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"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 3 — O Broche Que Ela Deixou no Meu Camarim

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Capítulo 3 — O Broche Que Ela Deixou no Meu Camarim

O pedido de rescisão ficou aberto no meu notebook durante quatro dias.

Eu escrevia uma frase, apagava duas e fechava o arquivo.

Não era apenas medo de ficar sem trabalho. Era o medo mais humilhante de todos: sair da Aurora e descobrir que o problema nunca fora a empresa.

Talvez eu realmente fosse apenas um rosto bonito que não sabia ocupar uma cena.

Na sexta-feira, Babi apareceu durante a gravação da comédia. Eu estava dentro de um carro cenográfico, repetindo "Chegamos" pela sétima vez porque o ator principal sempre entrava antes da marca.

Quando finalmente liberaram a cena, ela me entregou um envelope.

"Convite oficial da presidência."

"Fui promovido a motorista com duas falas?"

"Projeto social no Colégio Horizonte. A Aurora vai financiar oficinas de teatro e reformar o auditório. Isadora quer você na apresentação."

Passei o polegar pelo brasão da antiga escola.

"Por quê?"

"Porque você estudou lá e é ator da empresa. É uma justificativa bastante normal."

"Quando você precisa dizer que é normal, geralmente não é."

Babi suspirou.

"Noah, não sei o que aconteceu entre vocês. Mas sei que ela pediu seu histórico profissional completo. E sei que Leandro ficou apavorado quando soube."

"Ela pediu meu histórico?"

"E o de outros vinte e sete artistas. Não transforme tudo em uma mensagem secreta."

Guardei o convite.

"Eu vou."

Na segunda-feira, uma van da Aurora me buscou cedo. Isadora já estava no banco traseiro, trabalhando no tablet.

Ela usava um terno bege claro e mantinha os cabelos presos. Havia duas balas de nêspera no porta-objetos entre os bancos.

Fingi que não vi.

"Bom dia", ela disse.

"Bom dia, senhora Salles."

Ela ergueu os olhos.

"Você pretende continuar com isso?"

"Com educação? Espero que sim."

Um sorriso quase apareceu em sua boca.

Quase.

Seguimos em silêncio até o Colégio Horizonte.

O prédio parecia menor do que na minha memória. As árvores do pátio estavam mais altas, o muro tinha sido pintado de azul e o antigo auditório agora carregava rachaduras perto das janelas.

A diretora, dona Teresa, nos recebeu na entrada.

Ela reconheceu Isadora primeiro. Depois olhou para mim por alguns segundos e levou a mão ao peito.

"Noah Han Ribeiro?"

"A senhora ainda se lembra?"

"Como esquecer? Melhor ator do festival estudantil de 2016. Você fez metade do auditório chorar."

Olhei para Isadora.

"Pelo menos alguém se lembra de um papel em que eu estava vivo."

Dona Teresa não entendeu, mas Isadora sim.

Seu olhar escureceu.

Durante a visita, mostramos as salas aos representantes da empresa e conversamos com alunos interessados nas oficinas. Isadora sabia o nome de cada professor que continuava ali. Também lembrava qual janela emperrava e onde o piso rangia atrás do palco.

Era difícil conciliar aquela memória com a mulher que dissera que não éramos próximos.

Ao entrar no corredor do auditório, encontrei uma parede coberta por fotografias antigas.

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Na terceira fileira, havia uma imagem minha.

Eu tinha dezesseis anos, usava um paletó branco e segurava uma carta amassada diante do peito. Era a cena final de uma peça sobre um rapaz que passava a vida esperando uma resposta.

A ironia só se tornou evidente muitos anos depois.

"Você estava tremendo", disse Isadora atrás de mim.

"Era minha primeira peça."

"Não foi por isso."

Virei o rosto.

"Meu broche quebrou cinco minutos antes de eu entrar", contei. "O diretor disse que sem ele o figurino perderia o sentido. Quando voltei ao camarim, havia outro sobre a mesa. Igual ao original."

Toquei o vidro sobre a fotografia.

"Perguntei para todo mundo. Ninguém admitiu."

