem em Família

正文开头

Capítulo 1 — A Última Viagem em Família

Na manhã seguinte ao enterro de Augusto, encontrei meus dois filhos sentados à mesa da cozinha, vestidos como se fossem fechar um negócio.

Ricardo usava o mesmo paletó escuro do funeral, mas já não havia luto em seu rosto. Larissa tinha prendido o cabelo e aberto o notebook entre a manteigueira e a xícara que pertencera ao pai.

Eu ainda não conseguia olhar para aquela xícara sem esperar que a mão de Augusto aparecesse para alcançá-la.

Durante quarenta e quatro anos, ele tomara café naquele lugar, sempre antes do nascer do sol. Na véspera, eu o havia deixado sob a terra fria de São Joaquim.

Ricardo empurrou uma pasta na minha direção.

“Mãe, precisamos resolver a situação do pomar.”

“Seu pai foi enterrado ontem.”

“Justamente por isso. Não podemos deixar tudo parado.”

Larissa baixou os olhos. Por um instante, procurei nela a menina que corria entre as macieiras com os joelhos manchados de terra. Encontrei apenas uma mulher impaciente, girando o anel no dedo.

“É para o seu bem”, ela disse. “A senhora não devia ficar sozinha numa propriedade desse tamanho.”

Abri a pasta.

Havia uma proposta da Horizonte Sul Empreendimentos. O número saltou da página: oito milhões e quatrocentos mil reais.

Logo abaixo, uma apresentação colorida mostrava chalés de luxo onde ainda existiam nossas fileiras de macieiras. A casa de madeira que Augusto e eu reformáramos com as próprias mãos não aparecia em imagem alguma.

“Vocês querem vender o Vale das Araucárias.”

Ricardo cruzou os braços.

“O pomar dá trabalho demais e rende menos a cada ano. Essa proposta garante o futuro de todos.”

“De todos?”

“A senhora ficaria amparada.”

“E os vinte e três funcionários? E as famílias que arrendam os talhões do lado norte?”

Ricardo soltou o ar pelo nariz.

“A empresa compradora vai avaliar quem pode ser aproveitado durante a transição.”

Era assim que ele falava quando queria transformar pessoas em números. Não mencionou que Marlene trabalhava conosco desde que Larissa ainda usava uniforme escolar. Não lembrou que Osvaldo aceitara receber com atraso durante a crise que quase fechou o pomar.

“Você fala como se tudo isso tivesse aparecido pronto”, eu disse.

“Eu estou falando como alguém que entende o valor de um ativo.”

“Eu também entendo. Fui eu quem negociou nosso primeiro contrato com o supermercado de Lages. Fui eu quem fez a folha de pagamento quando seu pai cuidava das árvores. E fui eu quem hipotecou as joias da minha mãe para comprar a primeira câmara fria.”

Ricardo desviou os olhos por uma fração de segundo.

“Isso foi há muito tempo.”

“Foi o tempo necessário para construir o que você quer vender em uma semana.”

Larissa virou o notebook para mim. Na tela havia fotografias de um condomínio para idosos nos arredores de Lages. Jardins impecáveis, poltronas claras, mulheres grisalhas sorrindo para uma câmera.

“Tem fisioterapia, refeições e atividades”, explicou. “Podemos visitar hoje.”

正文1

“Vocês escolheram onde eu vou morar antes de me perguntar se quero sair da minha casa?”

“Não dramatize”, disse Ricardo. “O pai já tinha decidido.”

Ele retirou outro documento da pasta. Chamou-o de termo complementar de cessão de quotas e autorização para alienação dos imóveis da empresa.

No final da última página estava a assinatura de Augusto Ferraz.

Firme. Elegante. Perfeita.

Perfeita demais.

Nos últimos cinco meses de vida, Augusto precisava usar as duas mãos para segurar uma caneca. Quando tentou assinar o cartão de aniversário de Larissa, o A do nome saiu trêmulo e interrompido. Eu guardara aquele cartão.

No documento, porém, a assinatura parecia ter sido feita pelo homem de dez anos antes.

“Quando ele assinou isso?”

Ricardo não piscou.

