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"O Verão em Que Deixei de Esperar por Ele" Capítulo 3 — A Vaga Que Ele Não Podia Apagar

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Capítulo 3 — A Vaga Que Ele Não Podia Apagar

Augusto chegou à minha casa às oito da manhã com uma pasta de couro gasta.

Eu o reconheci antes que dissesse meu nome. Os cabelos estavam quase brancos, mas ele ainda mantinha a postura reta das fotografias ao lado de meu pai.

Coloquei diante dele a declaração falsa, o histórico de acesso e as gravações.

Augusto ouviu a confissão de Gabriel sem interromper. Quando terminou, tirou os óculos e os deixou sobre a mesa.

“Isso será investigado”, disse. “Mas não é esse documento que decidirá sua entrada na universidade.”

Abriu a pasta.

Lá estavam duas certidões com selos oficiais, cópias das condecorações e uma fotografia de meus pais diante de um avião de carga. Minha mãe sorria para a câmera. Meu pai segurava uma prancheta contra o peito.

Eu conhecia aquela foto. Não conhecia os documentos atrás dela.

“Seus pais morreram durante uma missão humanitária reconhecida pelo Estado brasileiro”, Augusto explicou. “Por isso, você é beneficiária do Programa Legado Nacional.”

“Nunca ouvi esse nome.”

“Sua avó ouviu. Ela não quis usar o programa enquanto pudesse criar você com os próprios recursos. Disse que a decisão seria sua quando completasse dezoito anos.”

Ele mostrou o regulamento. O programa mantinha vagas adicionais em universidades federais para filhos de servidores mortos em missão oficial. A seleção não dependia do portal comum, mas exigia comprovação de identidade, desempenho mínimo, entrevista e um plano acadêmico.

Uma linha fez meu coração disparar:

Relações Internacionais — Universidade de Brasília.

“Essa vaga é minha?”

“Ela pode ser sua. Sua identidade lhe dá o direito de concorrer. Suas notas e sua entrevista precisam provar que você sabe o que fazer com esse direito.”

Empurrei a pasta de volta para ele.

“Então me diga onde assino.”

Augusto sorriu pela primeira vez.

“Você vai preencher tudo. Eu só certificarei o que testemunhei.”

Passei os dois dias seguintes diante do computador. Reuni boletins, certificados de idiomas, documentos da pensão, certidões da missão e as medalhas fotografadas em alta resolução.

Na carta de motivação, não escrevi que merecia a vaga porque era órfã. Escrevi que crescera vendo decisões internacionais chegarem à vida de famílias comuns antes mesmo de elas compreenderem seus nomes. Escrevi que queria estudar negociação, política externa e cooperação humanitária para estar do outro lado dessas decisões.

Augusto leu apenas quando terminei.

“Não quer mencionar Gabriel?”

“Ele não é a razão de eu querer ir.”

“Boa resposta.”

A entrevista aconteceu por videochamada na sexta-feira. Três pessoas apareceram na tela: uma representante do programa, um professor da UnB e uma psicóloga.

Perguntaram sobre meus pais, mas não permiti que a memória deles respondesse por mim.

Falei em inglês quando o professor mudou de idioma. Resumi um texto em espanhol. Expliquei por que a assistência humanitária precisava respeitar soberania sem abandonar pessoas em risco.

No final, a representante perguntou:

“Se sua inscrição regular não tivesse sido comprometida, ainda solicitaria esta vaga?”

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Pensei por alguns segundos.

“Talvez não. Eu tinha medo de que usar um direito ligado à morte dos meus pais diminuísse o valor das minhas conquistas.”

“E o que mudou?”

“Entendi que recusar a proteção que eles ajudaram a construir não os traz de volta. Só permite que outra pessoa decida por mim.”

Depois da chamada, fechei o notebook e fiquei sentada no escuro.

