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"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 2 — Você Comeu a Bala?

正文开头

Capítulo 2 — Você Comeu a Bala?

Não fiquei até o fim da festa.

Quando os convidados começaram a dançar e as câmeras se concentraram em Isadora e Otávio, entreguei minha taça intacta a um garçom e saí.

O aplicativo de transporte indicava espera de quinze minutos. Parei sob a marquise do hotel, afrouxei a gravata e respirei o ar frio da noite.

Meu corpo ainda doía da gravação.

Minha cabeça doía por razões piores.

Não éramos próximos.

Talvez eu devesse agradecer. Isadora havia resumido dez anos em três palavras e me poupado do trabalho de perguntar o que significara aquela bala, aquele perfil ou os três dias em que esperei por ela.

Uma notificação avisou que o carro chegara.

Vi um sedã preto parar diante da entrada. A placa começava com as mesmas letras mostradas no aplicativo. Abri a porta traseira e entrei sem olhar direito.

"Boa noite. Noah, final 4721."

A mulher ao volante virou o rosto.

Isadora.

Fiquei imóvel com a mão ainda na porta.

"Desculpe. Entrei no carro errado."

Tentei sair, mas ela acionou a trava.

"Eu levo você."

"Não precisa."

"Seu motorista está no carro de trás. A placa termina em nove, não em seis."

Olhei pela janela. Um sedã quase idêntico piscava o farol alguns metros adiante.

"Então pode destravar."

"Está tarde, Noah. E está começando a chover."

"Já passei tempo suficiente na chuva hoje."

Ela apertou o volante.

Por um instante, pensei que tivesse entendido a outra chuva escondida naquela frase.

Isadora destravou a porta.

Eu poderia ter saído.

Em vez disso, cancelei a corrida e fechei a porta novamente.

"Só porque já cobraram a taxa de cancelamento", menti.

Ela deu partida.

O silêncio dentro do carro era limpo demais. Havia um perfume discreto de madeira e roupa recém-lavada. A cidade passava pelas janelas em reflexos dourados.

"Você continua morando no Bom Retiro?" ela perguntou.

Meu olhar foi imediatamente para o retrovisor.

"Como sabe onde eu moro?"

"Seu endereço está no cadastro de artistas da empresa."

"Claro."

Ela percebeu o que eu pensara, porque sua boca se contraiu.

"Eu não procurei sua ficha por causa de hoje. Estou revisando os contratos de todo o catálogo."

"Não precisa explicar. A senhora é a presidente."

"Não me chame assim quando estamos sozinhos."

"Como devo chamar a minha chefe?"

Ela não respondeu.

O carro parou diante do meu prédio vinte minutos depois. Tirei o cinto e abri a porta.

"Obrigado pela carona, senhora Salles."

Desci antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

O vento frio atingiu meu rosto. Dei três passos e comecei a tossir. Minha garganta ainda estava irritada pela água usada na gravação.

Ouvi a porta do carro se abrir.

Isadora contornou o veículo e parou diante de mim. Abriu o porta-luvas, retirou alguma coisa e estendeu a mão.

Uma bala de nêspera.

A embalagem transparente tinha uma faixa verde e letras douradas. Era a mesma marca que quase não se encontrava mais em São Paulo.

正文1

Olhei para a bala. Depois para ela.

"Você ainda compra isso?"

"Às vezes."

"Por quê?"

Os dedos dela se fecharam um pouco em torno do papel.

"É bom para a garganta."

Outra resposta profissional. Outra porta fechada antes que eu pudesse atravessá-la.

Peguei a bala.

Nossos dedos se tocaram, e Isadora demorou um segundo a mais para soltar.

"Boa noite, Noah."

"Boa noite."

Esperei o carro desaparecer na esquina.

Dez anos antes, eu havia guardado a bala até ela derreter.

Dessa vez, tirei a embalagem no elevador e coloquei o doce na boca.

Era ácido no começo. Depois vinha o açúcar.