“Em agosto.”

Agosto. Naquele mês, meu marido já recebia cuidados paliativos e passava grande parte dos dias sob efeito de analgésicos.

“Quem estava presente?”

“Isso importa?”

“Importa para mim.”

“O pai me entregou pessoalmente. Ele sabia que a senhora se agarraria ao pomar por sentimentalismo.”

Olhei para Larissa.

“Você viu seu pai assinar?”

Ela levou a xícara à boca, embora estivesse vazia.

“O Ricardo cuidou da documentação.”

Foi a primeira resposta verdadeira daquela manhã.

Eu poderia ter gritado. Poderia ter rasgado as folhas e mandado os dois embora. Em vez disso, fechei a pasta e a devolvi ao meu filho.

“Preciso tomar meus remédios.”

Ricardo relaxou os ombros.

“Depois nós visitamos o residencial. Sem compromisso.”

“Sem compromisso”, repeti.

Subi devagar. A artrite castigava meus joelhos, mas não era ela que me fazia segurar o corrimão. Era o esforço de não deixar a raiva aparecer antes da hora.

No quarto, coloquei os comprimidos na bolsa. Acrescentei documentos pessoais, o carregador do celular e algum dinheiro.

Depois afastei as camisas de flanela de Augusto dentro do armário.

O cheiro dele ainda estava ali: sabão de coco, madeira e o bálsamo que eu passava em seu peito nas últimas semanas.

Atrás do fundo falso que instaláramos muitos anos antes, encontrei o envelope de material resistente ao fogo. Não o abri. Conhecia cada papel guardado nele.

Eu o enfiei sob um casaquinho dobrado na bolsa maior.

Antes de sair, fotografei o documento sobre a mesa, página por página, enquanto Ricardo atendia uma ligação na varanda. Larissa fingiu não perceber.

“Pronta?”, ele perguntou quando voltei.

“Quero apenas ver o lugar.”

“É claro.”

Ricardo levou minha mala até o carro. Não notei que alguém a tivesse arrumado, mas ela já estava fechada no porta-malas.

Aquilo me disse mais do que qualquer palavra.

Sentei no banco traseiro ao lado de Larissa. Conforme descíamos pela estrada do pomar, observei o galpão de embalagem, o reservatório e as árvores que começavam a formar os primeiros frutos.

Augusto costumava dizer que uma macieira revelava no inverno se havia sido bem cuidada no verão.

Talvez acontecesse o mesmo com os filhos.

Ricardo passou pelo acesso à rodovia que levava a Lages.

“Você perdeu a entrada.”

“Tem um caminho mais rápido.”

Não havia.

Ele virou numa estrada estreita, cercada por campos e araucárias. O sinal do meu celular desapareceu. Larissa apertou a alça da bolsa.

“Ricardo, aonde estamos indo?”

“Só estou resolvendo o problema.”

Vinte minutos depois, ele parou no acostamento de cascalho. Não havia casas, comércio ou ponto de ônibus. Apenas uma placa enferrujada indicando oito quilômetros até um restaurante de estrada.

Ricardo saiu, abriu minha porta e colocou a mala no chão.

“É aqui que a senhora desce. A casa não é mais sua.”

Larissa se inclinou para a frente.

“Ricardo, você disse que a levaríamos ao residencial.”

“Ela vai contestar tudo se chegar lá. Assim aprende que não tem alternativa.”

“Sou sua mãe.”

Ele evitou meus olhos.

“E nós somos os herdeiros.”

Desci sem aceitar a mão que Larissa finalmente estendeu. Ricardo fechou a porta, voltou ao volante e arrancou antes que a irmã decidisse se teria coragem de me acompanhar.

O carro desapareceu numa nuvem de poeira.

Fiquei sozinha, com uma mala preparada por outras pessoas e uma dor que nenhum remédio alcançaria.

Então toquei o envelope escondido na bolsa.

Meus filhos acreditavam ter me deixado sem casa, sem dinheiro e sem escolha.

Eles não sabiam o que eu carregava.

Endireitei os ombros e comecei a caminhar na direção oposta àquela em que o carro havia sumido.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部