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"Minha esposa se divorciou de mim por e-mail enquanto eu estava em missão no exterior e esvaziou noss…" Capítulo 6 — A Visita das Dez

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Capítulo 6 — A Visita das Dez

Às 9h18, eu estava dentro de uma van estacionada a duas ruas da minha casa.

Não havia janelas abertas nem sirenes. Apenas monitores, fones, cabos e quatro pessoas falando baixo. Helena estava ao meu lado. Fernanda ocupava a cadeira diante das telas. Raul acompanhava outra equipe por rádio.

Camila acreditava que eu estava a caminho do Café do Lago.

Davi acreditava que eu tinha pousado na noite anterior e passaria a manhã discutindo o divórcio.

Às 9h27, meu telefone recebeu a primeira mensagem.

"Já estou aqui."

Não respondi.

Fernanda apontou para o monitor da fechadura.

Às 9h31, o código VISITA10 abriu o portão.

Murilo Bastos entrou acompanhado de um casal que eu nunca tinha visto. Ele usava paletó azul, carregava uma pasta fina e falava ao telefone. O casal examinou a fachada como compradores comuns, mas não veio em carro próprio. Os três desceram do mesmo veículo.

"Identificação em andamento", Fernanda disse.

Uma agente no banco da frente recebeu duas fotografias e começou a comparar rostos. Menos de três minutos depois, virou o monitor para Raul.

O homem não era marido da mulher. Chamava-se Celso Diniz e figurava como administrador da Horizonte Ativos, a empresa que comprara três dos imóveis pesquisados por Helena. A mulher era Larissa Costa, funcionária de um escritório contábil ligado à mesma empresa.

"Não vieram conhecer a casa", Helena murmurou. "Vieram formalizar a passagem dela para o grupo."

Fernanda ampliou um registro societário.

"A Horizonte comprava barato, transferia o imóvel para outra empresa e revendia em menos de noventa dias. Celso assinou duas dessas operações."

Até então, Davi e Murilo poderiam alegar que aquela visita era apenas uma tentativa de venda. A presença de Celso ligava minha casa às anteriores antes mesmo de qualquer contrato ser assinado.

Às 9h36, Davi chegou na minha picape.

Vê-lo dirigindo meu carro ainda doía. Naquela manhã, porém, a imagem também o ligava à visita, à casa e ao horário preparado por Camila.

Bento latiu quando Davi abriu a porta. Mesmo sem som, reconheci o movimento lento do focinho grisalho e a dificuldade das patas traseiras. Davi o agarrou pela coleira e o empurrou para a área de serviço. Bento tentou voltar. Ele fechou a porta na frente do cachorro e girou a chave.

Eu me levantei dentro da van.

"Ele trancou Bento sem água."

Raul não desviou os olhos do monitor.

"Nós vamos entrar quando tivermos o necessário. Se agir agora, prende um homem por maus-tratos discutíveis e perde a organização inteira."

Voltei a me sentar.

Não era indiferença. Era uma escolha dolorosa com prazo. Enquanto eu pudesse ver Bento em outra câmera, continuaria esperando. Se Davi o ferisse ou tentasse levá-lo, a espera terminaria.

Meu telefone vibrou.

"Augusto, você está vindo?"

Esperei dois minutos antes de responder.

"Trânsito."

Uma das telas mostrava a sala. A captação autorizada permitia ouvir apenas o necessário para a operação. Murilo abriu a pasta e entregou folhas ao homem do casal.

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"A documentação está praticamente resolvida", disse. "O proprietário está fora há meses e a esposa tem poderes para concluir."

O suposto comprador olhou para Davi.

"E se ele contestar?"

Davi soltou uma risada curta.

"Já contestou o empréstimo porque ficou emocional com o divórcio. Depois aceita um acordo. Militar gosta de parecer correto; basta oferecer uma saída que preserve a imagem dele."

Minha mão fechou sobre o joelho.

Helena falou sem tirar os olhos da tela:

"Continue respirando."

Murilo conduziu o casal pela cozinha, pela área externa e pelos quartos. Quando passaram diante da porta do escritório, ele não tentou entrar.

"Aquele cômodo não faz parte da visita?", a mulher perguntou.

"Arquivos pessoais", Davi respondeu. "Será esvaziado depois da assinatura."

Era mentira. A câmera do escritório estava desligada justamente porque eles já o usavam.

Às 9h49, Camila ligou.

Deixei tocar até cair na caixa postal.

Ela enviou outra mensagem:

"Não faça isso comigo. Você disse que estaria aqui."

Respondi:

"Cinco minutos."

Fernanda registrou cada horário.

Na sala, Murilo abriu um laudo e mostrou o preço de venda: R$ 1,08 milhão. A casa valia perto de R$ 1,5 milhão, talvez mais depois das reformas.

"O valor está abaixo do mercado", o homem comentou.

"É justamente por isso que precisa ser hoje", Murilo respondeu. "A diferença cobre o risco, os honorários e a compensação da esposa."

