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"Minha esposa se divorciou de mim por e-mail enquanto eu estava em missão no exterior e esvaziou noss…" Capítulo 5 — As Mulheres Antes Dela

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Capítulo 5 — As Mulheres Antes Dela

Não respondi a Luciana imediatamente.

Enviei a captura para Helena e pedi que verificasse o perfil. Em menos de uma hora, ela confirmou que Luciana Moraes era irmã de Marisa Moraes, a mulher ligada ao quinto imóvel da lista de Murilo.

Marisa morrera de um aneurisma seis meses depois de perder a casa. A morte não tinha relação conhecida com Davi, mas encerrara a única tentativa formal de contestar a venda.

"Ela quer falar pessoalmente", Helena disse. "Mas tem medo de que Davi descubra."

Marcamos o encontro numa padaria movimentada perto do centro de Campinas. Escolhemos uma mesa visível, longe das janelas e das câmeras apontadas para o caixa. Luciana chegou com uma bolsa grande apertada contra o peito.

Tinha os mesmos olhos das fotografias de Marisa.

"Você é o militar?", perguntou antes de se sentar.

"Sou Augusto. Esta é Helena, minha advogada."

Luciana olhou ao redor.

"Ele sabe que você voltou?"

"Ainda não."

"Então não deixe saber. Davi fica mais perigoso quando percebe que perdeu o controle."

Helena se inclinou para a frente.

"Ele ameaçou sua irmã?"

"Nunca de um jeito que pudesse ser gravado. Ele não gritava. Não batia. Fazia Marisa acreditar que todo mundo estava contra ela e que só ele entendia o que precisava ser feito."

Luciana abriu a bolsa e colocou um envelope pardo sobre a mesa.

Dentro havia cópias de contratos, extratos, conversas impressas e um pequeno pen drive.

"Marisa guardou isso comigo duas semanas antes de morrer", explicou. "Ela descobriu que a casa tinha sido revendida por muito mais do que recebeu. Queria processar Davi e Murilo, mas estava endividada e o primeiro advogado disse que seria difícil provar."

Helena não tocou nos papéis até pedir autorização para fotografar a entrega e registrar a origem do material. Luciana concordou. Eu anotei horário, local e o que havia no envelope.

Num dos diálogos, Davi escrevia para Marisa:

"Roberto está escondendo dinheiro de você enquanto trabalha embarcado. Se esperar ele voltar, vai ficar sem nada."

Em outra mensagem:

"Transfira primeiro. Depois explicamos. Quem age antes controla a negociação."

As palavras eram quase idênticas às justificativas de Camila.

Luciana conectou o pen drive ao notebook de Helena. Havia uma gravação de voz feita por Marisa durante uma discussão.

A voz de Davi saiu baixa pelos fones que dividimos.

"Murilo já tem comprador. O valor precisa parecer menor agora para você receber rápido. Depois ninguém vai conseguir desfazer."

Marisa respondeu:

"Você disse que a diferença voltaria para mim."

"E vai. Mas precisa confiar. Se envolver seu marido, você perde a vantagem."

O áudio terminou com uma porta batendo.

Eu retirei os fones.

"Ele disse a mesma coisa a Camila."

"Eu imaginei", Luciana respondeu. "Vi a publicação dela. Minha irmã também dizia que o marido controlava tudo. Depois descobri que Davi repetia frases até ela acreditar que eram pensamentos dela."

"Camila fez escolhas", falei.

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"Eu sei. Marisa também fez. Ser manipulada não apaga o que elas fizeram. Só explica como ele encontra a porta de entrada."

Aquela frase impediu que eu transformasse Luciana em testemunha da minha raiva. Ela não viera absolver Camila. Viera impedir que o mesmo método enterrasse outra família.

Helena comparou os contratos. A empresa compradora da casa de Marisa era a mesma que aparecia em três negociações encontradas por ela. Murilo assinara os laudos de avaliação. Davi aparecia em transferências sob descrições diferentes: consultoria, intermediação, antecipação de despesas.

