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"O Verão em Que Deixei de Esperar por Ele" Capítulo 4 — Ele Me Encontrou em Brasília

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Capítulo 4 — Ele Me Encontrou em Brasília

Dezenove horas depois de sair de Campinas, desci do ônibus em Brasília com uma mala, uma mochila e a sensação de ter atravessado muito mais que uma estrada.

O céu parecia grande demais. Não havia montanhas fechando o horizonte, nem ruas antigas que guardassem uma lembrança de Gabriel em cada esquina.

No alojamento estudantil, uma garota de cachos escuros abriu a porta do quarto antes que eu batesse.

“Você deve ser Elisa. Sou Camila. A cama perto da janela está livre.”

Ela me ajudou com a mala sem perguntar por que eu chegara sozinha. Naquela tarde, fomos juntas buscar minha identificação de caloura e cortar meu cabelo na pequena barbearia perto do campus.

Quando os fios caíram até meus ombros, não senti que estava perdendo alguma coisa.

Senti meu rosto aparecer.

Os primeiros dias foram preenchidos por palestras, mapas de prédios, filas e nomes novos. Pela primeira vez, ninguém me apresentava como a menina criada pelos Vasconcelos ou como a futura esposa de Gabriel.

Eu era Elisa Nogueira, aluna de Relações Internacionais.

Na terceira noite, Camila apontou para meu celular.

“Esse cara está tentando chamar sua atenção.”

Gabriel havia publicado quinze fotos em menos de dois dias. Ele e Bianca diante do Congresso, no Eixo Monumental, em um restaurante com vista para o lago. Em uma delas, Bianca apoiava a cabeça em seu ombro.

A legenda dizia: Alguns sonhos são melhores quando compartilhados com quem merece.

Eu conhecia Gabriel o bastante para entender o recado.

Bloqueei o perfil.

“Ex?” Camila perguntou.

“Um erro antigo.”

No sábado, participei de uma atividade de integração no gramado. Estávamos organizados em grupos quando ouvi meu nome atrás de mim.

Gabriel atravessava o espaço com passos rápidos. O rosto dele alternava espanto e raiva.

“O que você está fazendo aqui?”

“Estudando.”

Ele olhou para o crachá pendurado em meu pescoço e tentou arrancá-lo.

Recuo um passo e segurei sua mão antes que tocasse em mim.

“Não encoste.”

“Você falsificou isso?”

Alguns alunos se viraram. Gabriel baixou a voz, mas avançou outra vez.

“Elisa, você rasgou a matrícula de Enfermagem. O processo encerrou. Não existe nenhuma maneira de estar matriculada aqui.”

“Existe. Só não passa por você.”

Ele segurou meu pulso.

“Vamos embora antes que alguém descubra.”

“Solte.”

“Estou tentando evitar que seja expulsa.”

Camila se aproximou.

“Ela pediu para você soltar.”

Um monitor também veio até nós, seguido por dois seguranças do campus.

Gabriel largou meu braço, mas apontou para o crachá.

“Verifiquem a matrícula dela. Sou o noivo e responsável pela família. Ela não foi aprovada para esse curso.”

“Ele não é meu noivo nem meu responsável”, falei. “E quero registrar que entrou numa atividade estudantil, segurou meu braço e tentou me retirar daqui contra minha vontade.”

O monitor pediu nossos documentos. Gabriel entregou o dele com um sorriso tenso, como se a checagem fosse confirmar sua versão.

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Dez minutos depois, uma mulher de blazer azul chegou com uma pasta. Apresentou-se como Helena Duarte, coordenadora de acolhimento acadêmico.

“Elisa Nogueira está regularmente matriculada em Relações Internacionais”, declarou. “A admissão ocorreu pelo Programa Legado Nacional. Identidade, desempenho acadêmico, entrevista e documentação familiar foram verificados por uma comissão federal.”

Gabriel perdeu a cor.

“Programa de quê?”