Isadora ficou ao meu lado.

"Não foi todo mundo."

Meu coração acelerou.

"O quê?"

"Fui eu."

Olhei para ela.

"Você?"

"Ouvi você discutindo com o figurinista. Saí pela porta dos fundos e encontrei um broche parecido numa loja perto da avenida."

"Você perdeu o começo da peça."

"Só os primeiros quatro minutos."

Ela se lembrava do tempo.

"Por que nunca me contou?"

Isadora olhou para a fotografia, não para mim.

"Pelo mesmo motivo que me fez colocar a bala na sua prova e olhar para a mesa quando falei com você. Eu tinha dezessete anos e era covarde."

Minha respiração ficou curta.

"E uma semana depois? Também foi covardia?"

Ela enfim me encarou.

Havia algo vulnerável em seus olhos, algo que não combinava com a presidente da Aurora.

"Noah, naquela semana minha mãe..."

"Isadora!"

A voz de Otávio atravessou o corredor.

Ele vinha acompanhado de dois assessores, uma equipe de filmagem e três repórteres. Carregava uma pasta com o logotipo da Braga Media.

Isadora se afastou de mim antes que as câmeras se aproximassem.

O movimento foi pequeno.

Ainda assim, eu senti.

"O que você está fazendo aqui?" ela perguntou.

"Soube que a Aurora estava investindo no futuro das artes. A Braga Media também quer participar."

Ele ergueu a pasta para as câmeras.

"Vamos dobrar o valor da reforma e financiar bolsas para vinte alunos."

Dona Teresa agradeceu, emocionada. Os repórteres cercaram Otávio e Isadora.

"Podemos considerar esta a primeira ação pública do futuro casal?"

Otávio sorriu e passou o braço pela cintura dela.

"Isadora sempre foi a melhor parte dos meus planos para o futuro."

Ela retirou discretamente o braço dele, mas não corrigiu a palavra casal.

Um assessor pediu que eu saísse do enquadramento.

Obedeci.

Era uma posição que eu conhecia bem: dois passos fora da imagem, perto o bastante para assistir, irrelevante demais para aparecer.

Antes de deixar a escola, dona Teresa me entregou uma cópia digital da gravação da peça.

"Você devia voltar ao palco", disse.

"Agora trabalho para a câmera."

"Então faça a câmera enxergar você."

Na van, abri uma plataforma de testes independentes e finalizei a inscrição para uma série policial de baixo orçamento. A seleção não tinha ligação com a Aurora.

Anexei meu currículo, duas cenas e o vídeo da peça escolar.

Depois encaminhei para meu e-mail pessoal todas as comunicações recentes com Leandro.

Isadora me observava do outro lado do corredor.

"Está procurando outro trabalho?"

"Estou procurando trabalho."

Ela apertou os lábios.

"Quando eu voltar do Rio, quero conversar sobre sua representação."

"Minha representação ou minha carreira?"

"As duas coisas."

"Então talvez devesse ter conversado antes de o seu futuro marido fazer isso por você."

O rosto dela endureceu.

"Otávio não fala por mim."

"Ele parece convencido do contrário."

A van parou diante da Aurora. Desci sem esperar resposta.

No corredor do décimo andar, encontrei Otávio falando ao telefone perto dos elevadores. Ele fez um gesto para que o interlocutor aguardasse e me encarou.

"Gostou da visita ao passado?"

"Algumas coisas estavam melhores antes de você chegar."

"Aproveite as lembranças, Noah. Elas são o único lugar onde você e Isadora pertencem à mesma história."

Entrei no elevador.

Antes que as portas se fechassem, ouvi Isadora se aproximar, ainda respondendo mensagens no celular.

Otávio falou com ela em voz baixa, mas o corredor estava vazio.

"Quer que eu resolva a situação daquele artista que pode atrapalhar nossos projetos?"

Isadora nem levantou os olhos da tela.

"Faça como achar melhor."

As portas se fecharam entre nós.

Vi meu reflexo no metal do elevador e pensei no pedido de rescisão esperando no notebook.

Desta vez, eu não ficaria três dias diante de uma porta fechada.

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