"Podemos entregar tudo à polícia", Helena disse. "Mas vou preservar os arquivos originais e fazer cópias verificáveis."

Luciana segurou meu braço antes de sairmos.

"Não deixe Davi levar Bento."

Parei.

"Como sabe o nome do meu cachorro?"

Ela ficou pálida.

"Vi numa das fotos que Camila publicou. Davi comentou que o cachorro ficaria melhor numa chácara depois da venda."

A ideia de ele planejar o destino de Bento quase rompeu o controle que eu mantivera até ali.

"Ele não vai levar nada."

Naquela tarde, Helena e eu entregamos o material a Raul Siqueira, delegado responsável por uma equipe especializada em fraudes patrimoniais. A investigadora Fernanda Alves ouviu a gravação de Marisa duas vezes e colocou ao lado dela a linha do tempo da minha casa.

"O padrão é forte", Raul disse. "Mas boa parte do que temos mostra negócios anteriores já concluídos e vítimas que assinaram documentos. No seu caso, existe uma operação ainda em andamento. Precisamos provar que eles sabem que a autorização é falsa e que pretendem usá-la mesmo assim."

"Eles continuam entrando na casa", respondi. "Há códigos temporários."

"Isso ajuda a marcar encontros, não necessariamente o conteúdo deles."

Fernanda apontou para o histórico mais recente.

"Este código foi criado hoje às onze e doze. Tem data para depois de amanhã, das nove às onze."

Reconheci a etiqueta: VISITA10.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

Era Camila.

"Precisamos conversar pessoalmente. Amanhã, às dez, no Café do Lago. Sem advogados."

Mostrei a mensagem aos três.

Helena comparou as datas.

"O código da casa é para depois de amanhã. A reunião é amanhã."

"Talvez ela tenha errado o dia", Fernanda disse.

Eu reli a mensagem. Camila era organizada demais para confundir uma negociação com o acesso de um estranho à casa. Mas havia algo ainda mais simples.

"Ela quer saber se eu já voltei", falei. "Se eu aceitar para amanhã, terá certeza de que estou no Brasil. A visita acontece no dia seguinte, quando ela puder marcar outro encontro ou me manter ocupado."

Raul cruzou os braços.

"Não diga que está aqui."

"Posso responder que chego amanhã à noite. Marco o encontro para depois de amanhã às dez."

Helena me encarou.

"E enquanto Camila espera você no café, eles entram na casa com VISITA10."

"Exatamente."

Raul não aprovou de imediato. Fez perguntas sobre o sistema, a titularidade da conta de segurança e os dispositivos existentes. Depois explicou que qualquer captação adicional teria de seguir a autorização adequada e ser conduzida pela equipe, não por mim.

"Você não entra na casa, não instala nada e não tenta provocar uma confissão", determinou. "Se avançarmos, seguirá nossas instruções."

"Entendido."

Enquanto a equipe avaliava as medidas cabíveis, eu respondi a Camila:

"Ainda estou fora. Consigo chegar amanhã à noite. Podemos conversar depois de amanhã, às dez."

Ela visualizou em segundos.

"No Café do Lago. Venha sozinho."

Menos de um minuto depois, o horário do código VISITA10 foi alterado.

Agora começava às 9h30 do mesmo dia da nossa reunião.

Não restava dúvida. Camila não estava apenas pedindo uma conversa.

Estava criando para Davi uma casa sem proprietário durante noventa minutos.

Na noite anterior ao encontro, Raul confirmou que a equipe tinha conseguido as autorizações necessárias para acompanhar a visita e preservar registros relevantes. Não me explicou todos os detalhes, e eu não perguntei.

Minha função era simples: fazer Camila acreditar que eu pisaria no café às dez.

Abri a conversa e escrevi:

"Amanhã, às dez. Eu estarei lá."

Camila respondeu com um coração cinza.

Encaminhei a troca completa para Helena e para Fernanda.

Depois desliguei a tela.

Pela primeira vez desde o e-mail do divórcio, eu não estava esperando o próximo movimento deles.

Eu tinha escolhido onde ele aconteceria.

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