Helena abriu a pasta apenas o suficiente para mostrar o cabeçalho, sem expor meus dados.

“Uma política de proteção educacional para filhos de servidores mortos em missão oficial.”

Os olhos dele voltaram para mim.

“Seus pais?”

“Sim.”

“Por que nunca me contou?”

“Porque você nunca perguntou o que havia na caixa que eu guardava. Só perguntou quando eu aceitaria a vida que escolheu.”

Ele passou a mão pelos cabelos.

“Então foi isso. Você usou contatos para me desafiar.”

Não havia orgulho por mim, nem alívio por meu sonho ter sobrevivido. Apenas a ofensa de descobrir uma porta que ele não controlava.

“Não”, respondi. “Eu exerci um direito. Desafiá-lo foi apenas uma consequência.”

Os seguranças o acompanharam até a saída. Antes de ir, Gabriel olhou para meu pulso, onde os dedos dele haviam deixado marcas vermelhas.

Por um instante, pareceu envergonhado.

Então disse:

“Quando essa fantasia acabar, não diga que não tentei ajudar.”

Helena registrou o incidente. Camila fotografou as marcas em meu braço, e eu as anexei ao relato.

Pensei que o dia tivesse terminado ali.

No fim da tarde, Bianca apareceu perto do restaurante universitário acompanhada por um aluno que conhecera pela internet. Ela chorava antes mesmo de chegar perto.

“Elisa, como você pôde mandar expulsarem meu irmão?”

O pátio estava cheio. Celulares se ergueram discretamente.

“Ele foi retirado porque me segurou e mentiu dizendo que era meu responsável.”

“Ele ficou preocupado! Você desapareceu, rasgou sua matrícula e veio para Brasília sem contar nada. Depois de tudo que nossa família fez, usa a morte dos seus pais para conseguir uma vaga e trata Gabriel como criminoso?”

Camila fez menção de responder. Toquei em seu braço.

Eu mesma cuidaria daquilo.

“Bianca, você sabia que Gabriel entrou na minha conta?”

“Ele só corrigiu uma decisão impulsiva.”

“Sabia ou não?”

“Você precisava ficar em Campinas.”

“Para cuidar de você.”

Ela olhou ao redor, percebendo tarde demais que todos ouviam.

“Não foi assim.”

Peguei o celular e reproduzi o áudio gravado diante da minha porta.

A voz de Gabriel saiu clara pelo alto-falante:

“Fui eu quem entrou na conta. Fui eu quem confirmou.”

Em seguida, minha pergunta:

“E o que esperam em troca?”

Depois, ele afirmando que eu faria parte da família.

O choro de Bianca parou.

“Você gravou escondido?”

“Gravei uma confissão sobre o uso dos meus dados.”

Ela tentou pegar o telefone. Camila se colocou entre nós.

“Não toca nela.”

Bianca recuou ao ouvir os comentários ao redor. O aluno que a levara até o campus se afastou como se não quisesse mais ser associado à cena.

“Você sempre foi ingrata”, ela sussurrou.

“E vocês sempre chamaram obediência de gratidão.”

Ela se virou e saiu quase correndo.

Naquela noite, recebi uma mensagem de um número desconhecido.

Você acha que venceu porque tem um crachá?

Logo abaixo havia um vídeo de quarenta e dois segundos.

Abri o arquivo.

Otávio estava sentado em seu escritório, falando com Gabriel. A imagem tremia, como se alguém gravasse pela fresta da porta.

“Preciso que Elisa assine a apresentação do projeto”, dizia ele. “Com o nome dos pais dela, a comissão de logística hospitalar vai nos receber.”

Gabriel pareceu confuso.

“O que ela tem a ver com o contrato?”

Otávio riu.

“Por que acha que mantive aquela menina por perto durante todos esses anos?”

O vídeo terminou.

Fiquei olhando para a tela escura, vendo meu próprio reflexo.

Então baixei o arquivo original e desliguei o celular da internet.

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