Celso folheou a minuta.

"A Horizonte deposita o sinal quando receber a autorização validada. Depois repassamos para a compradora final. Não vou imobilizar dinheiro se o militar puder aparecer numa audiência."

"Ele ainda nem recebeu a citação formal do divórcio", Davi disse. "Quando reagir, a matrícula já terá outro caminho."

Fernanda marcou o horário da frase. Não era mais uma conversa abstrata sobre preço. Eles descreviam a pressa como ferramenta para ultrapassar minha reação.

"Quanto ela recebe?"

Davi cruzou os braços.

"O combinado. Depois que Augusto assinar o divórcio, ela recebe o suficiente para desaparecer e ninguém procura o resto."

"E a assinatura dele na autorização?"

Murilo lançou um olhar duro ao comprador.

"A assinatura já passou pelo banco."

"Não foi isso que perguntei."

Por alguns segundos, ninguém falou.

Davi respondeu:

"Ele nunca assinou. Camila forneceu os documentos e eu cuidei do resto. Quando perceber o tamanho do problema, vai preferir dizer que autorizou."

Helena soltou o ar lentamente.

Era a frase que faltava.

Conhecimento da falsidade. Participação de Camila. Intenção de usar o documento mesmo depois da contestação.

Raul falou no rádio:

"Aguardem. Precisamos saber onde estão os originais e os equipamentos."

Eu olhei para a planta da casa presa à parede da van. O escritório estava no corredor principal, mas nenhum deles entrara ali diante dos visitantes.

Meu telefone tocou de novo. Desta vez, atendi.

"Onde você está?", Camila perguntou sem cumprimentar.

Ao fundo, ouvi xícaras e vozes do café.

"Perto."

"Perto de onde?"

"Você queria conversar. Comece."

Ela hesitou.

"Não por telefone. Davi disse que precisamos resolver a casa antes que o banco destrua tudo."

正文2

"Nós?"

"Eu e você. Nosso casamento."

"Davi mora na minha casa, dirige minha picape e guarda nosso dinheiro. Não parece estar fora do assunto."

O silêncio dela mudou de qualidade.

"Você viu a picape?"

Eu havia ido longe demais.

Helena fez um gesto para encerrar.

"Vi as gravações", corrigi. "Estou estacionando."

Desliguei.

Na casa, Davi retirou o telefone do bolso quase no mesmo instante. Ligou para Camila em vídeo.

"Mostra a mesa", ordenou.

"Por quê?"

"Mostra a mesa e a entrada. Agora."

A imagem da chamada apareceu parcialmente no monitor quando ele ergueu o aparelho. Camila girou a câmera. A cadeira diante dela estava vazia. A porta do café se abria e fechava, mas eu não aparecia.

Murilo recolheu os papéis.

"Ele não está indo."

"Ela acabou de falar com ele", Davi respondeu.

"Então ele está segurando você no telefone enquanto observa a casa."

Raul deu ordem para as equipes se aproximarem.

Murilo caminhou depressa pelo corredor. Em vez de ir ao escritório, entrou no quarto de hóspedes.

Na tela de consumo elétrico vinculada ao sistema da casa, vi um pico no circuito daquele quarto. Eu instalara sensores após um curto-circuito que quase provocou um incêndio anos antes. Durante semanas, o quarto consumira quase nada. Desde que a câmera do escritório fora desativada, havia picos regulares de energia ali, sempre depois das entradas de Davi.

Lembrei também das gravações da sala: duas vezes, Davi atravessara o corredor carregando uma mala preta rígida.

"Os equipamentos não estão no escritório", falei.

Fernanda virou-se.

"Como sabe?"

"Quarto de hóspedes. Circuito da parede norte. Há uma mala preta guardada perto do armário. Scanner portátil ou impressora. Ele mudou tudo quando desligou a câmera do escritório."

Ela transmitiu a informação.

No monitor, Murilo reapareceu com a mala. Davi puxou as cortinas e mandou o casal sair pelos fundos. O homem protestou, mas a mulher já corria para a cozinha.

Camila continuava na chamada.

"Davi, o que está acontecendo?"

"Ele voltou antes."

"Não. Ele disse que estava chegando ao café."

"Você viu o carro dele?"

"Ainda não."

"Então você não sabe onde ele está."

Murilo abriu a mala sobre a mesa. Lá dentro, vi um notebook, um scanner compacto, carimbos e várias pastas transparentes.

Uma delas tinha meu sobrenome.

Outra exibia a fotografia de um homem usando uniforme.

Raul ergueu a mão, pronto para autorizar a entrada.

Antes que falasse, um aviso surgiu no celular de Murilo. Ele leu, empalideceu e olhou diretamente para a câmera da sala.

Por um instante, tive a impressão de que ele conseguia me ver através da lente.

Então fechou a mala e gritou:

"Queima tudo. O sargento já voltou."

As luzes da casa se apagaram.

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