Eu não sabia se tinha sido aprovada. Mas, pela primeira vez desde a mudança da inscrição, o resultado dependia do que eu havia feito naquela sala, não do que Gabriel fizera escondido.

Quatro dias depois, chegou um envelope vermelho e branco.

Universidade de Brasília.

Programa Legado Nacional.

Meu nome estava impresso abaixo do brasão.

Li a carta uma vez. Depois outra. Na terceira, as letras ficaram borradas.

Encostei o envelope no peito e chorei no chão da cozinha, diante do cartão-postal do Itamaraty.

Não telefonei para Gabriel.

Não publiquei nada.

Aceitei a vaga pelo portal exclusivo, baixei o comprovante e guardei a carta dentro da caixa azul com as medalhas.

No dia seguinte, alguém bateu à porta com tanta força que o vidro da janela tremeu.

Gabriel entrou antes que eu o convidasse. Estava suado, sorrindo e segurava um envelope de uma faculdade de Campinas.

“Chegou”, anunciou. “Sua pré-matrícula em Enfermagem.”

Colocou o documento sobre a mesa como se fosse um troféu.

“Agora você pode parar com essa guerra. Meu pai já falou com a clínica onde fará estágio. Também comprei duas passagens para Brasília.”

“Para quê?”

“Você sempre quis conhecer a cidade. Vamos passar quatro dias lá antes das aulas. Eu mostro a UnB, o Itamaraty, tudo. Depois voltamos e você começa sua vida de verdade.”

Conhecer meu sonho como turista.

Depois voltar para viver o sonho que ele havia escolhido.

Peguei o envelope da faculdade.

Gabriel abriu um sorriso maior, convencido de que eu finalmente aceitara.

Rasguei o documento ao meio.

O sorriso desapareceu.

Rasguei de novo. E outra vez. Os pedaços caíram sobre o piso da cozinha.

“Você enlouqueceu?”

Ele se ajoelhou para recolher o papel.

“Isso é a sua matrícula! Quer perder um ano só para me punir?”

“Não estou punindo você.”

“Então o que está fazendo?”

“Recusando.”

Gabriel levantou-se com fragmentos amassados entre os dedos.

“Você não tem outra faculdade, Elisa. O prazo acabou. Sua escolha foi registrada. Pode me odiar, mas não pode mudar a realidade.”

“Você sempre fala da realidade quando quer dizer obediência.”

“Estou tentando salvar seu futuro!”

“Você tentou possuir meu futuro.”

Ele bateu os papéis na mesa.

“Sem mim, você não paga aluguel em Brasília. Sem meu pai, ninguém abre uma porta para você. Quando entender isso, não venha dizer que eu não avisei.”

Abri a porta.

“Saia.”

Gabriel me encarou por um longo instante. Seus olhos estavam vermelhos, mas a raiva ainda era maior que qualquer arrependimento.

“Você vai se arrepender.”

“Essa decisão será minha também.”

Ele saiu e bateu a porta.

Esperei o som de seus passos desaparecer no corredor. Depois recolhi os pedaços do chão e os joguei no lixo.

Abri a caixa azul.

A verdadeira carta de admissão estava entre as medalhas dos meus pais.

Meu lugar na UnB não existia porque Gabriel permitira. Não existia porque Augusto pedira um favor. O Estado o reservara para filhos de pessoas que haviam partido em missão e nunca voltado para casa.

Eu ainda precisara apresentar minhas notas, defender meu projeto e conquistar a aprovação do comitê.

Mas a porta estava ali porque meus pais, mesmo ausentes, haviam deixado uma última forma de proteção.

Entrei no portal do programa e confirmei a matrícula.

Em seguida, comprei uma passagem de ônibus para Brasília. Dezenove horas de viagem, uma mala, nenhum acompanhante.

Na tela final, o sistema perguntou se eu tinha certeza.

Cliquei em “sim”.

Desta vez, fui eu quem escolheu.

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