Quando entrei no apartamento, havia uma solicitação de contato no celular. O perfil tinha a mesma foto desfocada do Encore.

Aceitei.

A mensagem chegou imediatamente.

"Você comeu a bala?"

Fiquei olhando para as palavras.

Digitei: "Comi. Obrigado, senhora Salles."

Ela começou a escrever.

O aviso apareceu, desapareceu e apareceu outra vez.

Nenhuma mensagem veio.

Coloquei o celular no modo silencioso e fui dormir.

Na manhã seguinte, Leandro me esperava em uma sala de testes da Aurora.

"Temos uma ponta em uma comédia", anunciou. "Motorista de aplicativo. Uma fala."

"Qual fala?"

Ele abriu o arquivo.

"Chegamos."

"Um desafio emocional."

Leandro revirou os olhos.

"Você devia agradecer. Tem gente que mataria por uma oportunidade."

"Eu morri quatro vezes por oportunidades. Não funcionou."

Babi, que organizava papéis do outro lado da sala, abafou um sorriso.

Leandro saiu para atender uma ligação. Aproveitei para perguntar:

"Babi, houve algum teste para mim nos últimos meses? Teste de verdade."

Ela ergueu a cabeça.

"Por que está perguntando?"

"Meu contrato termina em cinco meses. Quero saber se a Aurora ainda pretende trabalhar comigo."

Antes que ela respondesse, a porta abriu.

Otávio Braga entrou sem bater.

Ele não precisava estar naquela ala. Braga Media era parceira comercial, não dona da Aurora. Mesmo assim, Leandro voltou atrás dele com a postura de quem acompanhava um presidente.

"Noah", disse Otávio. "Podemos conversar?"

Babi recolheu os papéis.

"A sala é de vocês."

Quando ficamos sozinhos, Otávio fechou a porta.

"Isadora contou que vocês estudaram juntos."

"Não falamos sobre a vida pessoal da presidente."

"Boa resposta. Continue usando."

Ele se sentou na beirada da mesa.

"Isadora é gentil com as pessoas que trabalham para ela. Às vezes, essa gentileza pode ser mal interpretada. Uma carona. Uma conversa. Um doce."

Meu maxilar endureceu.

"O senhor monitora o porta-luvas dela?"

O sorriso de Otávio ficou menor.

"Eu conheço a mulher com quem vou me casar."

"Então deveria conversar com ela, não comigo."

Ele se levantou.

"Você é mais corajoso do que seus papéis sugerem."

"Meus papéis não sugerem muita coisa. A maioria não tem fala."

Otávio chegou perto o bastante para que sua voz não atravessasse a porta.

"Guarde uma coisa, Noah. Neste setor, talento ajuda. Mas são as relações certas que mantêm uma pessoa trabalhando. Não transforme uma lembrança de colégio na relação errada."

Abriu a porta e saiu.

Leandro entrou logo depois.

"O que você disse a ele?"

"A verdade."

"A verdade não paga salário. Você precisa aprender quando baixar a cabeça."

Olhei para o roteiro sobre a mesa.

Motorista. Uma fala.

Três anos antes, eu aceitara aquilo como começo. Continuava aceitando porque tinha medo de que, se recusasse, nem o pouco que me davam sobraria.

Mas agora compreendi uma coisa.

Talvez não estivessem esperando que eu crescesse.

Talvez estivessem apenas verificando quanto tempo eu suportaria desaparecer.

Naquela tarde, pedi à administração uma cópia integral do meu contrato, do histórico de pagamentos e de todos os testes registrados em meu nome.

Leandro soube antes que eu voltasse para casa.

Ligou três vezes.

Não atendi.

Abri o notebook e criei uma pasta chamada DOCUMENTOS AURORA. Dentro dela, salvei cada comprovante que ainda possuía.

Depois abri um arquivo em branco.

No alto da página, escrevi:

Pedido de Rescisão Contratual.

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