"Ela Voltou Quando Eu Já Tinha Desistido" Capítulo 1 — A Bala Que Derreteu Há Dez Anos
Capítulo 1 — A Bala Que Derreteu Há Dez Anos
O diretor gritou "corta" às quatro e dezessete da manhã.
O cadáver caído no asfalto se levantou.
O policial baleado recebeu ajuda de dois assistentes. Até o figurante que interpretava o assassino ganhou uma toalha e um copo de café.
Eu continuei deitado sob a chuva artificial.
Meus pulsos estavam presos atrás das costas por uma abraçadeira de cena. A água gelada entrava pela gola da camisa, escorria pela coluna e se acumulava sob meu rosto.
Levantei a cabeça o máximo que consegui.
"Alguém pode me soltar?"
Ninguém ouviu.
Ou fingiu que não ouviu.
Naquela diária, meu personagem aparecia por oito segundos. Era um homem sequestrado, morto antes mesmo de a protagonista chegar ao galpão. Não tinha nome, fala ou close.
Na ordem de gravação, eu era apenas VÍTIMA 3.
Esperei até um assistente de iluminação passar perto de mim.
"Desculpa", chamei. "A trava ficou presa."
Ele olhou para meus pulsos e pareceu se lembrar de que eu existia.
"Caramba, achei que já tinham soltado você."
Também achei.
Ele cortou a abraçadeira com um alicate. Quando finalmente me sentei, a equipe já desmontava o cenário.
Meu agente, Leandro, apareceu olhando o celular.
"A produção gostou", disse, sem olhar para mim. "Você caiu bem."
"É bom saber que pelo menos sei morrer."
Ele não percebeu a ironia.
"A van sai em dez minutos. Não demora."
Era meu terceiro ano contratado pela Aurora Entretenimento.
Em três anos, eu havia interpretado dois garçons, um segurança desacordado, um namorado visto de costas e quatro cadáveres. Certa vez, meu rosto apareceu por tempo suficiente para minha mãe pausar a televisão e tirar uma foto.
Ela ainda mantinha aquela imagem como papel de parede.
Naquele trabalho, pelo menos, eu tinha direito a créditos.
No fim do episódio, depois de cento e vinte e três nomes, apareceria: Noah Han Ribeiro — Vítima 3.
Cheguei ao meu apartamento no Bom Retiro pouco depois das seis. Tomei um banho quente, engoli um analgésico e me joguei no sofá com os cabelos ainda molhados.
Meu celular mostrou três mensagens de Leandro.
Nenhuma perguntava se eu tinha me machucado.
A primeira lembrava que eu deveria devolver o figurino. A segunda dizia que a diária só seria paga no mês seguinte. A terceira era um convite para a festa anual da Aurora, naquela noite.
Respondi que iria.
Não porque quisesse passar horas observando atores famosos fingindo que se lembravam do meu nome. Meu contrato venceria em cinco meses. Eu precisava ser visto por algum diretor antes que a empresa decidisse que até me manter esquecido custava caro demais.
Tentei dormir, mas meu corpo ainda parecia sentir a chuva.
Abri o Encore, um aplicativo de encontros criado por Camila Rocha, uma antiga colega do colégio. Ela me convencera a instalar aquilo duas semanas antes.
"Você passa mais tempo fingindo que está morto do que conhecendo gente viva", dissera.
Até então, eu não havia discordado nem conhecido ninguém.
Deslizei três perfis para a esquerda. No quarto, meu dedo parou.
A foto mostrava apenas o contorno de uma mulher diante de uma janela. O rosto estava escondido pela luz. Não havia profissão, idade ou cidade.
Só uma frase.
"A bala de nêspera derreteu."
Sentei devagar.
Durante dez anos, nunca contei aquela história a ninguém. Nem à minha mãe, nem a Camila, nem aos colegas que me viram esperando sob a chuva diante dos portões fechados do Colégio Horizonte.
Faltavam vinte e três dias para a formatura quando Isadora Salles colocou uma bala de nêspera sobre minha prova de matemática.
Ela tinha dezessete anos. Eu, dezesseis.
"Depois da formatura, tenho uma coisa para contar a você", disse.
Guardei a bala no bolso em vez de comê-la.
Uma semana antes da cerimônia, a casa dos Salles amanheceu vazia. O número dela deixou de existir. Ninguém soube dizer para onde a família tinha ido.
Esperei três dias na entrada da escola.
No terceiro, a bala havia derretido dentro da embalagem.
Isadora não veio.
Eu me mudei, troquei de número e aprendi a fingir que aquela frase nunca tinha sido dita.
Agora ela estava na tela do meu celular.
Talvez fosse coincidência.
Mas coincidências não conhecem o sabor exato das coisas que nos partiram.
Deslizei o perfil para a direita.
O círculo do aplicativo girou uma vez.
Depois apareceu uma mensagem.
"Não foi possível concluir a combinação. Este perfil foi excluído."
Fiquei olhando para a tela vazia.
Ela desaparecera outra vez antes que eu pudesse fazer uma única pergunta.
Ri sem humor.
"Pelo menos você é consistente, Isadora."
Às sete da noite, vesti o único terno que eu tinha e fui à festa da Aurora.
O evento ocupava o salão principal de um hotel nos Jardins. Havia um corredor de fotógrafos na entrada, painéis com produções da empresa e mesas marcadas de acordo com a importância de cada convidado.
As estrelas das novelas ficaram perto do palco.
Os atores com séries em lançamento ocuparam as mesas centrais.
Meu nome estava na última fileira, entre um influenciador adolescente e um dublê que eu conhecia apenas como Caveira.
"Noah!"
Babi Costa atravessou o salão em minha direção. Ela comandava o setor de gestão de talentos e era uma das poucas pessoas na Aurora que ainda tentava me conseguir testes.
"Você veio. Ótimo. A nova presidente quer conhecer o catálogo inteiro da empresa."
"Inteiro?"
Olhei para as centenas de convidados.
"Talvez ela chegue à minha mesa na próxima década."
Babi apertou meu braço.
"Não faça piada. Augusto Salles entregou a operação para a filha. Ela passou anos fora do país, reestruturou duas empresas do grupo e voltou para assumir tudo."
As luzes diminuíram.
No palco, Augusto Salles fez um discurso curto. Depois pronunciou o nome da nova presidente.
Isadora Salles entrou sob uma chuva de flashes.
O salão inteiro aplaudiu.
Eu não consegui mover as mãos.
Ela usava um vestido branco de corte simples. Os cabelos escuros caíam sobre um dos ombros, e sua expressão era a mesma que eu lembrava: calma o bastante para ninguém perceber o que ela sentia.
Dez anos desapareceram por um segundo.
Então Isadora falou sobre cinema brasileiro, novas produções e oportunidades para talentos esquecidos dentro do próprio catálogo.
Talentos esquecidos.
Quase ri.
Quando o discurso terminou, Babi me puxou antes que eu pudesse escapar.
"Venha."
"Babi, ela está cercada."
"Por isso mesmo."
Atravessei o salão atrás dela. A cada passo, meu peito ficava mais apertado.
Isadora cumprimentava produtores e atores com a segurança de quem pertencia àquele lugar. Eu conhecia a garota que rabiscava respostas no canto do meu caderno. Aquela mulher parecia pertencer a outro mundo.
"Isadora", disse Babi. "Quero apresentar um dos nossos atores. Noah Han Ribeiro. Está conosco há três anos."
Os olhos dela encontraram os meus.
O sorriso profissional desapareceu por menos de um segundo.
"Noah", ela disse.
Ouvir meu nome em sua voz doeu mais do que deveria.
"Senhora Salles."
"Há quanto tempo."
"Dez anos."
Babi ergueu as sobrancelhas.
"Vocês se conhecem?"
Um fotógrafo virou a câmera em nossa direção. Duas pessoas próximas diminuíram a conversa para ouvir.
Isadora manteve os olhos em mim.
"Estudamos juntos", respondeu. "Não éramos próximos."
As palavras pousaram entre nós com uma delicadeza quase cruel.
Assenti.
"É verdade. Não éramos."
Babi percebeu a tensão e começou a falar sobre minha última diária. Eu não ouvi. Estava ocupado demais recolocando dentro de mim tudo o que aquele rosto havia arrancado.
Foi então que um homem alto, de terno grafite, aproximou-se por trás de Isadora.
Ele apoiou a mão em sua cintura com a intimidade de quem sabia que havia câmeras por perto.
"Você desapareceu", disse a ela.
Os fotógrafos reagiram imediatamente.
"Isadora, olhem para cá!"
"Otávio, já marcaram a data?"
"Quando será o casamento?"
O homem sorriu para as câmeras. Depois olhou para mim.
"E quem é seu amigo?"
Isadora ainda não havia afastado a mão dele.
Babi respondeu antes dela.
"Noah Ribeiro. Ator da Aurora."
Otávio repetiu meu nome como se tentasse encontrá-lo na memória e não conseguisse.
"Prazer. Otávio Braga."
Eu sabia quem ele era. Herdeiro da Braga Media. Dono de festivais, canais e metade das portas que um ator como eu jamais conseguiria abrir.
Estendi a mão.
"Prazer."
Um repórter tornou a perguntar sobre o noivado.
Isadora desviou os olhos de mim.
E continuou sem negar.
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